domingo, maio 21, 2017

O frágil caule como protegê-lo?

video

O título é um verso roubado a um poema de Saúl Dias.

A imagem captei-a ontem na horta.

quinta-feira, maio 18, 2017

Até amanhã


Sei agora como nasceu a alegria, 
como nasce o vento entre barcos de papel, 
como nasce a água ou o amor 
quando a juventude não é uma lágrima. 

É primeiro só um rumor de espuma 
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade, Até Amanhã


Em repetição por aqui...

terça-feira, maio 16, 2017

Pensar, pra quê?

Pensar, pra quê? Que pensem outros. Raro
O pássaro que faz do céu seu ramo.
Eu quero pensar muito é nos que eu amo
Antes que a morte aponte a mim seu faro.
Pensar: que desperdício, que inocência!
Pensar que por pensar virá Atena…
Pensar é sonho, ordenha de éter, pena
Sovada no badminton da ciência.
Que deixarei de mim, um pensamento?
E este meu papel qual tumba fria
Parece querer beber a elegia,
Treinar aqui, qual pedra, o meu lamento…
Ó ópio, Ó óleo, Ó ócio deste ofício!
Pensar que toda a arte é artifício!

Daniel Jonas,

segunda-feira, maio 15, 2017

Já não me lembrava

de ter visto um festival. Bem, na verdade, só o vi cantar e, no momento da votação, estive a torcer por ele. 


Surripiado do "caderno" da mana

sábado, maio 13, 2017

Cai, chuva, cai


Cai, chuva, cai.
Derruba tua impiedade
sobre os homens,

Cai, chuva, cai.
Atira a tua fúria contra o asfalto,
faz ganir de dor o metal
de varandas e caleiras.

Cai, chuva, cai.
Concede aos campos
e às culturas a tua misericórdia.

Cai, chuva, cai...
Devolve-me as horas da infância,
o odor do musgo e da terra molhada,
a solidão das ruas da aldeia,
em melancólica comunhão
com o fumo das lareiras.

Cai, chuva, cai,
agora mansa,

e embala o meu sono.

deep, há minutos

segunda-feira, maio 08, 2017

Por ora


Estão saradas todas as feridas:
as dos amores que partiram;
as dos amores que não chegaram a sê-lo;
as feridas das amizades
que se revelaram traições.

Estão apaziguados os remorsos
das palavras ditas;
das palavras caladas;
dos passos em falso.
Outros virão, com ou sem aviso...

Por ora, bastam-me estes olhos
para ver os crepúsculos,
bastam-me estas mãos com que cruzo os fios
que tecem os dias que reclamo meus
e só a mim pertencem...

Em repetição por aqui este "devaneio" caseiro, de 2010.


domingo, maio 07, 2017

Feliz dia, mães!


Um desenho da mana

Poema à mãe

No mais fundo de ti, eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade, Os Amantes Sem Dinheiro