domingo, maio 24, 2015

Leituras

 «Quando estudante universitária, detestava Schopenhauer; mais tarde, compreendi que devia reter da sua teoria que qualquer relação sentimental é uma possibilidade de agressão, e, quanto mais deixo um homem aproximar-se, mais vias se abrem pelas quais o perigo me pode atingir. Não me foi fácil admitir que eu devia, para mais, contar com Emerence, a sua existência tornara-se uma das componentes da minha vida e, no início, fiquei apavorada com a ideia de a perder, se lhe sobrevivesse, o que aumentaria o meu exército de sombras, cuja presença imanente e intangível me perturba e me mergulha no desespero.
Esta tomada de consciência em nada se modificou pelo comportamento de Emerence, variando segundo um número incalculável de chaves: por vezes, ela tratava-me de um modo tão rude que um estranho, se assistisse, se espantaria porque tolerava isso. Tal não contava: há muito que eu já não prestava atenção aos movimentos tectónicos que agitavam a superfície de Emerence; ela deve ter descoberto o mesmo, e, por mais que não quisesse arriscar o coração, (...) também ela não podia escapar à sua afeição por mim.»


Magda Szabó, A Porta

Ao rubro





"Colhidas" ontem à tarde, no caminho para a horta, onde nos esperavam as cerejas, os morangos e as alfaces.

Bom domingo!

No meio dos silêncio

Sentas-te no meio do silêncio,
esse espaço de cinza.
Dele fizeste a tua casa, 
a tua arma - a única -,
o teu refúgio...

Sentas-te nesse lugar
onde o verde e os poentes
são, por ora, uma miragem,
ecos de um sonho.

Perdeste o trilho - sabe-lo bem -
que podia conduzir-te à ternura,
que podia resgatar-te de ti,
por isso sentas-te e esperas.

Esperas, embora saibas que a espera
é uma arma apontada ao teu peito,
uma espada a escassos centímetros
da tua cabeça...

Ainda assim, esperas...

Deep, Fevereiro de 2013


Devaneio em repetição por aqui...

sexta-feira, maio 22, 2015

Abraçar


Almada Negreiros e Sarah Affonso

Há abraços que, só de vê-los, nos fazem sentir abraçados...

Um abraço para quem me visita.

domingo, maio 17, 2015

Palavras alheias

Mareantes do vento

Crescemos na nudez das rochas

crescemos e desmaiamos
conforme as marés

Vertemo-nos líquidos
em caudais de sons
ardidos no sal
no delírio da espuma
por todo o corpo

Crescemos na substância das pedras
com asas muito leves

Não somos barco de carregar velas
somos mareantes do vento

Eufrázio Filipe (Aqui)