segunda-feira, fevereiro 22, 2016

Abraçar


(Imagem surripiada do mural da minha irmã que, por sua vez, o surripiou de outro mural)

Não veríamos, é certo, todos os nossos problemas resolvidos, como por decreto, se nos abraçássemos mais, mas esses problemas parecer-nos-iam mais pequenos e sentir-nos-íamos mais amados, certamente.

Lembro-me que, quando éramos crianças, logo que ouvíamos o meu pai chegar, eu e os meus irmãos corríamos para as escadas, que eram interiores, na tentativa de cada um ser o primeiro a beijá-lo. Tenho memória de o meu pai brincar connosco, de nos fazer cócegas para nos ver rir às gargalhadas, ou de a minha mãe desenhar, de forma rudimentar, flores e pássaros, quando lho solicitávamos. Não tenho, contudo, memória de abraços. Hoje, há, sem dúvida, entre nós, outras formas de manifestarmos o carinho que nos une, mas não os abraços. 

Recordo, com saudade, como tudo era tão mais fácil quando frequentava a faculdade. Havia então uma cumplicidade grande entre alguns de nós, que levava a que , não só os abraços, como as lágrimas, as confidências e também muito as alegrias emergissem sem pudor.

Pelo contrário, actualmente abraçar é quase um gesto em vias de extinção. São muito poucas as pessoas que abraçam e que o fazem de coração e que percebem como tomar o outro nos braços e apertá-lo contra si pode ser um gesto regenerador.

5 comentários:

ana disse...

olha deep, eu abraço muito. não as pessoas que gostaria de abraçar, por haver muros educacionais e se manifestar o afecto de outra forma, mas há abraços que me revigoram... digamos que sou uma abraçadeira :)

luisa disse...

Se calhar é porque nos vamos esquecendo de como se faz. A memória também precisa de um genérico. :)

deep disse...

ana, é mesmo isso: «muros educacionais». São eles que nos impedem de sermos mais espontâneos na expressão dos afectos. Eu não sou muito abraçadeira,como tu, mas tenho pena. Só com as minhas sobrinhas quebro as barreiras. :)

Luísa, quando não exercitamos, seja o que for, perdemos-lhe o jeito! :)

Isabel Pires disse...

(Primeiro, confessaste pertencer a uma família de larápios.)

Deep, talvez o abraço seja das manifestações afectivas mais difíceis de concretizar. Beija-se mais facilmente. O abraço requer um nível de intimidade diferente, talvez por haver uma maior zona dos corpos que se toca.
Depois, há as questões culturais. Ao nível da minha geração não era comum essa manifestação, mesmo em família. Há pais e filhos que nunca se abraçaram. E quando foi assim, é pior tentar forçar.
Nos afectos, há zonas irrecuperáveis.

Beijos

deep disse...

Se bem que, Isabel, ladrão que rouba ladrão... :)

Não me lembro de qualquer pai ou mãe à minha volta que fosse capaz desse gesto com os filhos, a não ser a minha madrinha, talvez por ter nascido e ter sido criada em Lisboa. Lembro-me, contudo, de serem capazes de receber com um abraço ligeiro as pessoas de fora por quem tinham estima.É curioso...

Beijos