Sexta-feira, Janeiro 27, 2012

Espero sempre por ti o dia inteiro



Espero sempre por ti o dia inteiro,
Quando na praia sobe, de cinza e oiro,
O nevoeiro
E há em todas as coisas o agoiro
De uma fantástica vinda.


Sophia de M. B. Andresen

Quarta-feira, Janeiro 25, 2012

Quando nos dá para as arrumações...


... pode acontecer esbarrarmos com as palavras dos outros. 


O poema que, de seguida, transcrevo foi escrito, há muitos anos, por um amigo. Desconheço se publicou este e outros poemas que me deu a ler. Encontrá-los foi uma boa surpresa. Espero que, se por algum acaso, ele chegar aqui, não se zangue com esta minha ousadia.

A margem do silêncio
floresce, muda, nas sombras.

Na hora 
incerta em que 
o orvalho fecunda
(as palavras 
mordidas em sobressalto).

Silêncio flor silêncio
Silêncio flor silêncio

E a vertigem do abismo
assalta-me... pela manhã.

N. B.

Sábado, Janeiro 21, 2012

Mapa-Mundi

Fugas

Tendemos a evitar a tristeza alheia, receosos, talvez, de acordarmos os nossos fantasmas e de, num eventual confronto, sairmos derrotados. Preferimos passar ao lado ou descansar a consciência, pronunciando breves palavras de ânimo que, mais do que reticências ou dois pontos, soam a ponto final.
Num tempo em que tudo se vende e se aluga, receamos oferecer por demasiado tempo, sem contrapartida, o ombro que, noutros tempos mais lentos e generosos, se apelidou de “amigo”.
Pior do que isso: apavora-nos a perspectiva de, pelas palavras que proferimos, podermos cair num sentimentalismo exagerado que nos faça parecer ridículos e que manche a nossa imagem de homens e de mulheres sérios, fortes e responsáveis. Por igual motivo, omitimos os abraços.
Por isso, preferimos iludir a dor, a dos outros e a nossa, com faits-divers, com problemas sérios e palpáveis (que não nos assustem pela ambiguidade), preferimos fingir uma juventude que se eterniza na imagem, nos gestos e no riso fácil, preferimos os diálogos breves que não nos obriguem ao desconforto de um olhar-nos-olhos prolongado, preferimos não ter de colocar questões para não termos de perder tempo em busca das respostas.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

Azul

Destino


Acordo com os pássaros cativos,
Com a ária da vida nos ouvidos,
acordo sem amarras nos sentidos,
Fiéis à sempiterna liberdade...
Nada pôde vencer a lealdade
que juraram à deusa aventureira.
Nem as grades do sono, nem a severidade
Da noite carcereira.

Acordo e recomeço
O canto interrompido:
O desvairado canto
Da ira irrequieta...
- O canto que o poeta
Se obrigou a cantar
Antes de ter nascido,
Antes de a sua angústia começar.


Miguel Torga


No dia 17 de Janeiro de 1995, partia Adolfo Correia da Rocha. Ficou-nos Miguel Torga.

Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

Abaixo de zero...

Below zero from Manuel Teles on Vimeo.


... têm sido as temperaturas por cá, nos últimos dias.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

Feliz 2012!



... é tudo o que desejo para mim e para todos quantos ainda passam por cá!

(Imagem daqui)

Quinta-feira, Dezembro 22, 2011

Vinicius de Moraes - Poema de Natal



Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

Guess I'm doing fine



There's a blue bird at my window
I can't hear the songs he sings
All the jewels in heaven
They don't look the same to me

I just wade the tides that turned
Till I learn to leave the past behind

It's only lies that I'm living
It's only tears that I'm crying
It's only you that I'm losing
Guess I'm doing fine

All the battlements are empty
And the moon is laying low
Yellow roses in the graveyard
Have no time to watch them grow

Now I bade a friend farewell
I can do whatever pleases me

(...)

Press my face up to the window
To see how warm it is inside
See the things that I've been missing
Missing all this time

Quinta-feira, Dezembro 08, 2011

Segunda-feira, Dezembro 05, 2011

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

Vinhas de longe

("Corto Maltese", imagem da net)
Vinhas de longe,
transportavas,
nas solas teus sapatos,
areias de outras praias,
onde caminhaste
com os olhos sedentos
de mar e de luz.

Vinhas de longe...
Carregavas nos ombros
segredos revelados,
dores alheias,
sussurrados em noites
de amor e de desespero,
no limiar do esquecimento.

Vi-te chegar,
ó homem que vieste
de longe...
Recolhi a areia
dos teus sapatos,
matei a tua sede
com a água que
sobrava nas minhas mãos,
na breve madrugada
em que o meu corpo
foi o teu porto de abrigo.

"Deep", Dezembro de 2011

Nothing really ends

Terça-feira, Novembro 29, 2011

Nano-contos

1.Fui o teu melhor aluno. Aprendi a contar os dias que faltavam para te ver; aprendi a geometria na íris perfeita dos teus olhos; aprendi a biologia no arrepio da tua pele. Marca o exame. Está na hora de revermos a matéria dada.


2.Tirou férias de si próprio. Durante 15 dias ninguém o reconhecia e ele não se lembrava de ninguém. Quando "regressou", parecia-lhe tudo novo e maravilhoso. Apaixonou-se novamente pela sua mulher e fez grandes amigos pela segunda vez.


3. A Sofia andava pelo mundo, de arco-íris em arco-íris. Dizia que a sua vida ficara demasiado cinzenta. Foi no sétimo, em Bangladesh, que conheceu um pintor atraente. Podia ter dado certo, mas já estava outro arco-íris a nascer no horizonte...


Nano-contos, histórias com menos de 40 palavras