Terça-feira, Maio 21, 2013

Nós, os outros e o passado

Passamos o tempo a tentar recuperar o passado, a resgatar pessoas e acontecimentos, como se fosse possível voltar atrás e repor as coisas nos lugares aos quais pertenciam ou pareciam pertencer. Por isso, coleccionamos números de telefone, que ficam depositados nos cadernos de endereços ou no telemóvel e que só excepcionalmente usamos, por isso pedimos ou aceitamos amizade no Facebook de pessoas que tiveram residência na nossa vida e que procuraram outras moradas, por isso relemos a correspondência que guardamos religiosamente e nos comovemos com fotos antigas.
Sabemos que nada regressa, muitas vezes nem queremos que as coisas voltem a ser exactamente como antes. Desejamos que as pessoas voltem mais maduras, com novas experiências para partilhar e uma disponibilidade diferente para os sentimentos, que não têm de ser os de antes. Chegamos a acreditar que sobreviveríamos a uma serena amizade com alguém com quem antes vivemos um amor que, durante tempo demais, ameaçou destruir-nos. Queremos acreditar que nós próprios teremos mais para dar, que seremos capazes de nos reinventarmos. 
Não há recuperação possível, porque, obviamente, o tempo corre mais depressa do que nós e a vida precipita-nos por caminhos diferentes e também talvez porque a vontade do "resgate" não é sempre de uma e de outra parte simultânea.

Segunda-feira, Maio 20, 2013

Just friends

E aprendemos

Depois de algum tempo,
aprende-se a subtil diferença
entre tomar uma mão
e aprisionar uma alma,
e aprende-se
que o amor não significa deitar-se
e uma companhia não significa segurança
e começamos a aprender…
Que os beijos não são contratos
e os presentes não são promessas
e começamos a aceitar as nossas derrotas
de cabeça erguida e de olhos abertos
e aprendemos a construir
os nossos caminhos no hoje,
porque o terreno do amanhã
é demasiado inseguro para planos…
e os futuros ficam-se pela metade.
E depois de algum tempo
aprende-se que se for de mais
até o calorzito do sol queima.
Daí que plantemos o nosso próprio jardim
e decoremos a própria alma,
em vez de esperar que alguém nos traga flores.
E aprendemos que realmente podemos aguentar,
que realmente somos fortes,
que valemos realmente,
e aprendemos, aprendemos…
e com cada dia aprendemos.

Jorge Luís Borges

Sábado, Maio 18, 2013

Por cá acontece (1)



Entre Margens: a arte na rua

Mais informação aqui.


Actuação do grupo Lacre, no Centro de Arte Contemporânea Graça Morais (Bragança),  no  dia 18 de Maio,  pelas 21h, com entrada livre

5.º aniversário do Museu de Arte Sacra - Macedo de Cavaleiros (exposição)




Terça-feira, Maio 14, 2013

Por vezes, ignoramos



Por vezes, ignoramos o leito do rio,
ignoramos que há barcos que se perdem
na voragem dos dias.

Buscamos, pela tarde,
a sombra das árvores,
o canto primordial de um regato.

Ansiamos por um canto de ave,
pela suave ondulação de uma seara.

Mas vê como, subitamente,
a luz afrouxa com a passagem
das horas.

Repara como a margem
se fez lamacenta,
como é maior agora
a distância entre os meus dedos
e o teu cabelo.

Em breve, nada sobrará
que possa ser, entre nós,
dádiva...

Deep/ Maio de 2013

Quantas pessoas caminham na minha direcção?


(Haia/ Den Haag, Agosto de 2010)
Quantas pessoas caminham na
minha direcção? Quantas me
descobrem por entre a multidão
e pousam os seus olhos inteiros
nos meus olhos? Podia acreditar

que entre elas está o homem que
trocaria comigo os dedos sobre a
mesa, uma palavra que fosse gomo
de laranja e poema, o corpo aceso

sob o lençol cansado de mais um
dia. Mas quantos destes rostos de
pedra que me cercam escondem o
seu pelas ruas desta tarde? Quantos
nomes de acaso e de silêncio terei
eu de escutar para descobrir o seu

no meu ouvido? Quantas pessoas
caminham contra mim?

Maria do Rosário Pedreira, Poesia reunida