quinta-feira, janeiro 31, 2008

peças de dominó

(Imagem da net)

Não acredito no destino. Recuso-me a aceitar que as nossas vidas possam estar pré-determinadas. Se assim fosse, de que valeria errarmos e aprendermos com os erros? De que serviriam os esforços que empreendemos para concretizarmos os nossos sonhos?
Aceito os acasos e as coincidências - felizes ou infelizes. Acredito que os mais pequenos gestos ou as decisões mais inócuas podem, como peças de dominó que se precipitam umas sobre as outras, virar as nossas vidas do avesso, para o bem e para o mal.
Não posso saber se outras opções me teriam conduzido a uma vida mais feliz ou mais realizada, mas sei que aquilo que sou, as experiências que tenho vivido e as pessoas com quem me tenho cruzado vieram ao meu encontro muito antes de acontecerem - no momento em que tomei uma decisão que, de tão aparentemente insignificante, já não mora na minha memória.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

terça-feira, janeiro 29, 2008

As casas,

à força de as habitarmos, ganham alma. Com o tempo, nascem-lhes braços, regaços espaçosos e corações enormes, em que buscamos refúgio, quando o exterior e, por vezes, o nosso interior se revelam hostis.
Quando as deixamos, sentimos que alguma coisa do que fomos ficou com elas e que dos seus compartimentos vazios se desprende uma solidão quase humana. Se caímos na asneira de olhar para trás, na despedida, conseguimos intuir-lhes uns olhos de cão triste e abandonado. Talvez por isso, tenha resistido à tentação de olhar para trás quando disse adeus à casa onde vivi desde os cinco aos dezassete anos e onde voltava todas as férias, até ao Natal passado.
Pelas janelas voltadas a norte dessa casa, chega-nos, de dia, a imagem de uma manta de retalhos em tons de verde e castanho, esporadicamente tingida de branco imaculado; à noite, através delas, o céu exibe-se em todo o seu esplendor estrelado. Por isso, ficar à janela era um passatempo feliz como outro qualquer... como as ininterruptas brincadeiras da infância na rua, onde o trânsito só havia de ser verdade uns anos depois.

Há textos


que não perdem a actualidade...

Entraram. Mas não fizeram sinal de cortesia, nem de falar ao capitão nem a ninguém.

Ali por então não houve mais fala nem entendimento com eles, por a berberia deles ser tamanha que não se entendia nem ouvia ninguém.

(...) não que a mim me parecesse que lhe tivessem acatamento ou medo.

(...) para de todo o mais os amansar e apacificar, senão somente deixar aqui os dois degredados (...).


Pêro Vaz de Caminha, Carta a El-Rei D. Manuel Sobre o Achamento do Brasil




segunda-feira, janeiro 28, 2008

Com votos de boa semana para todos! :)

Sábio é quem monotoniza a existência, pois então cada pequeno incidente tem um privilégio de maravilha.
(F. Pessoa, Livro do Desassossego)
Há dias, em que pequenos gestos se elevam a "privilégios de maravilha": uma curta caminhada sob o sol morno de Inverno... um quase imperceptível corte de cabelo... o ceder à tentação de comprar uma revista de decoração... uma breve passagem pela net para "abrir" o correio...
(A letra da música - que não é para levar tudo "à letra" !- aqui.)

sábado, janeiro 26, 2008

os amigos

It's so easy now, 'cause you got friends
you can trust,
Friends will be friends,
When you're in need of love they give you
care and attention,
Friends will be friends,
When you're through with life and all hope is lost,
Hold out your hand 'cause friends will be friends
right till the end)
(Refrão de Friends Will Be Friends dos Queen)
Estava aqui a pensar como é bom estar com os amigos. Ainda que seja menos vezes do que antes. Ainda que seja a correr. Ainda que a conversa seja interrompida pelas solicitações, os choros ou as urgências das crianças. Na companhia dos amigos não nos sentimos avaliados. Sabemos que a nossa imagem ou as "asneiras" que, num impulso, nos escapam, não fazem diferença. Os amigos riem connosco, não riem de nós. Os amigos não procuram os motivos que os levam a gostar de nós, porque a amizade é uma espécie de fé - gosta-se e... pronto! Se perguntarmos a um amigo por que ainda nos "atura" apesar das nossas embirrações, diferenças, fraquezas e insucessos, sentirá dificuldade na resposta, porque as razões que nos prendem aos outros estão além do óbvio, do que é visível e quantificável - "O essencial é invisível aos olhos.", já dizia o Exupèry. Há tempos comentava com um primo, que é mais amigo do que primo, a necessidade de perder peso. Discordou: "Acho que não. Se tal acontecer, deixarás de ser tu."
Faço o balanço do dia que está prestes a terminar. Na minha agenda mental, rascunhara um conjunto de tarefas "obrigatórias". Troquei, sem hesitação, algumas pelo café do final da manhã com a L. - a amiga que ganhei há mais de trinta anos e com quem é sempre um prazer conversar - e pelo lanche do final da tarde com outros amigos. Num e noutro momento, a cumplicidade e a boa disposição anularam qualquer sentimento de culpa. A roupa por passar e o pó que esperem!

sexta-feira, janeiro 25, 2008

"Dá-me um sorriso"

ousou pedir-me um



atrevido.

Em resposta, devorei-o.

Sabia a mar, a férias, a praias de água morna e cristalina.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

ninguém sobrevive sem


uma caneca porta-bolachas



uma toalha de praia CSI


um caixa para transportar bananas


um temporizador para fazer chá

(Imagens recebidas por email)


terça-feira, janeiro 22, 2008

20002

Reparei agora que esta minha "casa" atingiu o bonito número de 20002 visitas! Mais: o nevoeiro parece ter-se ausentado... São servidos de um chá de menta - acabadinho de fazer - para comemorar?!

segunda-feira, janeiro 21, 2008

Quando é que

este nevoeiro nos deixa e dá lugar ao sol? :( Há dias assim
Dias de alma vaga (...) Sem horas sequer Há dias assim Feitos de silêncio (...) Dias sem risos nem choro Sem horas sequer Apenas silêncio de ouro Apenas dias assim (...) E os Rádio Macau é que sabem...

segunda-feira, janeiro 14, 2008

Dá-me

De uma página aberta (quase) ao acaso do Poemário Assírio e Alvim 2008: Dá-me algo mais que o silêncio ou doçura Algo que tenhas e não saibas Não quero dádivas raras Dá-me uma pedra. Não fiques imóvel fitando-me como se quisesses dizer que há muitas coisas mudas ocultas no que se diz Dá-me algo lento e fino como uma faca nas costas E se nada tens para dar-me dá-me tudo o que te falta! in Doze Nós Numa Corda (poemas mudados para português por Herberto Helder)

vamos lá enfrentá-la... a segunda-feira :(

domingo, janeiro 13, 2008

não há sábado sem sol, nem domingo sem missa, nem segunda sem preguiça*

Cada vez gosto menos de domingos. Por serem véspera de segunda-feira. Por, quase sempre, no Inverno, nascerem dias cinzentos, que acrescentam a soturnidade que amanhece comigo. Porque me empurram para obrigações familiares, que deixariam de ter esse peso se pudesse, sem aviso, estar com aqueles de quem gosto, sem as limitações que a rotina semanal nos impõe, em qualquer outro dia. Porque não posso sair à rua sem que famílias perfeitas me atirem à cara sorrisos de domingo-à-tarde-a-cumprir-o-habitual-passeio-dos-tristes e me olhem com o mesmo despudor que ofereceram à montra da loja em frente. (É neste momento que, invariavelmente, me assaltam as palavras de Sá-Carneiro - o Mário, aquele que morreu em Paris com um frasco de estricnina!- : "Porque um domingo é família/ É bem estar, é singeleza (...)"). Porque o tempo parece fugir-me e nem para acrescentar este texto me sobra!
Votos de um bom domingo para todos e de óptima segunda-feira numa canção com sabor a Verão:
*Provérbio cujas (pretensas) verdades começam a cair em desuso... excepto a última! :)

sexta-feira, janeiro 11, 2008

questionar o inquestionável?

Ontem, veio parar-me às mãos Ensaios de Amor de Alain de Botton - um ensaio em forma de romance (ou um romance que se socorre do tom e da forma do ensaio), em que o autor, num discurso de primeira pessoa, procura explicar o amor por rigorosas fórmulas matemáticas e sob a luz de teorias filosóficas. 


Apaixonamo-nos seguros de que não vamos encontrar no outro aquilo que sabemos existir em nós, cobardia, fraqueza, preguiça, desonestidade, acomodação e estupidez. Lançamos um laço de amor em volta do ente escolhido e decidimos que tudo nele vai de certo modo libertar-nos dos nossos defeitos.
Muito antes de nos familiarizarmos com o ser amado, às vezes temos a impressão curiosa de que somos velhos amigos. É a beleza que faz nascer o amor, ou o amor que faz nascer a beleza? Eu amava Chloe porque ela era bela, ou ela era bela porque eu a amava? Rodeados por uma infinidade de pessoas somos levados a perguntar por que foi que o nosso desejo se fixou naquele rosto em particular, naquela boca, nariz ou orelha, por que é que a curva deste pescoço ou a cova daquela face corresponde tão claramente aos nossos critérios de perfeição. (...) As palavras eram as mais ambíguas de toda a linguagem, pois a coisa a que se referiam era dolorosamente isenta de significado estável. É certo que vinham do coração e tentavam representar o que lá lhes tinha sido dado ver, mas a verdade é que o amor é como uma borboleta rara e colorida, frequentemente observada, mas nunca identificada de forma conclusiva. (...) a origem de um certo tipo de amor está no instinto de fugirmos de nós próprios e das nossas fraquezas (...). Mas se o ser amado nos dá troco, somos obrigados a olhar para nós próprios e, desse modo, recordados dos motivos que nos levaram a amar. Se calhar não era bem o amor que nós queríamos, mas sim alguém em quem acreditar, mas como continuar a acreditar no ser amado a partir do momento em que ele acredita em nós?

terça-feira, janeiro 08, 2008

um golpe de asa

Sabes, nina, gostei mesmo desta pequena história... Obrigada pela partilha! Afinal também aprendemos com os irmãos mais novos!
Era uma vez uma menina cujo coração batia mais rápido que o das outras pessoas. Isso incomodava toda a gente por causa do barulho... O coração batia tão alto! Ela tentava explicar: É um coração de pássaro... Eu estou no corpo errado!... Daí o coração bater mais rápido... Eu sou um pássaro!... O que é que disse?... É tolinha... Não deve durar muito... Então ela fugia... Ela só queria desaparecer, deixar-se levar pelo vento... Finalmente, a chuva acalmava-a, então ela voltava para casa e continuava a viver apesar de tudo... Pouco a pouco, as pessoas foram-se habituando ao barulho do coração... Acabaram mesmo por esquecê-la... Ninguém se apercebeu do que se passava e isso era bom para ela... Também ela se habituava... Começou mesmo a gostar do seu corpo... E sentia-se cada vez mais leve. Ninguém reparou como sorria de olhos postos no céu. Até que, um dia... As pessoas não sabiam se era alguém que morria, ou alguém que nascia... Mas uma coisa era certa, ninguém se importaria de partir assim...
Regina Pessoa, História trágica com final feliz
Viveu em tempos um pintor que nunca conseguia acabar de pintar uma ave, fosse ela uma cegonha ou uma garça. Quando se preparava para dar a última pincelada, ela levantava voo. E o pintor ficava muito tempo ainda a persegui-la com o pincel no céu azul…
Jorge de Sousa Braga

domingo, janeiro 06, 2008

Os livros, como as pessoas, não se medem aos palmos. Este, que não tem mais de 68 páginas, e que li, aos poucos, no decurso da tarde de hoje, entre esperas e uma viagem, fez-me rir com vontade, mas também - e sobretudo - conseguiu comover-me. 

" - Senhor Ibrahim: imagine que está num barco com a sua esposa e Brigitte Bardot. O barco afunda-se. Que faz? - Aposto que a minha mulher sabe nadar." 

" - Por que nunca sorris, Momo? - perguntou-me o senhor Ibrahim. Esta pergunta era um verdadeiro murro, um golpe tramado, não estava preparado para ela. - Sorrir é coisa de pessoas ricas (...). Quando digo que é coisa de pessoas ricas, quero dizer que é algo para pessoas felizes. - Pois bem, aí é que te enganas. É o facto de sorrir que nos faz felizes." 

" - O teu amor por ela pertence-te. Mesmo que ela o recuse, não poderá mudar nada. Não o aproveita, é tudo. O que dás, Momo, é teu para sempre (...).


Schmitt, Eric-Emmanuel, O Senhor Ibrahim e as flores do Corão, Ambar 

Obrigada, menino, pela sugestão! 

sexta-feira, janeiro 04, 2008

quinta-feira, janeiro 03, 2008

... contudo, no Natal e no final do ano, importante mesmo foi estar com amigos e familiares!