terça-feira, fevereiro 27, 2007


Reparei hoje que as magnólias da minha rua começaram a ganhar flores. Gosto da palavra "magnólia"... pelo som, pela forma...

Parece-me inequívoco: a Primavera insinua-se...

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

loucura

(Bosch, A Nave dos Loucos)

Em resposta a uma pergunta do Araj:


"Mas afinal o que vem a ser a loucura? Um enigma... Por isso mesmo é que às pessoas enigmáticas, incompreensíveis, se dá o nome de loucos...

Que a loucura, no fundo, é como tantas outras, uma questão de maioria. A vida é uma convenção: isto é vermelho, aquilo é branco, unicamente porque se determinou chamar à cor disto vermelho e à cor daquilo branco. A maior parte dos homens adoptou um sistema determinado de convenções: é a gente de juízo...

Pelo contrário, um número reduzido de indivíduos vê os objectos com outros olhos, chama-lhes outros nomes, pensa de maneira diferente, encara a vida de modo diverso. Como estão em minoria, são doidos...

Enganaram-se vocês e os médicos com isso a que chamaram loucura. O vosso espírito é demasiadamente acanhado para compreender tudo quanto não seja o comum... o vulgar (...).”

Mário de Sá-Carneiro, Loucura

segunda-feira, fevereiro 12, 2007

ao gosto popular

Levas uma rosa ao peito E tens um andar que é teu... Antes tivesses o jeito De amar alguém, que sou eu...
Fernando Pessoa, Quadras ao Gosto Popular
Só falta o manjerico...

sexta-feira, fevereiro 09, 2007

Se

Deixo-vos os votos de um Óptimo fim-de-semana no poema que me deram a ler e que passo a transcrever. Pertence a Rudyard Kipling, um escritor britânico, prémio Nobel da Literatura em 1907.
Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,
Se és capaz de confiar em ti, quando de ti duvidam
E no entanto perdoares que duvidem,
Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,
Se és capaz, sendo odiado, dar ternura,
Tudo sem pensar que és sábio ou um modelo dos bons,
Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,
Se és capaz de enfrentar o triunfo e o desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,
Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,
Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
Se és capaz de forçar teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustendo-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!
Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,
Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,
Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefas acertadas,
Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo o que nela existe
E não receies que to tomem
Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.
Rudyard Kipling

terça-feira, fevereiro 06, 2007

lhasa - el desierto Enquanto trabalho, oiço... He venido al desierto pa irme de tu amor Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor He venido a este centro de la nada pa gritar Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar He venido al desierto pa irme de tu amor Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor He venido a este centro de la nada pa gritar Que tú nunca mereciste He venido yo corriendo olvidándome de ti Dame un beso pajarillo no te asustes colibrí He venido encendida al desierto pa quemar Porque el alma prende fuego cuando deja de amar Porque el alma prende fuego cuando deja de amar He venido yo corriendo olvidándome de ti Dame un beso pajarillo y no te asustes colibrí He venido encendida al desierto pa quemar Porque el alma prende fuego He venido yo corriendo olvidándome de ti Dame un beso pajarillo y no te asustes colibrí He venido encendida al desierto pa quemar Porque el alma prende fuego cuando deja de amar Porque el alma prende fuego cuando deja de amar He venido al desierto pa irme de tu amor Que el desierto es más tierno y la espina besa mejor He venido a este centro de la nada pa gritar Que tú nunca mereciste lo que tanto quise dar He venido yo corriendo olvidándome de ti Dame un beso pajarillo y no te asustes colibrí He venido encendida al desierto pa quemar Porque el alma prende fuego
Volto, após mais de 15 anos, a Morte em Veneza de Thomas Mann, sem qualquer motivo - óbvio- especial:
As observações e as vivências do solitário silencioso são simultaneamente mais vagas e mais intensas do que as daquele que está em sociedade, os seus pensamentos são mais pesados, estranhos e nunca isentos de um laivo de tristeza. Imagens e percepções que facilmente seriam marginalizadas por um olhar, um riso, uma troca de impressões, ocupam-nos mais do que é necessário, aprofundam-se no mutismo, tornam-se plenas de sentido, são sentimento, emoção, aventura. Solidão amadurece o original, cria a beleza ousada e surpreendente, o poema. Porém cria também o erro, a desproporção, o absurdo, o ilícito.

domingo, fevereiro 04, 2007

Em resposta a uma pergunta da Carlota:
Esta imagem de Trás-os-Montes, captada por um amigo, serve de fundo ao ambiente de trabalho do meu computador, depois de a seguinte - um desenho feito pela minha irmã - ter desaparecido, sem que eu tenha percebido como.

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

"dá lá um jeitinho sentimental"

O texto que de seguida transcrevo há-de ser sobejamente conhecido por muitos de vós. Imagino até que outros bloggers o tenham já publicado. Hoje deparei com ele e deu-me vontade de o partilhar.
Parece que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Teixeira de Pascoaes meteu-se num navio para ir atrás de uma rapariga inglesa com quem nunca tinha falado. Estava apaixonado e foi para Liverpool. Quando finalmente conseguiu falar com ela, arrependeu-se. Quem é que hoje é capaz de se apaixonar assim? Hoje em dia as pessoas apaixonam-se por uma questão prática. Porque dá jeito. Porque são colegas e estão mesmo ali ao lado. Por que se dão bem e não se chateiam muito. Porque faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria. Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo". O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornam-se sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se numa variante o repouso, o intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental".(...) Odeio os novos casalinhos. Por onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassado ao pessoal da pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa a beleza. É esse o perigo. O nosso amor não é para nos compreender, não é para nos ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto. O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha" é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não é para se perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperante. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não está lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir. A vida é uma coisa e o amor é outra. A vida dura uma vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a vida inteira. E valê-la também."
Miguel Esteves Cardoso,in "Expresso"