quarta-feira, abril 30, 2008

da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo*....


(Tirada por mim em Março de 2008)

Assomo à varanda. Aqui é impossível não acreditar que a Terra é redonda. É difícil não nos sentirmos extasiados com tamanha beleza. O olhar, que, em dias claros, se perde pelos montes até ao planalto, embate agora numa cortina de água.
Num plano mais próximo, campos de verde novo alternam com terras recentemente lavradas.
Aproximo o olhar, que agora se fixa nos caminhos estreitos de terra batida, ladeados de muros de xisto que, como tentáculos, se estendem até às hortas, aos pomares, aos soutos, só depois aos olivais.

Sob a chuva miudinha, que se entranha no empedrado das ruas desertas (essas ruas que já foram de lama e de xisto e onde rolaram alegres carros feitos de tábuas e de rodas de charrua), nas árvores e nos telhados, e o fumo que se desprende das chaminés das poucas casas ainda habitadas, a aldeia é um ser melancólico e solitário, ofendido com a indiferença dos homens que se recolhem no calor das lareiras, no agasalho das casas. Também lhe viro as costas, quando um frio húmido me chega aos ossos.
Sento-me no velho e pesado escano de madeira, em frente à lareira, onde pedaços de grossos troncos ardem. Memórias antigas teimam em roubar-me ao presente. O sabor inigualável da sopa de feijão vermelho que a tia cozinhava, à lareira, em panela de ferro. O aroma do café de mistura que se exalava do pote de barro preto de Bisalhães. O tio que respondia em frases rimadas, que usava sempre colete, de cujo bolso pendia a corrente de um relógio, e que exibia um eterno bigodinho à Charlot. O rádio Westinghouse do tio que ele guardava tão religiosamente que só o víamos - e ouvíamos - quando coincidia a nossa visita com a hora do noticiário ou do terço. Os almanaques que, com o tempo, passámos a conhecer de cor. As conversas demoradas à lareira.
As histórias de tempos difíceis, de pobreza, de partilha e de bondade, apesar de tudo...

* Primeiro verso de um poema de Pessoa- Alberto Caeiro

terça-feira, abril 29, 2008

Não me importo...

A Cristina, de A Poeira dos Dias, integrou-me simpaticamente na corrente - obrigada! Aqueles que aceitarem continuar, deverão apontar seis coisas que não se importam de fazer ou de ter. Outra das regras é passar o testemunho a seis pessoas. Por ser tarefa sempre difícil, vou quebrar a regra, mas sempre adianto que gostaria que alguém continuasse... Quem quer fazê-lo? Então... eu não me importo: * de ficar acordada noite dentro a conversar (não tenho remédio, não há é muito quem me acompanhe!); * de apanhar com alguns pingos de chuva na cara (é uma sensação óptima e sempre se poupa em água termal!); * que me abracem e me façam sentir especial (quem não gosta?); * de dormitar à lareira a ouvir a chuva cair (então se for no silêncio da aldeia, melhor ainda!); * de comer um quadrado de chocolate preto com o café (é verdade: sou gulosa e não posso sentir o cheiro a café - dá-me logo vontade de tomar um!); * que me julguem mais nova (mas não costumo esconder a idade, não pensem!).

domingo, abril 27, 2008

tradições e superstições


Em Miranda do Douro, diz a tradição que uma pessoa solteira que não consiga ver o 2 entre os líquenes amarelos numa rocha das Arribas del Duero ficará para sempre solteira. Se tal acontecer a uma pessoa casada é sinal de que o companheiro não lhe é fiel...

Quem consegue ver o 2?

os lugares onde mora o paraíso*




*Adaptação do título de uma obra de Carlos Franz, O Lugar Onde Mora o Paraíso

quinta-feira, abril 24, 2008

Letra para um hino


É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.


É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.
Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.
(Manuel Alegre)

quarta-feira, abril 23, 2008

dia mundial do livro

A propósito deste dia, ocorreu-me resgatar do "baú" um texto que escrevi há tempos.

"Quando era adolescente e vivia numa pequena vila de província que não oferecia aos mais novos alternativas de diversão, o refúgio era, para alguns de nós, a leitura. Felizmente, havia, mesmo no centro da localidade, num dos edifícios mais bonitos, uma biblioteca de que me fiz amiga pelos oito anos. Entrar nela era como entrar num santuário, pois naquele espaço tudo era austeridade e fascínio - os livros metodicamente arrumados, as janelas altíssimas com pesadas portadas de madeira, o chão, também de madeira, de onde se desprendia sempre um forte cheiro a cera e o rosto sisudo do responsável que garantia o silêncio e a ordem. Veio-me provavelmente daí e do contacto com alguns professores que, felizmente, se cruzaram no meu caminho o gosto que continuo a alimentar pelos livros e pelas histórias. Acrescentaram-no, ainda na infância, a leitura do Girassol, uma publicação juvenil, que incluía passatempos, biografias em banda desenhada, receitas de culinária simples e excertos de livros - um excerto de O Cavaleiro da Dinamarca, da Sophia de Mello Breyner, abriu-me o apetite para a leitura integral da obra. Lembro-me que, nos tempos de faculdade, uma parte da magra bolsa de estudo ficava implicitamente destinado à compra de um livro. Nesse tempo, a leitura era tema de conversa habitual, como a troca e a oferta de livros. Durante o período em que decorria a Feira do Livro, primeiro na Rotunda da Boavista, depois no Pavilhão Rosa Mota, perdia a conta às horas que passava à procura de títulos interessantes, preferencialmente baratos. Vem desse tempo a leitura de Herman Hesse, de Gorki, de Kafka e de Yourcenar. Foi numa feira de 1991 que adquiri uma das obras que mais me custou perder e que não voltei a encontrar - Antologia Breve do Eugénio de Andrade. Hoje, cada vez que entro numa livraria, fico sobejamente desiludida. Já não se encontram livros que valha a pena oferecer. Nos escaparates e nas prateleiras, abunda a literatura que eu apelido de "fast-food" - rápida de confeccionar, de mastigar e digerir, que engorda, mas não alimenta. As pessoas fazem gala de dizer que leram este ou aquele título, que lêem cada vez mais... Falta critério, parece-me..."

terça-feira, abril 22, 2008

Planet Earth


 

Bem, depois de rever isto, não sei que pense da adolescente que fui... Não é a melhor maneira de celebrar o Dia da Terra, mas pode ser uma das maneiras... recordar também faz bem. :)

de mi para mi


aunque unos dias después... mi regalo de cumpleaños. Asi mismo, para leer en español...

Se houver erros no meu espanhol, sei de alguém que não me perdoará!

Costumo mostrar alguma renitência e pôr algumas reticências em relação a certas leituras e a certos autores, sobretudo quando estão na moda e os seus livros são bestsellers, mas, confesso que, depois de A Sombra do Vento, que me pareceu um livro bem escrito, independentemente do enredo, não resisti a adquirir o último, que me chegou da Fnac via correio.
Daqui a 667 páginas, voltarei a falar dele...

segunda-feira, abril 21, 2008

pontas soltas

Teremos força e astúcia suficientes para tirar a vaca da sala de estar? Tenho as minhas (fortes, fortíssimas) dúvidas... http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=57&id_news=328989 Não é (só) por aí, sra. Ministra! http://tek.sapo.pt/4I0/816485.html Arte ou a arte da indignidade? http://www.tvnet.pt/noticias/detalhes.php?id=26249

escolhas

Menina, de todos e de todas, e que me perdoem os Clash e os Bauhaus, este senhor e esta música: http://www.youtube.com/watch?v=uhSYbRiYwTY

pequenos-grandes prazeres

Há dias, a pretexto de uma tertúlia, juntámo-nos em volta de frugal mesa. Regadas de bom vinho tinto e de sumo, para quem não aprecia o néctar dionisino, as palavras fluiram em rio morno e caloroso, espevitadas, de quando em vez, por genuínas gargalhadas, enquanto a comida, sem protesto, se ia deixando deglutir.
Na hora do queijo, dos doces e da fruta, convocámos os poetas, que, alternada e repetidamente, se foram revelando.
O telurismo de Torga, o sentido de justiça e o mar de Sophia, a rebeldia de Campos, a ironia de O'Neill e de Sá-Carneiro, a nostalgia de Al Berto e de Yeats, o amor-entrega/ sofrimento de Maria do Rosário Pedreira e o amor-fidelidade de Vinicius não podiam combinar melhor com os sabores de tão mundano manjar, que foi, sem que nos apercebessemos, roubando horas à madrugada e ao sono.
No final, congratulamo-nos dessas horas de entrega, da conversa amena e fácil, da boa disposição... de todos esses pequenos-grandes prazeres de que, com o tempo, nos temos vindo a privar e a que - soubemo-lo então - havíamos perdido o gosto.
À anfitriã, agradecemos o jantar e tão feliz ideia. Ficou a promessa de uma repetição... talvez ao ar livre, em lugar aprazível.
P.S. - Faltou-me o Eugénio... imperdoável esquecimento que alguém compensou sem que o soubesse.

domingo, abril 20, 2008

verdade ou "fingimento"?*

“O poeta é um fingidor Finge tão completamente Que chega a fingir que é dor A dor que deveras sente.” (Excerto de Autopsicografia de Pessoa) 


Em maior ou menor grau, de forma mais ou menos consciente, com intenção ou não, fingimos ser o que não somos – pelas palavras (outra vez as palavras!) ou pelos gestos. Construímo-nos. Para agradar aos outros. Para sermos aceites. Para nos sentirmos outros, diferentes do que somos e de que não gostamos. Para nos aproximarmos de um pré-conceito de perfeição. E é com metade de nós a dizer verdade e a outra metade a fingir que nos apresentamos aos outros. Acrescente-se à imagem que damos de nós a imagem que os outros constroem, ou substitua-se esta pela primeira. O que fica? Não mais do que um ser idealizado. E quando essa idealização vai, ainda que tangencialmente e sem que disso tenhamos total consciência, ao encontro de esteriotipos? “Ama-se” o que se imagina não o que se conhece e, quando a realidade nos cai sobre a cabeça, sentimo-nos barco naufragado incapazes de seguir viagem. Em Cyrano de Bergerac, Roxane julgou-se perdidamente apaixonada por Christian, quando, na verdade, sucumbiu ao poder das palavras de Cyrano. O amor dela não passou de um logro – não amou um nem o outro. Adamastor apaixonou-se pela ninfa Tétis ao vê-la sair nua das águas e, quando percebeu que ela não só não o amava, como troçava do amor que ele sentia, tornou-se amargo, transformando-se em duro monte. Num e noutro caso, os amantes partiram de falácias, construindo um amor sem fundamento, ou seja, aquilo que costuma apelidar-se de “amor platónico”, porque se alimenta essencialmente de uma idealização.

* Nota: como Pessoa, entendo aqui o fingimento como construção, não como mentira.

Amizade


O Félix, do Desambientado, atribuiu-me o sêlo da amizade - nunca tinha recebido nada parecido.

Muito obrigada!

É suposto passar o testemunho a dez amigos. Não o vou fazer, porque não é fácil...

o (des)valor das palavras

Dizia-me, há tempos, um jovem que não atingiu ainda os trinta anos que, actualmente, as pessoas proferem palavras de forma leviana. Acrescentou que nunca, até então, dirigira a expressão "amo-te" a alguém por não ter sentido algo que assim pudesse nomear-se.
Não me lembro se o verbalizei, mas, pelo menos, intimamente, fiz coro com as palavras dele.
Noutros tempos, a palavra selava compromissos. Havia quem se orgulhasse de ser "pessoa de palavra". A forma como se usava as palavras era também um sinal de maturidade. Actualmente, "honra" e "maturidade" são conceitos vazios, que se perderam do referente - aliás, como me lembrava uma jovem de vinte anos, a idade não determina o grau de maturidade.
Confesso que tenho dificuldade em dizer às pessoas que as amo ou que gosto delas - por pudor, mas, sobretudo, porque temo não ser capaz de gestos que estejam à altura, que honrem o compromisso que julgo ter assumido pelas palavras proferidas.
Talvez por isso me ofendam as palavras que se revelam inconsequentes em gestos desajustados ou em incompreensíveis e súbitos silêncios. Desconfio ( outras vezes, chego à certeza), então, do valor das palavras ditas e das boas intenções de quem delas fez uso.
Mais sobre as palavras aqui.

sábado, abril 19, 2008

Poesia em festa

na
III Bienal Poem`Arte de Silves
nos dias
25, 26 e 27 de Abril
Informações detalhadas aqui.

Afinal

houve bolo - tosco, feito por mim -, jantar - feito pela mãe, que também trouxe um ramo de giesta branca, que eu adoro! -, presentes, sms, emails, telefonemas, um post (obrigada menina!) e carinho... sobretudo muito carinho! Em suma: sou uma sortuda!

sexta-feira, abril 18, 2008

Inaugurei este dia em divertida cavaqueira, num bar, com os companheiros de cinema. A conversa prolongou-se, mais amena, em casa, com a minha vizinha - e amiga, sobretudo amiga -, que fez questão de trazer duas fatias de bolo, que acompanhámos com ginginha de Alcobaça. Preparo-me agora para quatro horas de sono, não sem antes postar um poema que me foi gentilmente oferecido pelo seu autor. Do resto do dia, sei, por enquanto, que vai ser de trabalho e de muita chuva. O resto se verá depois... O poema, então... 


Comum conviver 


conheci um dia na praia de Abrigados um barco cheio de redes brancas verdes fateixas ferros nós de cordame muitos objectos me eram alheios o esventrado barco ao sol em derrame eu colhi as redes nos olhos levei-as da praia vi sinais nas casas espelhando nas paredes o brio do calor muita gente de regresso muito andar preso muita gente parada vigiando as estradas só uma osga vibrando no rigor branco da cal aos meus olhos deram espanto e destemor uma osga pela encosta de um beiral era festa desdenhosa e de asco indeciso o réptil pressentia na sua casa branca a luz da noite acendida de dia no eixo horizontal pensei em grande festa curiosa as pessoas não olhando apaziguadas queriam no entanto para sempre no reino de réptil obscuro insurrecto luminoso escondido ancestral ali pedia-se a morte bem alto a osga formigando na parede avançando e parando um instante rindo delas as crianças o medo sentia-se no falar presente o asco o medo a surpresa o querê-la morta de rajada num ritual de gestos de olhos circundantes procuravam enterrá-la num chão fundo sem a guarda das surpresas mas o osga de cauda caída pisada continuava o seu trajecto pela parede da casa mais gente se desorganizava vendo o dorso belo reluzente o peito suposto branco ardente a cabeça ferida do calor causava náusea ao veraneante nasua fé de morta inaugural só depois erguiam os olhos ao céu ao sol vendo-se viver no interior da justeza deste mundo sem uma osga na parede irradiante exploradora com um moscardo certo no dorso pululante toda a tarde se falou do acontecimento toda a gente se levantou mais toda a fala cruzou eternidades toda a gente falou de seus inimigos naturais à noite na praia o firmamento cruzou-me com a morte na espessura do meu tempo soube-me mais infinito embora o soubesse há muito tempo
a osga formigando ou vista distraída no telhado folgava por entre telhas à cobiça das abelhas com o medo tão comum às quezílias partiam as famílias com o susto de quem gosta de matar por muito tempo se falou por não se ter o gosto de ver morrer sem pisar um réptil no seu comum viver 


(José Ribeiro Marto)

 Um bem haja ao poeta!

domingo, abril 13, 2008

Vinte e sete


Para quem estiver por perto:



Aconselho vivamente: "Ibéria" e "Novecentos, o Pianista do Oceano" (a que já assisti) da Peripécia Teatro... mas eu sou suspeita!

sábado, abril 12, 2008

Para vos desejar um óptimo fim-de-semana

fui à minha varanda e ao meu pomar-promessa colher ramos e flores...




Entretanto...
O dia deu em chuvoso.
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso.

(Excerto de um poema de Álvaro de Campos)



sexta-feira, abril 11, 2008

De súbito,

instalou-se a dúvida!




Acho que vou começar pelas mãos...

pequenos prazeres

O dia foi de chuva - agora mesmo chove copiosamente -, o cansaço continua... Recuperei, contudo, algum ânimo... ... com os vossos comentários simpáticos; .... o jantar feito pelo mano (bifinhos com cogumelos e batatinhas alouradas... hummm); ... a tagarelice contínua da "piquena", que me obrigou a colorir desenhos e que se "encharcou" com o meu perfume, enquanto lhe secava o cabelo; ... a discussão de um livro e de um filme com a vizinha de cima, no final da noite. Um bem haja a todos e bons sonhos... embalados pelo som da chuva e por este "Lullaby" da Silje Nergaard. :)

quinta-feira, abril 10, 2008

P'ra ver s'isto arrebita :)

É por situações destas que: - a infância e a adolescência não me parecem - quase desde sempre - "lugares" inocentes e "idílicos"; - penso que alguns jovens com idade inferior a dezasseis anos deveriam ser julgados como adultos; - acredito cada vez menos na regeneração humana...

terça-feira, abril 08, 2008

Menina, quando regressares a casa, se ainda forem horas e te der para passares por cá, canta... esta música é óptima, como ambas sabemos, para "destilar" raiva. (Já a postei antes, mas tu mereces a repetição.) Beijocas - muitas e grandes. ;)

Sonhar

ainda não paga imposto... Summertime, And the livin' is easy Fish are jumpin' And the cotton is high Your daddy's rich And your mamma's good lookin' So hush little baby Don't you cry One of these mornings You're going to rise up singing Then you'll spread your wings And you'll take to the sky But till that morning There's a'nothing can harm you With daddy and mamma standing by Summertime, And the livin' is easy Fish are jumpin' And the cotton is high Your daddy's rich And your mamma's good lookin' So hush little baby Don't you cry (Música: George Gershwin; letra: Ira Gershwin, DuBose Heyward, 1935) Das inúmeras interpretações, escolhi três...

Escrevia

o Kokas que o blogue dele está a ficar desinteressante. Que direi eu deste?
Depois de um dia assaz "cinzento" ("Tell me why I don't like mondays?"), chuvoso e frio, feito de ideias lentas e de gestos curtos, de que sobraram apenas como vitórias os abraços da "piquena" e um pequeno avanço na natação - ok, riam à vontade, mas não vou explicar por que só agora, mulher feita, resolvi travar batalhas com a água -, que outro estado de espírito se pode esperar?
Agora vou dormir... só espero não sonhar, como há duas noites, que decidira e tentara roubar um carro - felizmente o remorso impediu o acto, mas só o despertar dissipou o medo de ser denunciada à polícia. Até logo... :)

domingo, abril 06, 2008

Devaneios linguísticos


(Soizick Meister, Book Garden)

Por que é que há pessoas que passam o tempo a "desfolhar" livros e revistas, quando deviam apenas "folheá-los"?

Por que é que outras insistem em "ir de encontro" às ideias dos outros, quando, na verdade, têm a intenção de "ir ao encontro"?


As coisas que podem ocorrer-nos enquanto apenas arrumamos livros...

P.S. - Por que é que a minha vizinha do lado teima em sacudir os tapetes, "pulverizando" de lixo a varanda de baixo e a minha roupa acabadinha de estender?!

Os velhinhos

Velvet para começar bem o domingo.

sexta-feira, abril 04, 2008


É só o que me espera durante todo o fim-de-semana, depois de três dias com obras em casa, em que tudo ficou - literalmente - submerso em pó.
É desta que a casa me vence e me obriga a uma limpeza a fundo há muito prometida! :(

Para vós: um óptimo fim-de-semana! :)

quinta-feira, abril 03, 2008

O Alienista

Nilson, o teu último comentário lembrou-me Machado de Assis. :)

Dentro de cinco dias, o alienista meteu na Casa Verde cerca de cinquenta aclamadores do novo governo. (...)

Este ponto da crise de Itaguaí marca também o grau máximo da influência de Simão Bacamarte. Tudo quanto quis, deu-se-lhe; e uma das mais vivas provas do poder do ilustre médico achamo-la na prontidão com que os vereadores, restituídos a seus lugares, consentiram em que Sebastião Freitas também fosse recolhido ao hospício. (...)

Mas a prova mais evidente da influência de Simão Bacamarte foi a docilidade com que a Câmara lhe entregou o próprio presidente. Este digno magistrado tinha declarado, em plena sessão, que não se contentava, para lavá-la da afronta dos Canjicas, com menos de trinta almudes de sangue; palavra que chegou aos ouvidos do alienista por boca do secretário da Câmara entusiasmado de tamanha energia. Simão Bacamarte começou por meter o secretário na Casa Verde, e foi dali à Câmara à qual declarou que o presidente estava padecendo da "demência dos touros", um género que ele pretendia estudar, com grande vantagem para os povos. A Câmara a princípio hesitou, mas acabou cedendo.

Daí em diante foi uma colecta desenfreada. Um homem não podia dar nascença ou curso à mais simples mentira do mundo, ainda daquelas que aproveitam ao inventor ou divulgador, que não fosse logo metido na Casa Verde. Tudo era loucura. (...) Ele respeitava as namoradas e não poupava as namoradeiras, dizendo que as primeiras cediam a um impulso natural e as segundas a um vício. Se um homem era avaro ou pródigo, ia do mesmo modo para a Casa Verde; daí a alegação de que não havia regra para a completa sanidade mental. (...)

Um dia de manhã—dia em que a Câmara devia dar um grande baile,— a vila inteira ficou abalada com a notícia de que a própria esposa do alienista fora metida na Casa Verde. Ninguém acreditou; devia ser invenção de algum gaiato. E não era: era a verdade pura. D. Evarista fora recolhida às duas horas da noite.

Machado de Assis, O Alienista