segunda-feira, novembro 20, 2017

Das publicações visitadas

Sós, eternamente

Estamos sós.
Não o negues.
Os amigos chegam,
ruidosos e afáveis,
com risos e migalhas de tempo.
Partilham memórias de infância,
alegrias e angústias presentes.
Ofertam fruta e compotas.
Sentam-se à nossa mesa
para brindar ao amor ou à vida.
A felicidade em fatias.
Chegada a noite, recolhem escombros
e partem.
Sós. Eternamente.

Como nós.

deep, (talvez) Setembro de 2017

Este devaneio, que publiquei aqui no dia 12, tem motivado repetidas visitas a este blogue. Curiosamente, esse post não tem um único comentário. Confesso que fico curiosa sobre os motivos, bons ou maus, que trazem pessoas aqui.

domingo, novembro 19, 2017

Não quero

Surripiado do mural de Facebook da autora:
Não quero enganar o tempo,
ser eternamente jovem,
mas envelhecer com calma,
ter raízes e folhas, ser lugar de fazer ninho,
abrigar pássaros, tão frágeis os pássaros,
dar frutos e beijos nas bocas que importam,
perceber como mudam as estações,
fazer as viagens sem pressa,
provar o vento, o mar, a neve, a chuva,
perceber as coisas simples,
as mais difíceis de perceber,
o mistério do amor, da amizade,
dos olhos o brilho e dos sorrisos involuntários.
Não quero ser o primeiro da fila,
um atleta de competição, um funcionário modelo,
não preciso de muitas coisas nem de muitas certezas,
que nas minhas costas, a somar ao lirismo, digam
que não ando em cardume,
que sou uma pessoa decente,
uma pessoa de poucos vícios,
tabaco, livros, discos, gatos, sapatos, amigos,
das que despreza a avareza,
que se comove com a bondade,
com o invisível da beleza,
com a ignorante inocência da adolescência.
E não quero ter vergonha
da minha inexplicável tristeza,
de chorar demasiadas vezes,
de esconder do avesso a dor,
das minhas dúvidas e das minhas dívidas,
de cumprir o que prometo,
do meu perene cansaço,
de me vestir em frente a um espelho,
de perceber o peso das palavras,
de não ter quase nada para dizer,
do tamanho do meu silêncio,
de andar contigo de mãos dadas na rua,
de ter de mim tamanha saudade.

Raquel Serejo Martins

quinta-feira, novembro 16, 2017

Não é mais nem menos forte conforme as idades

Palavras de José Saramago, que nasceu num dia 16 de Novembro (1922):
«Aprendi que o sentimento do amor não é mais nem menos forte conforme as idades, o amor é uma possibilidade de uma vida inteira, e se acontece, há que recebê-lo. Normalmente, quem tem ideias que não vão neste sentido, e que tendem a menosprezar o amor como factor de realização total e pessoal, são aqueles que não tiveram o privilégio de vivê-lo, aqueles a quem não aconteceu esse mistério.»

terça-feira, novembro 14, 2017

Back in the crowd



If you don't want these arms to hold you
If you don't want these lips to kiss you
If you found someone new
Put me back in the crowd
Put the sun behind the clouds
Put me back in the crowd

There's a battle going on between the blue and the grey
And if you don't want my love; don't make me stay
There's a battle going on between the blue and grey
And if you don't want my love; don't make me stay

Take back your name
Take back these wings
Take my picture from the frame
And put me back in the crowd

Put the sun behind the clouds
Put me back in the crowd
Put the sun behind the clouds
Put me back in the crowd

segunda-feira, novembro 13, 2017

O soto


Os pesos da balança do soto da tia

Na aldeia havia dois: o soto do senhor A., que herdara do pai, um senhor de cabelos brancos com o mesmo nome, e o soto da tia, a quem todos os sobrinhos nos referíamos por "a tia do soto", uma vez que já geria aquele espaço quando nascemos.
No soto, vendia-se um pouco de tudo: mercearia, utensílios de latão e de plástico, lãs, atoalhados, galochas, pregos, produtos de higiene e petróleo para as candeias. No soto também se vendia vinho a copo ou a quartilho, porque ambos os sotos eram também taberna, onde os homens se juntavam e onde, por vezes, iniciavam discussões, que resultavam em pancadaria ou facada. No soto do senhor A., o espaço do comércio e o da taberna eram o mesmo. O soto da tia comunicava com a taberna, através de umas escadas. Os fregueses entravam por uma porta exterior. Neste espaço, feudo dos homens, mulheres e crianças só entravam quando os mandavam comprar vinho.
Em ambos os sotos, havia pesados balcões de madeira, aos quais o tempo e o uso tinham desgastado e emprestado um certo brilho, prateleiras até ao tecto, pequenas tulhas, que guardavam alguns produtos a granel. Não faltavam as balanças e os pesos e o papel grosso, por vezes listado, onde se embrulhava o bacalhau, ou o custaneiro, usado para o queijo.
Na aldeia, as pessoas tinham preferência por um dos sotos, por simpatia ou lealdade aos propriétários. Quando precisavam de alguma produto que sabiam vender-se num deles, que não era o da lealdade ou simpatia, pediam a alguém que comprasse o que precisavam em segredo, como se fosse para a pessoa, ou iam as próprias, "à escapula", fazer a compra, convictas, como gato escondido com rabo de fora, de que não tinham deixado rasto.
Lembro-me que as raparigas um pouco mais velhas do que eu iam ao soto, a medo, comprar pensos higiénicos «Modess». Se calhava estar um homem ao balcão, o que acontecia frequentemente no estabelecimento do senhor A., voltavam para casa com outro artigo.
Na semana da Páscoa, quando as mulheres passavam o dia no forno, a amassar e a cozer folares e calços, o soto era lugar que, a pedido das mães, as crianças mais visitavam, para ir buscar manteiga, bicarbonato ou fermento para os folares, ou petróleo para a candeia, quando o trabalho era maior do que o dia.
Na porta do soto não havia, como hoje, a indicação da hora de abertura e de fecho. O soto abria, mesmo aos domingos e feriados, quando alguém precisava de alguma coisa. Bastava bater na porta dos proprietários.
Durante os dias que passávamos na aldeia, pouco mais de um fim de semana, nas festas, ou quase um mês no Verão, a minha mãe fazia as compras no soto da irmã. Esta tinha, como era então hábito, um livro de deve e haver, onde assentava as compras e os preços. No dia em que regressávamos à vila, a minha mãe costumava ir pagar o que devia e que estava registado no tal livro. Antes de fechar as contas, costumava pedir à minha tia que pesasse bolachas, torradas ou maria, que vinham em caixas e se vendiam ao peso, e queijo, de barra ou de bola. 
Entretanto, os sotos fecharam. Estes foram substituídos por uma modesta mercearia e as tabernas pelo café, espaço que homens e mulheres partilham quase em igualdade e onde raramente se vende vinho.

Soto - s. m.
[Portugal: Beira; Trás-os-Montes] Estabelecimento comercial (Dicionário Priberam)

domingo, novembro 12, 2017

Fifty-fifty

Pela metade, quando muito, a fruta:
a metade de maçã, ácida e suculenta,
a metade da laranja,
que dividimos gomo a gomo,
o melão partido em talhadas generosas
nos almoços demorados de verão.
Pela metade
a gulosa fatia de um bolo,
o café bebido a meias.
A metade da cama,
a metade da mesa.
Nunca o amor, nunca a vida,
pela metade.
De ti, não quero a metade do rosto,
a metade da atenção,
a metade dos beijos,
a metade do coração,
a metade de uma canção
que me embale... pela metade.
Quero, de ti, um chocolate
partido ao meio,
fifty-fifty de prazer e sacrifício,

meio doce, meio amargo.

deep, (talvez) Agosto ou Setembro de 2017

Produção caseira

Sós, eternamente

Estamos sós.
Não o negues.
Os amigos chegam,
ruidosos e afáveis,
com risos e migalhas de tempo.
Partilham memórias de infância,
alegrias e angústias presentes.
Ofertam fruta e compotas.
Sentam-se à nossa mesa
para brindar ao amor ou à vida.
A felicidade em fatias.
Chegada a noite, recolhem escombros
e partem.
Sós. Eternamente.

Como nós.

deep, (talvez) Setembro de 2017