quinta-feira, dezembro 08, 2016

Aprender por amor

Em paz

Em repetição por aqui este "devaneio" de Outubro de 2015, com supressões.

Nirav Patel

Se chegares, chegas tarde.

Apaguei todas a luzes
que poderiam indicar-te o caminho.

Fechei a porta
e abracei o silêncio.

Estou cansada demais
para acolher corações
em desalinho.

Arrumei a mesa,
guardei nos seus lugares
o pão e o vinho.

Não há, agora, espaço para a comunhão.

[...]


Hoje o céu apresentou-se vestido de um cinzento opaco. O nevoeiro ocultou a serra. Não me atrevi a pôr o nariz na rua, mas suponho que o frio faz coro com a cor do céu.

Acendi o fogo, tomei um pequeno almoço reconfortante. Mais reconfortantes foram as vozes das pessoas queridas que hoje me ligaram para saber de mim.

Apesar do dia e de todo o trabalho que, impaciente, me espera, estou em paz.

segunda-feira, dezembro 05, 2016

O Inverno aproxima-se


Um dos "bonecos" da mana

domingo, dezembro 04, 2016

Mundo mundo vasto mundo

[...]

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

Carlos Drummond de Andrade, "Poema das sete faces" (excerto)

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Do poeta brasileiro Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira), que partiu hoje, com 86 anos, e que foi, em 2010, agraciado com o Prémio Camões.

Bom domingo!


sábado, dezembro 03, 2016

Summer in the city


Edward Hopper, Summer in the city

Despertou mais tarde do que planeara. A luz entrava, farta, através das janelas altas, sem estores. Reparou que ele dormia ainda, alheio ao dia e ao seu despertar. Mónica levantou-se e tomou um banho rápido. Procurou que todos os seus gestos fossem silenciosos. Regressou ao quarto, vestiu-se e reparou que ele não se mexera. Continuava, como minutos antes, de barriga para baixo, nu, sobre o lençol.
Mónica sentou-se na borda da cama. Era uma cama de solteiro, sem graça, como o quarto, que parecia reflectir a frieza e o sentido sobretudo prático de quem o habitava.
A noite não fora de amor. Talvez tão só o cumprir de uma rotina a que ambos se tinham habituado e que não quebravam por inércia. Há algum tempo que era assim.
Conheceram-se num fim de tarde, quando ambos entraram num café para fugir da chuva que àquela hora desabava impiedosa sobre o mundo. Ocuparam mesas próximas. Pouco depois, ela abordou-o para lhe pedir lume. Por delicadeza e por uma espécie de gratidão, não conseguiu evitar responder aos comentários dele sobre as contrariedades do tempo.
Rapidamente, os encontros, primeiro falsamente casuais, depois combinados, cederam lugar ao encontro dos corpos. Deixaram de frequentar o café, acordando encontrar-se no quarto dele, quase sempre depois do trabalho. Para ele era fácil. Ela, em contrapartida, teve de se inscrever num curso de línguas, para justificar os dias em que chegava a casa depois da hora habitual. Conseguira, com a cumplicidade de uma amiga, ficar com ele algumas noites.
Apesar de ela ser mais velha do que ele, o interesse de Thomas lisonjeou-a. Fê-la sentir-se novamente mulher. Esqueceu as rugas, algumas cabelos brancos que começavam a despontar na sua cabeleira escura, os quilos que acumulara com a idade. Percebeu que estava pronta para voltar a amar e para ser amada. 
Nos primeiros tempos, viveu num enlevo que lhe suprimiu o discernimento. Chegou a acreditar que era amada. Desculpava-lhe as repetidas desatenções, a falta de pequenos gestos de delicadeza. Nunca,em meses, ele tivera a gentileza de a surpreender com um mimo. A Mónica não interessavam bens materiais. Talvez não passasse de uma romântica. Dava valor a pequenos gestos. Bastavam uma flor, um livro, um postal para se sentir especial. Gostava da sensação de se sentir amada, de pensar que fora, por instantes, o centro da preocupação de alguém.
O tempo curou-lhe a cegueira, trazendo-lhe a certeza do egoísmo dele. Sentiu-se muitas vezes usada, humilhada até, mas temia sentir-lhe a falta, por isso adiava a despedida.
Levantou-se, pegou no casaco e na mala e, como a mulher da canção, «saiu para a rua, decidida». Fora, experimentou o calor do sol sobre a pele e, naquele instante, soube que renascia.

deep, 02, 03 e 04 de Dezembro de 2016

(Texto sujeito a alterações.)