sexta-feira, março 18, 2016

Tradições

Calços, folar de carne e económicos, feitos pela minha mãe e pelas irmãs, e cozidos em forno de lenha

A Páscoa aproxima-se e com ela vêm-me à memória aromas e sabores indissociáveis da época: o cheiro do fumo de giesta que se desprende dos fornos e o sabor do folar de carne acabado de fazer.
Na infância e na adolescência, como hoje, passei sempre as festas religiosas na aldeia. Na Páscoa, íamos (eu, a minha mãe e  os meus irmãos) para lá uns dias antes, para podermos fazer os folares. Estes coziam-se num forno de lenha que, embora não fosse colectivo, servia várias famílias. Estas pagavam à proprietária em géneros: farinha ou outros ingredientes para o folar ou para os bolos. As mulheres combinavam previamente a utilização do forno. No mesmo dia, servia apenas duas, pois a tarefa estendia-se por todo o dia.
Dias antes, estava destinada aos homens a recolha de lenha necessária para a tarefa.
De manhã, bem cedo, amassavam-se os folares e aquecia-se o forno. Depois de a massa estar levedada, estendia-se e intercalava-se com carne de enchidos e presunto, em alguidares de barro preto, de alumínio ou em tabuleiros, levando-se, de seguida, a cozer.
Enquanto os folares coziam, fazia-se a massa dos económicos e dos dormidos, que se colocavam no forno quando este já não estava muito quente, em pedaços de latão (normalmente o fundo de caldeiros de aquecer água à lareira), polvilhados de farinha. Como se terminava o trabalho já de noite e o forno não tinha luz eléctrica, era necessário acender candeias de petróleo.
Durante o dia, as crianças intercalavam as brincadeiras com as idas ao forno, fazendo, eventualmente, "recados" às mães, a quem, à última da hora, faltava um pouco de fermento ou de canela para os bolos. De caminho, os mais gulosos aproveitavam para rapar do alguidar a massa dos bolos.
Hoje continuo a passar a Páscoa na aldeia, onde ainda muitas pessoas cozem os folares e o pão em fornos de lenha, mas como só vou no próprio dia ou no anterior, o fumo das lareiras já não tem o cheiro de giesta. Também a minha mãe, para poupar trabalho, optou por fazer os folares em casa, no forno do fogão.
Felizmente, há um hábito que, na família, instituímos há muito tempo: no dia de Páscoa, durante a tarde e parte da noite, entramos nas casas de todos os tios para provar o folar e, se por qualquer motivo, falha uma casa, o dono da mesma fica ofendido.

Texto escrito por mim em 2006

Receita para um folar (segundo a minha mãe)

6 ovos
1/2 litro de azeite
40grs (aproxim.) de fermento de padeiro
um pouco de sal
farinha q.b.
um pouco de margarina
carnes: linguiça, salpicão, entremeada, presunto


Coloca-se um pouco de farinha num alguidar, fazendo uma poça no meio. De seguida, desfaz-se o fermento num pouco de água morna, que se junta aos ovos e ao azeite. Mexe-se este preparado sem bater e deita-se na farinha. Amassa-se e vai-se deitando a farinha, de forma a ficar uma massa macia. Deixa-se levedar cerca de uma hora. Estica-se a massa e coloca-se, em camadas, num tabuleiro, alternando com a carne. Leveda novamente e leva-se ao forno bem quente, de 30 a 40 minutos.

8 comentários:

Catarina disse...

Levou-me a tempos remotos por mim desconhecidos. Boas recordações. Nunca provei folares de carne. : (
Que tenha uma boa Páscoa!

deep disse...

Catarina, deixo-lhe a receita,se quiser experimentar fazer. Bom apetite e boa Páscoa. :)

nêspera disse...

Não quero receitas. Quero o folar prontinho a comer. ;)

Beijo e bom fim-de-semana :)

Carmem Grinheiro disse...

Tão bom recordar esses sabores e cheiros autênticos que fazem parte da tradição/cultura dum povo.
Eu, que não cresci nesses costumes, quando cá cheguei, apaixonada que sou por tudo que aguce o paladar, aprendi a fazer folar e regueifa de Páscoa com minhas tias paternas. Claro que os meus não têm o sabor dum forno a lenha (fazia no forno do fogão) mas para mim eram relíquias ;)
Há anos que não faço, talvez esta semana me inspire e ponha as mãos na massa.
Mas a sua receita não dá a dose de farinha, essas assim: "a olho" me dão medo, porque requerem experiência com a receita.

bj amg

Isabel disse...

Gostei muito deste relato, que me transportou até à aldeia da minha mãe, onde passei algumas férias de Páscoa (não muitas; costumava ir para lá era nas férias do Verão). Eu recordo com saudade o sabor dos bolinhos que também a minha mãe fazia no forno da aldeia. Nunca mais comi bolinhos assim, tão simples e tão saborosos. São os sabores da alma familiar, acima de tudo.

Um beijinho e uma boa Páscoa:)

deep disse...

nêspera, prontos só lá para sexta! Ontem, provei folar em casa de uma tia, que os fez mais cedo. :)

Carmen, pode sempre comprar massa de pão e ir juntando os restantes ingredientes e ir vendo a consistência. Penso que assim será mais fácil. :)

Obrigada, Isabel. Ontem comi folar em casa de uma tia e comentei exactamente isso: tinha o sabor de outros tempos. :)

Bom domingo para todas.

Kátia disse...

Huuuummmm deu vontade de comer uns bons pedaços.
:-)

deep disse...

Penso que não se arrependeria, Kátia. :)