quinta-feira, julho 30, 2015

Saudade

o que me mata
é o silêncio
e o beijo
não ser na boca

o que me mata
é a falta
de seus olhos
nos meus

o que me mata
é a ausência
de mãos
e palavras

o que me mata
é esse breu.


Martha Galrão

segunda-feira, julho 20, 2015

Aos amigos

Neste Dia do Amigo, republico um dos meus "devaneios", em homenagem aos amigos.

Os meus amigos oferecem-me amor
em taças de aletria,
em gomos de laranja dos seus quintais
ou em cachecóis que tricotam
com ternuras antigas.

Os meus amigos vertem
a solidão e a felicidade
em chávenas de
café escuro e aromático,
que bebemos a meias.

Não são modelos de beleza  - os meus amigos.
Não são importantes – os meus amigos.
Provavelmente, os meus amigos serão,
como muitos outros – e eu própria –
anónimos medíocres, que a História
não comentará.

Mas que importa tudo isso
se os meus amigos têm laranjas,
aletria e cachecóis para me oferecer?

Deep/ 03 de Dezembro de 2013

sábado, julho 18, 2015

E lá que tu moras ainda

Há quatro anos, partia uma das melhores pessoas que conheci. Apesar de terem passado estes anos, por vezes, quando me acontece alguma coisa e sinto necessidade de falar com alguém, ainda é a primeira pessoa a quem me ocorre telefonar.
Foi para ela que escrevinhei o "devaneio" que hoje republico. Foi com ela que ouvi repetidamente "Wish you were", numa noite, perto de Lagos.
Acredito que as pessoas que amamos nunca partem, pelo menos não do nosso coração.

É lá que tu moras ainda:
nos jogos da infância,
no sabor do café com leite,
na textura do pão com manteiga.

É lá que moras também:
nas madrugadas de confidências,
nas palavras escritas trocadas
em demoradas cartas,
na sombra dos castanheiros.

É também ali que ainda te procuro:
num fim de tarde na praia,
num bailado da Pina Bausch,
nos acordes da guitarra de David Gilmour,
no olhar enigmático do Corto Maltese.

É aqui que ainda te encontro:
nas minhas horas de insónia,
na dor que, de mansinho, assoma,
quando a minha voz se cala
na evidência de já não seres.

Deep, 16/11/ 2011


domingo, julho 12, 2015

Alentejo


Sobre os amigos

«Quando nos confrontamos com a amizade sentimos todos a dificuldade de exprimi-la, pois entramos num campo onde não há espaço para muitas declarações, e soam despropositados os longos discursos… existem, sim, histórias de vida. Existem nomes, rostos, vivências… Existe o indizível da presença, a coreografia fiel e criativa dos gestos. Mesmo quando se trata de uma amizade intensa, a amizade não deixa de ser uma experiência discreta, ainda que gere marcas humanas e espirituais inapagáveis. (…) 
Um amigo, por definição, é alguém que caminha a nosso lado, mesmo se separado por milhares de quilómetros ou por dezenas de anos. O longe e a distância são completamente relativizados pela prática da amizade. De igual maneira, o silêncio e a palavra. Um amigo reúne estas condições que parecem paradoxais: ele é ao mesmo tempo a pessoa a quem podemos contar tudo e é aquela junto de quem podemos estar longamente em silêncio, sem sentir por isso qualquer constrangimento. A amizade cimenta-se na capacidade de fazer circular o relato da vida, a partilha das pequenas histórias, a nomeação verbal do lume mais íntimo que nos alumia. A amizade é fundamentalmente uma grande disponibilidade para a escuta, como se aquilo que dizemos fosse sempre apenas a ponta visível de um maravilhoso mundo interior e escondido, que não serão as palavras a expressar. (...)
O modo como uma grande amizade começa é misterioso. Podemos descrevê-lo como um movimento de empatia que se efetiva, um laço de afeição ou de estima que se estreita, mas não sabemos explicar como é que ele se desencadeia. Irrompe em silêncio a amizade.

José Tolentino Mendonça

Ontem, fui à terra onde vivi quase toda a infância e adolescência, tomar um café com um velho amigo do peito. Apesar de vivermos longe e de estarmos muito tempo sem falarmos, há esse "laço de afeição" que nos tem unido ao longo dos anos e que eu muito prezo.