segunda-feira, novembro 13, 2017

O soto


Os pesos da balança do soto da tia

Na aldeia havia dois: o soto do senhor A., que herdara do pai, um senhor de cabelos brancos com o mesmo nome, e o soto da tia, a quem todos os sobrinhos nos referíamos por "a tia do soto", uma vez que já geria aquele espaço quando nascemos.
No soto, vendia-se um pouco de tudo: mercearia, utensílios de latão e de plástico, lãs, atoalhados, galochas, pregos, produtos de higiene e petróleo para as candeias. No soto também se vendia vinho a copo ou a quartilho, porque ambos os sotos eram também taberna, onde os homens se juntavam e onde, por vezes, iniciavam discussões, que resultavam em pancadaria ou facada. No soto do senhor A., o espaço do comércio e o da taberna eram o mesmo. O soto da tia comunicava com a taberna, através de umas escadas. Os fregueses entravam por uma porta exterior. Neste espaço, feudo dos homens, mulheres e crianças só entravam quando os mandavam comprar vinho.
Em ambos os sotos, havia pesados balcões de madeira, aos quais o tempo e o uso tinham desgastado e emprestado um certo brilho, prateleiras até ao tecto, pequenas tulhas, que guardavam alguns produtos a granel. Não faltavam as balanças e os pesos e o papel grosso, por vezes listado, onde se embrulhava o bacalhau, ou o custaneiro, usado para o queijo.
Na aldeia, as pessoas tinham preferência por um dos sotos, por simpatia ou lealdade aos propriétários. Quando precisavam de alguma produto que sabiam vender-se num deles, que não era o da lealdade ou simpatia, pediam a alguém que comprasse o que precisavam em segredo, como se fosse para a pessoa, ou iam as próprias, "à escapula", fazer a compra, convictas, como gato escondido com rabo de fora, de que não tinham deixado rasto.
Lembro-me que as raparigas um pouco mais velhas do que eu iam ao soto, a medo, comprar pensos higiénicos «Modess». Se calhava estar um homem ao balcão, o que acontecia frequentemente no estabelecimento do senhor A., voltavam para casa com outro artigo.
Na semana da Páscoa, quando as mulheres passavam o dia no forno, a amassar e a cozer folares e calços, o soto era lugar que, a pedido das mães, as crianças mais visitavam, para ir buscar manteiga, bicarbonato ou fermento para os folares, ou petróleo para a candeia, quando o trabalho era maior do que o dia.
Na porta do soto não havia, como hoje, a indicação da hora de abertura e de fecho. O soto abria, mesmo aos domingos e feriados, quando alguém precisava de alguma coisa. Bastava bater na porta dos proprietários.
Durante os dias que passávamos na aldeia, pouco mais de um fim de semana, nas festas, ou quase um mês no Verão, a minha mãe fazia as compras no soto da irmã. Esta tinha, como era então hábito, um livro de deve e haver, onde assentava as compras e os preços. No dia em que regressávamos à vila, a minha mãe costumava ir pagar o que devia e que estava registado no tal livro. Antes de fechar as contas, costumava pedir à minha tia que pesasse bolachas, torradas ou maria, que vinham em caixas e se vendiam ao peso, e queijo, de barra ou de bola. 
Entretanto, os sotos fecharam. Estes foram substituídos por uma modesta mercearia e as tabernas pelo café, espaço que homens e mulheres partilham quase em igualdade e onde raramente se vende vinho.

Soto - s. m.
[Portugal: Beira; Trás-os-Montes] Estabelecimento comercial (Dicionário Priberam)

8 comentários:

Graça Pires disse...

Regressei à minha juventude, quando essa lojas que tudo vendiam eram também lugares de encontros. Um texto excelente.
Uma boa semana.
Um beijo.

deep disse...

Muito obrigada, Graça. :)

Uma boa semana também para si.
Beijo

Anónimo disse...

Excelente. Recordacoes da segunda década dos anos 70, quando vim para Portugal em licença graciosa dos meus pais, e conheci um na rua onde os meus avós viviam. A parte comercial dos vinhos permanece, nas tabernas que ainda perduram aqui e ali, nas ruas históricas de Lamego, terra materna.

deep disse...

Obrigada pelas palavras e também pela visita. :)

anamaria disse...

Havia de tudo...Por aqui, na Bairrada, era a loja. Ir à loja comprar café, broa, farinha ou açúcar, rebuçados...Planta (margarina), Tulicreme, Omo, cera amarela...e, ao lado, os homens nos copos, nos traçadinhos, "Boa tarde, menina!", a sentir-me corar. Recordo os cheiros misturados do café a granel, da lixívia, da aguardente, do Feno de Portugal, os tais sacos de papel às riscas, as novidades, os chocolates Regina, os Sugus de menta, ... Tão felizes que éramos sem saber!

deep disse...

Parece que só mudava o nome, ana. Os Sugus, o Tulicreme e os chocolates Regina são memórias que tenho da vila onde vivi quase toda a infância e adolescência.
Agora sabemos que éramos felizes!

JvT. disse...

Um belo texto que me fez lembrar da taberna de Covelas, que era também um soto! Obrigado :-)

deep disse...

De nada, João! :) Sou eu quem agradece (novamente) a partilha.