Sábado, Julho 05, 2008

mimar


Fui dar mimo às minhas árvores. Reparei que à laranjeira nasceram umas discretas flores brancas, que os sete frutos do pessegueiro cresceram um pouco e que a ameixoeira exibe, embora com discreto orgulho, novos rebentos. Só o loureiro e o medronheiro me pareceram um pouco desmotivados, talvez porque tenho descurado o papel de mãe e as árvores pequeninas, como a gente pequenina, requerem mais cuidado e atenção.

Terminada a rega, fiz como o meu amigo J. me aconselhou: meti as mãos na terra molhada, para absorver a energia que emana da Natureza. Não sei se foi disso, mas estou bem disposta!

bom fim-de-semana!

(Montesinho, Maio de 2007)
O meu olhar espera-me nas coisas,
para me olhar a partir delas
e me despojar do meu olhar.
A minha memória espera-me nas coisas
para me provar que não existe o olvido.

E as coisas apoiam-se em mim,
como se eu, que não tenho raiz,
fosse a raiz que lhes falta.

Será que talvez as coisas
também esperem por mim?

Será que tudo o que existe
se espera fora de si?

Será que afinal os meus braços
estão abertos para me abraçar?

Roberto Juarroz
Com o texto anterior não pretendo, de forma alguma, declarar guerra a alguém, colocar-me do outro lado da barricada. Fazê-lo seria adoptar, pelo inverso, a atitude inquisitiva e penalizadora que observo em algumas pessoas. Seria assumir arrogantemente uma posição como certa. Mesmo quando fazemos opções conscientemente, há momentos em que experimentamos a dúvida, a angústia de não termos escolhido o caminho certo e noutros momentos sentimos, inevitavelmente, inveja da vida que os outros têm só porque não é a nossa.
As minhas palavras não passam de um apontamento de impressões, de sentimentos e de realidades que observo.
Mais: as amizades, quando são genuínas, estão para além dessas barreiras que a sociedade nos impõe. Nem as afinidades advêm de variantes como a idade, o sexo ou o estado civil das pessoas com as quais nos relacionamos.

Sexta-feira, Julho 04, 2008

em diálogo

Pois é, Infame, parece que, por muito que tentemos dar-lhe outras cores, o mundo continua, aos olhos de alguns, a ter apenas duas cores: o preto e o branco (ai de quem exiba o gosto pelo cinzento ou mais ainda por cores de verão!). Socialmente, essa dualidade preto/ branco passa também por ser-se casado (não necessariamente de papel passado) ou solteiro.
Quem, por opção ou porque assim foi acontecendo, segue uma vida fora do expectável, das convenções do casamento e dos filhos estará sempre sob o olhar inquisitivo ou compassivo e às flutuações de humor e de amor dos advogados da moral e dos bons costumes, que se investem de autoridade para julgar e para ditar as leis que devem reger a vida dos outros.
Espera-se que, chegadas aos 28/ 30 anos, as pessoas pensem em casar e ter filhos, para se seguir a tradição e a natureza. Se tal não acontece, é-se constantemente alvo de comentários e indirectas, quando não se sofre o esforço dos casamenteiros, que querem muito ver os “bons” rapazes e as “boas” raparigas “felizes”, crentes de que casamento e prole são as únicas vias para se ter um brilho no olhar. Contudo, por vezes, são aqueles que tanto querem ver os outros “arrumados” que maldizem o casamento e que invejam a liberdade de movimentos e a vida despreocupada de quem está livre dos constrangimentos do casamento.
Pior do que ser-se solteiro por opção é não se ter filhos porque não se desejou que tal acontecesse. Uma mulher que confessa não ter o instinto e o desejo de ser mãe, das duas uma: ou está a mentir ou só pode ser alguém sem coração. Desejar ter filhos é, no dizer sábio de alguns, um apelo da natureza. Uma mulher que não tem filhos é uma imprestável, um exemplo de insensibilidade e de frieza ou de profundo egoísmo.

Inevitavelmente, Álvaro de Campos:

"Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!"

(Lisbon Revisited)
"Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.
Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade, de esquecer com melhoria de vencimento. Não se sente nada a não ser um automatismo cá em baixo, a fazer umas pernas que nos pertencem levar a bater no chão, na marcha involuntária, uns pés que se sentem dentro dos sapatos."

F. Pessoa-Bernardo Soares, O Livro do Desassossego

Quarta-feira, Julho 02, 2008

liberdade

Cada vez que observo mais atentamente o peixe, converso com ele ou lhe mudo a água, lembro-me desta história.



Definitivamente: não vou comprar um peixe para mim!

Domingo, Junho 29, 2008

redondo vocábulo





Zeca é Zeca, mas a mocinha também não se saiu nada mal a interpretá-lo...

coragem e cobardia

"- Por que não o mataste antes?
- Não pude, Reino. Eu não sirvo para isto.
- Ninguém serve para isto, até se fazer a primeira vez.
Olharam para o fundo. O rapaz havia enterrado a cabeça entre os joelhos encapsulando-se no seu próprio medo. Reino falou-lhe com voz baixa e intensa.
- Devias tê-lo matado no primeiro momento. Sem lhe olhar para a cara, sem saber o seu nome, sem ter chorado junto dele como um maricas.
Esteban esfregou os olhos cor de cobalto querendo apagar as imagens que o angustiavam.
- Talvez - disse com voz entrecortada. - Não sou um homem como tu ou os outros. Talvez seja um maricas como dizes.
- Mas és meu irmão e farei de ti um homem, Tebi. Nem que tenha de moer-te à paulada. Não podes continuar a viver nesta ilha como um cobarde. Todos te evitariam, cuspir-te-iam aos pés quando passasses pela rua.
- Quero ir-me embora, irmão. Para longe daqui. Para onde não haja guerra nem pobreza.
- Recordarão o nosso apelido como o de um traidor. Tu e eu não somos uns papa-hóstias quaisquer, Tebi. Corre-nos nas veias a fúria do velho Coppeta. Amamos mais a liberdade do que as nossas próprias vidas.
- Não me fará mais livre matar este miúdo."

"(...) ou antes o seu trauma fílmico havia sido mais que um esperto e cobarde estratagema para fugir do conflito real, como tantos líderes com fogosa retórica especialistas em mandar outros à morte para depois lerem os obituários das suas hostes num plácido exílio?"

Antonio Skármeta, A Boda do Poeta

volúpia

"Às quatro da madrugada desse sábado tépido e insone, Alia Emar foi arrebatada das brancas colchas do seu leito, brunidas com rendas que simulavam elegantes lanças medievais, e conduzida pela asfixia até à janela do segundo andar. Ao aspirar uma maresia de ar fresco, o seu peito ergueu-se até se desprender o laço cor de rosa do seu corpete como se um amante destro e fugaz o tivesse desfeito com os dentes."


Antonio Skármeta, A Boda do Poeta

da minha varanda

Sábado, Junho 28, 2008

Lila Downs

Sexta-feira, Junho 27, 2008

livrão



Este ano dê uma vida nova aos livros escolares e manuais de apoio.
Coloque-os no LIVRÃO, ajude o ambiente e contribua para a ENTRAJUDA.

Nas agências da Caixa Geral de Depósitos, nas lojas Pingo Doce e Feira Nova e nas livrarias Bertrand.

(Mensagem recebida por email)
Actualização: Como eu própria tive as minhas dúvidas e também para responder às vossas, fui à procura e encontrei aqui. mais informação:


"Os livros escolares reutilizáveis, ou seja, ainda em vigor e em bom estado, podem ter um valor equivalente a 20 por cento do preço do livro, pelo que este será pago ao dador do livro por transferência bancária, desde que verificados os requisitos inscritos no folheto que se encontra aposto no 'Livrão'.

Segundo a ENTRAJUDA, os livros que se enquadrem nos requisitos de qualidade e validade e que possam ser reutilizados serão disponibilizados para venda online no site www.clubedoslivros.com ou através da Linha de Apoio 214 691 892, com 50 por cento de desconto sobre o preço de venda.

Todos os livros que não poderão ser reutilizados serão destruídos respeitando as regras ambientais existentes.

A partir de amanhã, será possível depositar os livros escolares usados nos pontos de recolha colocados na rede de livrarias Bertrand, nas agências da Caixa Geral de Depósitos, nas lojas Pingo Doce e Feira Nova aderentes, nas lojas do Instituto Português da Juventude, para além das escolas aderentes a este projecto.

Por cada exemplar entregue, o proprietário dos livros estará a apoiar a ENTRAJUDA na sua missão de solidariedade social e a contribuir para a protecção do meio ambiente ao promover a sua reutilização."

nada mais


Nada mais
que uma leve neblina

um espaço
por onde a música
se abra

um renque de árvores
sobre o rio

Pouca coisa:
apenas o coração sereno

os olhos e os ouvidos
filtrando o mundo

Luís Serrano, Nas Colinas do Esquecimento

It's my life

É um facto que a minha vida resultaria um pobre argumento para um filme, mas resumi-la em seis palavras, menina Hipatia?

Desde a infância até agora:

Timidez
Ciclo-trambolhões (posso valer-me de neologismos?)
Teimosia
Ilusões
Cepticismo
(Semi)Tranquilidade

As próximas vítimas: Ana, Carla, Infame, JVT e Wandolas.

Os nomeados terão que passar o testemunho a cinco novas vítimas... se quiserem, obviamente!

Quinta-feira, Junho 26, 2008

os teus desejos


cumprem-se, Rubia!
Se a cidade não vem ao campo, o campo vai à cidade...

Quarta-feira, Junho 25, 2008

Esta foto, que ilustra a breve caminhada do fim de tarde de hoje, é a minha homenagem aos amigos, aos antigos e aos mais recentes, cujo afecto e generosidade eu espero saber retribuir e merecer.

As flores campestres que "colhi" são para a Beth, que faz hoje anos. Parabéns!

o que se ouve

"A tua voz dava para anúncios publicitários." (De que género? Resta saber...)

"Gosto daquele ar malandro que assumes por vezes." (A sério? Juro que nunca tinha notado...)

"As cores claras dão-te logo outro ar, ficas mais bonita." (Isto quererá dizer que sou feia?)

"Só acho que devias usar sapatos com um bocadinho de salto." (Para me estatelar e ficar ainda mais baixa?)

Terça-feira, Junho 24, 2008

tu ou você?

O Director Geral de um Banco estava preocupado com um jovem e brilhante director, que, depois de ter trabalhado durante algum tempo com ele sem parar, nem para almoçar, começou a ausentar-se ao meio-dia. Então o Director Geral do Banco chamou um detective e disse-lhe:
- Siga o Dr. Mendes durante uma semana, na hora de almoço.
O detective, após cumprir o que lhe havia sido pedido, voltou e informou-o:
- O Dr. Mendes sai normalmente ao meio-dia, pega no seu carro, vai a sua casa almoçar, faz amor com a sua mulher, fuma um dos seus excelentes cubanos e regressa ao trabalho.
Responde o Director Geral:
- Ah, bom, antes assim. Não há nada de mal nisso.
O detective pergunta-lhe:
- Desculpe. Posso tratá-lo por tu?
- 'Sim, claro' respondeu o Director surpreendido.
- Então vou repetir : o Dr. Mendes sai normalmente ao meio-dia, pega no teu carro, vai a tua casa almoçar, faz amor com a tua mulher, fuma um dos teus excelentes cubanos e regressa ao trabalho.

A lingua portuguesa é mesmo fascinante!

(Recebido por email)

small song

Segunda-feira, Junho 23, 2008

embirrações


Irritam-me aquelas pessoas que "acham" sempre alguma coisa sobre tudo, mas talvez não tenham opinião sobre coisa alguma, que apenas 'tiveram nos sítios - será que alguma vez "estiveram" de facto? -, para quem tudo é "giríssimo" e que rematam cada pseudo-explicação com um "tá a ver?", como se os interlocutores fossem estúpidos...