quarta-feira, junho 29, 2016

Em repetição

Segue os trilhos da infância.
Não os percas de vista.

Neles, encontrarás um som.
Talvez o chiar dos carros de bois 
de regresso à aldeia,
no fim de uma tarde de Verão,
talvez o canto das cigarras.

Segue-os...
Neles, encontrarás aquele raio de luz
que, intrometendo-se pelas frinchas do telhado,
ilumina os objetos quotidianos que repousam
sobre a mesa e sobre o velho escano.

Segue esses trilhos primeiros...
Neles, habitam ainda o aroma amargo
das giestas e o toque resinoso das estevas.

Encontrarás pedras, é certo.
Cobrir-te-ás de pó... não duvides.

Mas deles emergirão as vozes
que te seguram e que te guiam

no regresso a ti.

deep, 8 e 9 de Fevereiro de 2016


Para ouvir aqui. (A gravação é uma experiência, apenas.)

domingo, junho 26, 2016

Isto é o meu corpo

Isto é o meu corpo. Aquí
coincidem a linguagem e o amor.
A soma das linhas
que escrevi desenhou
não o meu rosto, mas qualquer coisa mais humilde:
o meu corpo. Isto que tocas é o meu corpo.
digo-to
de outra maneira. Isto que tocas
não é um livro, é um homem.
Eu acrescento que isto que te toca agora
é um homem.
Sou eu, porque não há
nem uma única sílaba que esteja livre de amor,
não há nem uma só sílaba
que não seja um centímetro
quadrado da minha pele.
No poema sou acariciável
não menos que na noite, quando tenho
o meu sonho paralelo ao sonho que amo.
Não mosaico, nem número, nem soma.
Não é só isso.
Isto é uma entrega. Sou pequeno
e grande entre as tuas mãos.
Esta é a minha salvação. Este sou eu.
Este rumor do mundo é o amor.
Juan Antonio Gonzalez Iglesias

Pois podiam

Estas palavras podiam ser minhas tantas vezes. 

sexta-feira, junho 24, 2016

Talvez seja...

Sem criatividade, sem tempo, sem vontade... 

Há trabalhos que, ao fim de algum tempo, nos "matam"... 

Só me ocorre Campos:


Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.


Bom fim-de-semana para quem (ainda) passa. :)

quarta-feira, junho 22, 2016

Há um rumor

Há um rumor de folhagem
nas tardes lentas da infância,
há vozes longínquas
que o calor estrangula.

Sentada no silêncio,
entregue à penumbra
estendo as mãos,
mas da limpidez
e da frescura das fontes
os dedos tocam só a memória.

Há, de quando em quando,
uma rã que me ensina
o desgaste das pedras,
o verde dos limos,
há ainda o odor dos pomos
que, debruçados,
trocam serenas palavras com a água.

Junho de 2009


Quase em repetição, visto que fiz, entretanto, pequenas alterações.

segunda-feira, junho 20, 2016

terça-feira, junho 14, 2016

Pinta-amores

Uns "pinta-amores", para a colecção da Luísa.


Num muro, em Vouzela


Num banco de jardim, no Porto


No chão, em Ponta Delgada


Numa parede, no Porto


Numa loja, no Porto


Numa parede, em Trás-os-Montes


Numa porta, em Trás-os-Montes


Na apanha da batata, em Trás-os-Montes


Num banco de jardim, em Castelo Branco


Numa parede, em Trancoso


Numa parede, em Évora

Numa rua, em Delft


Na estação de metro do Bolhão, Porto

Num jardim, em Ponta Delgada