Quinta-feira, Junho 23, 2011

O Verão


(Giuseppe Arcimboldo, "O Verão")


Estás no verão,
num fio de repousada água, nos espelhos perdidos sobre
a duna.
Estás em mim,
nas obscuras algas do meu nome e à beira do nome
pensas:
teria sido fogo, teria sido ouro e todavia é pó,
sepultada rosa do desejo, um homem entre as mágoas.
És o esplendor do dia,
os metais incandescentes de cada dia.
Deitas-te no azul onde te contemplo e deitada reconheces
o ardor das maçãs,
as claras noções do pecado.
Ouve a canção dos jovens amantes nas altas colinas dos
meus anos.
Quando me deixas, o sol encerra as suas pérolas, os
rituais que previ.
Uma colmeia explode no sonho, as palmeiras estão em
ti e inclinam-se.
Bebo, na clausura das tuas fontes, uma sede antiquíssima.
Doce e cruel é setembro.
Dolorosamente cego, fechado sobre a tua boca.


José Agostinho Baptista, Paixão e Cinzas

Domingo, Junho 19, 2011

Sábado, Junho 18, 2011

Don't go

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.


Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.


O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade

Sexta-feira, Junho 17, 2011

Quinta-feira, Junho 16, 2011

E por vezes...

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes


encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes


ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos


E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos.


David Mourão Ferreira (que partiu no dia 16 de Junho de 1996)

Segunda-feira, Junho 13, 2011

Não, não é cansaço

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.


F. Pessoa - Álvaro de Campos


Há 123 anos nascia o poeta Pessoa, por isso se chamou, como o santo, Fernando António.

Domingo, Junho 12, 2011

Sexta-feira, Junho 10, 2011


(Escher, "Pássaros")
Secaram-me os versos
quando o coração
no rigor dos dias se fez pedra.


Secou em mim o amor,
quando me recusaste a ternura líquida
dos teus olhos e o alimento
que ofertavas com as tuas mãos,
com o teu corpo em febre.


Tornaram-se secas as palavras,
até, noite após noite,
se perderem na negritude fria
das esperas.


Um grito de ave
corta o silêncio, fere a noite em cinza.
Afiada faca que dilacera,
que faz em pedaços o que era ainda
promessa em mim.


Deep, há minutos

Quinta-feira, Junho 09, 2011

Segunda-feira, Junho 06, 2011

O vento

Por mais que tente, o vento
não consegue adormecer
se não tiver nada para ler.
Seja uma folha de tília,
de bambu ou buganvília.


É por isso que o vento
arrasta as folhas consigo,
até encontrar um abrigo,
onde possa adormecer.
- arrastou até a folha
onde eu estava a escrever!


Jorge de Sousa Braga

Happiness

Sábado, Junho 04, 2011

Worrisome heart



Conheci-a há dias, através da Marta, e já sou fã. Obrigada, Marta.

Não é com vinagre que se apanham moscas...

diz o ditado. Contudo, mel - ou açúcar - em excesso pode sufocá-las.
Quero eu dizer que quem quiser conquistar-me e conquistar o meu respeito, seja no plano da amizade ou no plano do amor, deve evitar agradar-me - ostensivamente, quero dizer. Vá-se lá entender as mulheres! diriam alguns homens. 
Gosto, como é óbvio e mais ou menos como toda a gente, de mimos e de atenção, mas o excesso da subserviência incomoda-me e causa-me uma sensação de claustrofobia e, ao invés de me aproximar da pessoa que se esforça por me agradar, fazendo-me as vontades, dispondo-se a concordar sempre comigo ou a gostar de tudo aquilo de que eu gosto, afasta-me, por vezes a um ponto sem retrocesso.
Por muitas afinidades que possamos ter com alguém, há sempre divergências, que são resultado das diferenças de educação, das oportunidades que a vida nos ofereceu e de temperamento. Negá-las é negar a nossa individualidade, é privar os outros de aprenderem com o que em nós há de diferente e de potencialmente enriquecedor.

As boas raparigas vão para o céu...

Tenho agora mais do que a certeza - porque as suspeitas há muito que têm vindo a assaltar-me - de que não compensa ser boa rapariga, porque a verdade é que quanto mais me esforço por não sair da linha, por assumir atitudes de civismo e de respeito pelos outros, maior é o meu desespero quando esbarro com a arrogância e o egocentrismo alheios.
Dizia-me, há tempos, uma prima que, felizmente para ela, consegue ser um pouco mais transgressora do que eu, que se houvesse mais pessoas como eu o mundo seria melhor. Eu sei que foi um elogio - que eu não trago para aqui para me vangloriar da minha "santidade", até porque é qualidade que eu ponho em dúvida nos outros, quanto mais em mim -, mas não pude deixar de me sentir um pouquinho "extraterrestre" e de pensar que seria mais feliz se conseguisse ser mais descontraída e não me importar com as transgressões alheias.
Tudo isto vem a propósito de uma conversa que tive há minutos com uma amiga, durante o nosso curto mas habitual café de sábado, sobre o comportamento desrespeitador de alguns dos meus vizinhos, que usam e abusam do espaço comum, como se fosse a "casa da sogra" (suspeito que alguns na casa da sogra não têm a "lata" de fazer o mesmo). 
De que me vale, quando limpo a casa, esforçar-me por aspirar os tapetes, se a vizinha do lado sacode os dela com todo o vigor e o pó se espalhe e se infiltre nas casas dos outros? (O conceito que certas pessoas têm de limpeza é um pouco estranho.) De que me serve, esforçar-me por fazer o mínimo barulho possível quando me deito tarde, se os vizinhos chegam de madrugada e atiram com a porta ou inventam bricolages barulhentas logo de madrugada nos fins-de-semana, interrompendo o meu mais do que merecido descanso? Por que carga de água passo a vida a recomendar às crianças que frequentam a minha casa que moderem as brincadeiras, se alguns dos vizinhos permitem que os filhos façam gincanas com as cadeiras?
Definitivamente, o melhor mesmo é esforçar-me por deixar de ser boa rapariga, porque é sempre melhor ir a todo o lado do que ter o céu como garantia.

Bom dia!


Só porque me deu vontade, de publicar e de desejar "Bom dia!" a quem passa por cá...

Sexta-feira, Junho 03, 2011

As cidades cúmplices


As cidades são a minha fuga, o meu refúgio,
o meu lugar de não ter nome, de não ter casa.
Fujo para as cidades para me perder de mim,
para só me encontrar nos livros que trago
dos esconderijos mais secretos das cidades.
As cidades são as minhas cúmplices. Elas sabem-no.
(...)
Deixo nelas, como penhor da alma, o fio de uma saudade
que o tempo se encarrega de cortar
no ponto em que a ausência sabe a mágoa.


J. Jorge Letria, Produto Interno Lírico

Uma noite fechada a sete chaves

(...)
O meu sono é uma noite noite fechada a sete chaves
dentro do medo que eu tenho da verdade dos dias.
Se vivi outras vidas foi somente para preparar,
com cuidado de alquimista, a voz com que me revelo nesta.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

Quinta-feira, Junho 02, 2011

Uma maravilhosa e relaxante combinação...

Seria o Amor Português (variações sobre um fado)



Muitas vezes te esperei, perdi a conta,
longas manhãs te esperei tremendo
no patamar dos olhos. Que me importa
que batam à porta, façam chegar
jornais, ou cartas, de amizade um pouco
- tanto pó sobre os móveis tua ausência.


Se não és tu, que me pode importar?
Alguém bate, insiste através da madeira,
que me importa que batam à porta,
a solidão é uma espinha
insidiosamente alojada na garganta.
Um pássaro morto no jardim com neve.


Nada me importa; mas tu enfim me importas.
Importa, por exemplo, no sedoso
cabelo poisar estes lábios aflitos.
Por exemplo: destruir o silêncio.
Abrir certas eclusas, chover em certos campos.
Importa saber da importância
que há na simplicidade final do amor.


Comunicar esse amor. Fertilizá-lo.
"Que me importa que batam à porta..."
Sair de trás da própria porta, buscar
no amor a reconciliação com o mundo.


Longas manhãs te esperei, perdi a conta.
Ainda bem que esperei longas manhãs
e lhes perdi a conta, pois é como se
no dia em que eu abrir a porta
do teu amor tudo seja novo,
um homem uma mulher juntos pelas formosas
inexplicáveis circunstâncias da vida.


Que me importa, agora que me importas,
que batam, se não és tu, à porta.


Fernando Assis Pacheco

Lovesong



Continuo a preferir o original dos The Cure, mas esta versão também se ouve bem.