quinta-feira, outubro 19, 2017

A espera 2

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

Mais sobre a espera aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aquiaqui e aqui.

A espera 1

Sentou-se e esperou. Esperou pelo autocarro, esperou que a chuva passasse, esperou que a mulher o visse, esperou que os filhos o compreendessem, esperou que o chefe lhe reconhecesse valor, esperou por dias melhores. Percebeu que estava na paragem errada. Levantou-se e correu. Ainda estava a tempo de se apanhar.

nanocontos

terça-feira, outubro 17, 2017

Se eu agora inventasse o mundo

Se eu agora inventasse o mundo
criaria a luz da manhã já explicada
sem o luto que pesa
na sombra dos homens
- conspiração da noite 
com as pedras.
[...]
José Gomes Ferreira, Elegia fria com lírios inventados

domingo, outubro 15, 2017

Indago a forma definitiva do outono


Indago a forma definitiva do outono.
Um diálogo pode mudar a paisagem.
Fazer nascer um poema.
Criar obsessões.
Destruir emboscadas.
Cada instante é a metamorfose
de uma asfixia interior.
Confundo os caracteres e um imaginário
se revela numa iconografia fantástica.
Nas entrelinhas, um espectáculo de ironias
reitera entregas e recusas
como um dever por cumprir.

Graça Pires, Outono: lugar frágil, 1994

sexta-feira, outubro 13, 2017

O contrário de qualquer coisa


Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável? 
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa? 
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade. 
Assim, como sou, tenham paciência!



F. Pessoa - A. Campos, "Lisbon Revisited" (excerto)

domingo, outubro 08, 2017

Retrato

A foto do cartão da escola do 9.º ano

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- Em que espelho ficou perdida
a minha face?


Cecília Meireles, Antologia Poética

sexta-feira, outubro 06, 2017

Se te pergunto o caminho

Se te pergunto o caminho, falas-me das rochas
que mortificam o dorso das montanhas; e do ranger
da água no galope dos rios; e das nuvens que coroam
as paisagens. Contas que a noite geme nas fendas
dos penhascos porque as cidades apodreceram junto
às margens; que o vento é um chicote que desaba
os chapéus; que terra treme; que o nevoeiro cega; e
que as casas onde o medo se extinguia na longa bainha do
vestido da mãe cederam ao peso das mágoas dentro delas.
E, se mesmo assim quero ir, dizes que os meus passos
se perderiam no comprimento das sombras ― que não há
mapas para os sonhos de quem morre de amor; e que
os ramos debruçados dos muros das ruínas rasgariam
a carne ― como um sorris rasga o tecido de um rosto.
Se não me amas, porque me avisas assim da dor?

Maria do Rosário Pedreira