quinta-feira, fevereiro 11, 2016

Do lado de cá...



... em duas versões!

É tão difícil

Essa folha, aí. Tão branca que nem a neve é assim tão fria. Aproximo os dedos numa espécie de carícia, tentando atenuar, diluir tanta hostilidade, mas logo recuam tocados pelo medo. É tão difícil. Porque essa brancura queima, arde silenciosa num fogo que ninguém vê. Durante muito tempo só os olhos a procuram, a contemplam. Imóveis, sem afrouxarem de intensidade. Ouvem-se quase os latidos do pulso. De súbito, os dedos distendem-se, saltam; no seu movimento de falcão já não acariciam, antes rasgam, dilaceram, perseguem a presa numa luta onde não há tréguas, vão deixando na neve sinais da sua presença, ora triunfante, ora aflita, por vezes quase morta.
Eugénio de Andrade, Vertentes do Olhar

Imagem de Soizick Meister

Tem sido um braço de ferro. A folha branca tem vencido. Não tem sido fácil.

quarta-feira, fevereiro 10, 2016

Pale blue eyes

As laranjas


«Os meus amigos oferecem-me amor /(...),/em gomos de laranja dos seus quintais (...)»

(O "devaneio" completo aqui.)

Eu que te olho com este medo

Eu que te olho com este medo
de animal no fim da cadeia alimentar
que me aproximo do teu coração
como de uma armadilha ocultada
eu que estou desenhada para descobrir
esses sons na mínima folhagem
perante ti fico tão desamparada
que toda a floresta fica desflorestada
e não há sítio onde a noite se saiba sossegada.
Ana Salomé