domingo, maio 01, 2016

Feliz dia, mães!


(Um desenho surripiado à mana)


[...]
E as mães
(...)
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo.
São silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,em volta das candeias.
No contínuo escorrer dos filhos.
[...]
Herberto Helder 

quinta-feira, abril 28, 2016

Parar


Tenho andado preguiçosa para os comentários, é certo, mas isso não significa que não os leia. Obrigada por todos e pela vossa companhia.

Esta tarde, em que decidi faltar, por sentir que regressei cedo ao trabalho e que  estou a maltratar o meu pé, optei por ficar imóvel no sofá, com as pernas elevadas e uma mantinha por cima. Nada de internet. Em vez disso, vi um flme que queria ver: »As Sufragistas». Gostei. Aliás, gostei bastante. É impossível ficarmos indiferentes ao sofrimento e à determinação daquelas mulheres.

A propósito do sorriso



Café Orfeu
Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.
Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.
Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.
E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.
Manuel António Pina, Poesia Reunida

terça-feira, abril 26, 2016

O outro

Eu não sou eu nem sou o outro,
Sou qualquer coisa de intermédio:
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o Outro.
Mário de Sá Carneiro, Indícios de Oiro (1916)



Mário de Sá-Carneiro, um dos poetas de Orpheu, amigo íntimo de Fernando Pessoa, morreu há 100 anos.
O meu poema preferido continua a ser "Quase", seguido de "Caranguejola" e de "Serradura".

segunda-feira, abril 25, 2016

Por que me olhas assim

Revolução

Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação

Sophia de Mello Breyner Andresen, O Nome das Coisas
Poema escrito no dia 27 de Abril de 1974

Tinha acabado de completar cinco anos quando aconteceu a Revolução. Não tenho qualquer memória desse dia, não só por ser muito jovem e as minhas preocupações serem, nessa altura, poucas ou nenhumas, mas talvez também por viver longe dos palcos em que tudo teve lugar.
Desse tempo, guardo a lembrança da música "Tourada", que ouvia cantar aos meus primos mais velhos e de outras músicas, hoje indissociáveis da Revolução. Na minha memória moram igualmente os cravos que, em Abril, as professoras nos pediam para desenhar, como as imagens de alguns cartazes ou de murais associados ao antes e ao depois, e palavras como "comício" e "fascista". 
Naquela época, não tínhamos, como a maior parte das famílias, televisão. Dispúnhamos apenas de um pequeno rádio, que, segundo me disse a minha mãe hoje à tarde, enquanto víamos "Capitães de Abril", permitiu aos da casa e a alguns vizinhos, ir acompanhando os acontecimentos desse dia de Abril de há 40 anos.
Lembro-me que, pouco depois, apareceram na vila militares. Tenho uma vaga ideia deles no interior e na entrada do café Primavera.

Texto "resgatado" do baú


Na copa das árvores


Duy Huynh
Tenho o coração preso às árvores.
Elevo-o ao lugar das copas.
Para que possa receber, como uma bênção,
as primeiras gotas de chuva.

É lá, no lugar das copas, que o poiso,
para que acolha os voos cansados dos pássaros,
o despontar das flores.

Agarrado ao tronco das árvores,
o meu coração sabe onde estão as raízes,
como pressente, avisado, as intempéries.


Deep, 24 de Abril de 2016

Tosco devaneio, rabiscado de um fôlego, sob inspiração da imagem que o ilustra.