Terça-feira, Fevereiro 09, 2010

anjos ou deuses

(S. Miguel Arcanjo, Ponta Delgada)

Anjos ou deuses, sempre nós tivemos,
A visão perturbada de que acima
De nós e compelindo-nos
Agem outras presenças.

Como acima dos gados que há nos campos
O nosso esforço, que eles não compreendem,
Os coage e obriga
E eles não nos percebem,

Nossa vontade e o nosso pensamento
São as mãos pelas quais outros nos guiam
Para onde eles querem
E nós não desejamos.

Pessoa- Ricardo Reis

street spirit (fade out)

Segunda-feira, Fevereiro 08, 2010

quase um poema

(Imagem da Ana: Trás-os-Montes, Dez. de 2009)

Quero falar-te do silêncio
e de como, nas horas de degredo,
amor e ódio se confundem.

Quero contar-te como, nas esperas,
a alma se perde em devaneios,
como as mãos se afundam, esquecidas,
no regaço, sem vida que as eleve.

Quero ouvir-te clamar,
aos quatro ventos e aos deuses todos,
que o amor é só um jogo que eles
inventaram para iludir a solidão.

Domingo, Fevereiro 07, 2010

As máscaras e rituais de Carnaval

(Casa do Careto, Podence)

são o tema do Câmara Clara de hoje (a começar agora mesmo na RTP2).

optimista-céptico (a)



Algumas coisas más só acontecem aos outros e tudo tem uma solução; certas coisas boas também só acontecem aos outros.

Sábado, Fevereiro 06, 2010

Fim

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!


Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
E eu quero por força ir de burro!


Mário de Sá-Carneiro



Dos 18/19 aos 21/22, Mário de Sá-Carneiro foi um dos meus poetas e prosaístas de eleição. Nesse período, li quase toda a sua (curta) obra. "Caranguejola" e "Quase" (um excerto na barra lateral) continuam a ser poemas recorrentes. Este "Fim", que já não ouvia nem lia há algum tempo, recordou-mo Cruzeiro Seixas, que o declamou num documentário que a RTP2 acabou de passar sobre o artista plástico e também poeta surrealista.

Sexta-feira, Fevereiro 05, 2010

sea of love

 

Este é um dos temas da banda sonora de "Juno", um filme que vi e revi nos últimos dias e que recomendo - "non solum, sed etiam"* aos pais que têm filhos adolescentes.

*"Não só, mas também!"

Quinta-feira, Fevereiro 04, 2010

Parabéns!

A Bailarina Esta menina tão pequenina quer ser bailarina. Não conhece nem dó nem ré mas sabe ficar na ponta do pé. Não conhece nem mi nem fá Mas inclina o corpo para cá e para lá. Não conhece nem lá nem si, mas fecha os olhos e sorri. Roda, roda, roda, com os bracinhos no ar e não fica tonta nem sai do lugar. Põe no cabelo uma estrela e um véu e diz que caiu do céu. Esta menina tão pequenina quer ser bailarina. Mas depois esquece todas as danças, e também quer dormir como as outras crianças. Cecília Meireles Conheço uma menina, que é pequenina e que quer ser bailarina (pelo menos tem feito por isso!). Como hoje faz anos, é para ela este poema. ´ Há uma outra menina que também faz anos hoje. Já não é pequenina, e talvez nunca tenha sonhado em ser bailarina, mas que é uma amante incondicional da natureza, de praia e de viagens. Na falta de melhor ideia, uma oferta singela: uma foto inédita dos pés da aniversariante, na nossa passagem por Estremoz, no Verão passado. :)

Quarta-feira, Fevereiro 03, 2010

É tempo delas!

O pão - de aproximadamente 2kgs - é partido, "de cabo a rabo", em fatias finas. De seguida, é amolecido com o caldo que resultou da cozedura das carnes e regado com azeite "rijado" (a ferver). Ao preparado anterior juntam-se as carnes (de aves e de porco), desfiadas e partidas em pedaços muito pequenos.
Tempera-se, seguidamente, a massa com pimentão. Chega, então, o momento de, com a ajuda de uma enchedeira (uma espécie de funil), encher tripas (de vaca ou sintéticas), previamente lavadas com aguardente e atadas numa das pontas com fio de algodão.
Depois de lavadas, as alheiras são colocadas em varas (estas suspensas no tecto), próximas da lareira, para que o calor e o fumo as vão secando (o tempo de geada é o mais favorável).
Só volvidos uns dias podem ser consumidas, grelhadas na lareira - nem se lembrem de as comer fritas com ovo! Acompanhadas de grelos e de batatas cozidas (ou só com pão) são uma delícia!

Terça-feira, Fevereiro 02, 2010

estranhos seres... em modo "repeat"

Também hoje poderia escrever algo semelhante...

Pergunto-me: O que é que certas pessoas lucram boicotando o trabalho dos outros? Quem pensam enganar com os argumentos balofos de que se socorrem para justificar os seus actos?

Não deixa de ser curioso constatar que aquilo que em nós nos parece insignificante e discreto possa provocar a inveja e a raiva (mal disfarçadas) de pessoas que julgávamos mais fortes e capazes. Constatar que não passam de mitos (que insistem em alimentar), de edifícios de fachada exuberante, mas de alicerces frágeis, desilude-me e entristece-me.

Segunda-feira, Fevereiro 01, 2010

been smoking too long

Será que ainda é azul?

Quanto à existência do "lápis", se dúvidas havia... Ler aqui.

O rouxinol de Bernardim

O rouxinol de Bernardim era teu ou era o meu quando veio de madrugada tecer seu canto no muro do jardim? E após breve pousada levou os séculos voando quando perto já de ti, vim abrir para dentro as portadas. Ouviam-se carros nas estradas o rouxinol desaparecia, voava. À procura de uma árvore destroçada sobre a terra exangue na paisagem, vidros partidos, papéis, galhos, jornais, a tinta a sangue. No jardim de minha casa há sempre uma rima de Bernardim que canta aflita de madrugada, como se houvesse uma levada e essa fosse a do teu amor por mim! José Ribeiro Marto, Pastoreio

Domingo, Janeiro 31, 2010

ainda

wild is the wind...
 
 na voz do Bowie
 
 na inconfundível voz da Nina Simone Por falar em Nina, acho que hoje me vai apetecer voltar a estes temas (a todos, porque não é fácil escolher!). Boa tarde para todos... com bom vento!

Sábado, Janeiro 30, 2010

Faz hoje anos que...

... Gandhi foi assassinado (1948); ...os Beatles fizeram a última apresentação em público (1969, um ano memorável , por vários motivos!); ... foi lançado "Me and Bobby McGee" de Janis Joplin (1971); ... aconteceu o domingo sangrento na Irlanda do Norte (1972). Ah! Não se esqueçam de felicitar Felipe de Bourbon, que completa hoje 41! (Mais informações na rubrica "Neste dia" do Sapo) No que me diz respeito, vou já telefonar ao meu padrinho que completa alguns mais. :) Até logo...

Sexta-feira, Janeiro 29, 2010

wild is the wind

Uma das muitas versões...

J. D. Salinger (R.I.P.)

(Imagem da net)
Conheço pouco de J. D. Salinger, mas é dele uma das personagens que mais me apaixonou e que mais me fez companhia desde os meus dezassete anos. O autor partiu na 4.ª-feira, mas deixa comigo Holden Caulfield, o protagonista rebelde de The Catcher in the Rye (em português Uma Agulha no Palheiro ou À Espera no Centeio), que de leitura obrigatória de Inglês passou a livro de culto, não só para mim, mas para algumas pessoas que conheço e, ao que parece, para muitos leitores do mundo inteiro.
Além disso, a obra é referida em filmes (Teoria da Conspiração, com Mel Gibson, por exemplo) e ficou associada à trágica morte de Jonh Lennon, uma vez que o homem que o matou transportava consigo um exemplar.

Sexta-feira, Janeiro 22, 2010

hey you

Hey you, out there in the cold Getting lonely, getting old Can you feel me? Hey you, standing in the aisles With itchy feet and fading smiles Can you feel me? Hey you, dont help them to bury the light Don't give in without a fight. Hey you, out there on your own Sitting naked by the phone Would you touch me? Hey you, with you ear against the wall Waiting for someone to call out Would you touch me? Hey you, would you help me to carry the stone? Open your heart, I'm coming home. But it was only fantasy. The wall was too high, As you can see. No matter how he tried, He could not break free. And the worms ate into his brain. Hey you, out there on the road always doing what you're told, Can you help me? Hey you, out there beyond the wall, Breaking bottles in the hall, Can you help me? Hey you, don't tell me there's no hope at all Together we stand, divided we fall.

Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

Começa a haver meia-noite, e a haver sossego, Por toda a parte das coisas sobrepostas, Os andares vários da acumulação da vida... Calaram o piano no terceiro-andar... Não oiço já passos no segundo-andar... No rés-do-chão o rádio está em silêncio... Vai tudo dormir... Fico sozinho com o universo inteiro. Não quero ir à janela: Se eu olhar, que de estrelas! Que grandes silêncios maiores há no alto! Que céu anticitadino! — Antes, recluso, Num desejo de não ser recluso, Escuto ansiosamente os ruídos da rua... Um automóvel! — demasiado rápido! — Os duplos passos em conversa falam-me O som de um portão que se fecha brusco dói-me... Vai tudo dormir... Só eu velo, sonolentamente escutando, Esperando Qualquer coisa antes que durma... Qualquer coisa... Pessoa- Álvaro de Campos

Terça-feira, Janeiro 19, 2010

Um brinde...

...aos 87 anos que Eugénio de Andrade completaria hoje.... Procura a maravilha. Onde um beijo sabe a barcos e bruma. No brilho redondo e jovem dos joelhos. Na noite inclinada de melancolia. Procura. Procura a maravilha.
Eugénio de Andrade