Passamos o tempo a tentar recuperar o passado, a resgatar pessoas e acontecimentos, como se fosse possível voltar atrás e repor as coisas nos lugares aos quais pertenciam ou pareciam pertencer. Por isso, coleccionamos números de telefone, que ficam depositados nos cadernos de endereços ou no telemóvel e que só excepcionalmente usamos, por isso pedimos ou aceitamos amizade no Facebook de pessoas que tiveram residência na nossa vida e que procuraram outras moradas, por isso relemos a correspondência que guardamos religiosamente e nos comovemos com fotos antigas.
Sabemos que nada regressa, muitas vezes nem queremos que as coisas voltem a ser exactamente como antes. Desejamos que as pessoas voltem mais maduras, com novas experiências para partilhar e uma disponibilidade diferente para os sentimentos, que não têm de ser os de antes. Chegamos a acreditar que sobreviveríamos a uma serena amizade com alguém com quem antes vivemos um amor que, durante tempo demais, ameaçou destruir-nos. Queremos acreditar que nós próprios teremos mais para dar, que seremos capazes de nos reinventarmos.
Não há recuperação possível, porque, obviamente, o tempo corre mais depressa do que nós e a vida precipita-nos por caminhos diferentes e também talvez porque a vontade do "resgate" não é sempre de uma e de outra parte simultânea.





