Terça-feira, Maio 31, 2011

Fechaduras de portas transmontanas

Eco

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.


Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.


Era esse o meu reino, e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.


Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
— nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.


Fernando Pinto do Amaral, Poemas Escolhidos

Sábado, Maio 28, 2011


Uma modesta oferta para os visitantes mais assíduos, com votos de óptimo fim-de-semana. :)

Devaneios

Compreendia então por que nunca conseguira despertar paixões avassaladoras e amores incondicionais, exceptuando o óbvio amor dos progenitores. Dava-se conta de que nunca fora excepcional em alguma coisa. Talvez tão só na facilidade que outrora tinha em ouvir os outros e na qualidade, que ainda sobrevivia em si, de guardar segredos. A essas características atribuía, nesse momento com outra lucidez, a confiança quase espontânea que algumas pessoas desenvolviam em relação a si. Atrevia-se a acrescentar uma certa honestidade de carácter que transparecia na forma como, apesar da timidez, enfrentava o olhar, umas vezes doce, outras inquisidor, raras vezes sedutor, dos seus interlocutores, numa conversa.
Na verdade, sempre tivera uma existência sem grandes atropelos. Nunca se sentira honestamente infeliz, como nunca vivera uma felicidade que considerasse plena. Fisicamente, raras vezes se encarara como uma pessoa interessante. Não era tão feia que assustasse, nem tão bonita que pudesse deslumbrar e destacar-se num grupo de mulheres. Julgava até corresponder a um tipo físico vulgar, a avaliar pelo número de vezes que desconhecidos a cumprimentavam tomando-a por alguém conhecido.
No que respeita ao saber, esforçara-se por ser igualmente mediana. Cultivara-se o suficiente para não parecer de todo ignorante, mas não tanto para ser uma pessoa de sólida cultura. Em jovem, nunca fora a aluna dedicada que merecesse a preferência e os elogios dos professores, nem tão má que devesse envergonhar-se e sentir-se o ser mais insignificante na face da terra. 
Na infância, aprendera vagamente como equilibrar-se na bicicleta, como, já na idade adulta, adquirira uns rudimentos de natação. Sempre gostara de música e, embora tivesse algum ouvido, faltavam-lhe a voz e a familiaridade com qualquer instrumento musical. Nos desportos de grupo - nesses preferia nem pensar -, porque lhe faltara a ousadia do risco, não atingira sequer a mediania. Ficara-se mesmo pela mediocridade. 
Se para os latinos a virtude residia na mediania ("Virtus in medium est."), deu-se conta de que essa existência mediana lhe soava então medíocre e era para si motivo de profunda insatisfação. Espantava-a por isso que a sua forma de ser e de viver pudesse suscitar a inveja de alguns.
Preferia, apesar de tudo, a solidão, com o que nela se pudesse vislumbrar de medíocre, à mediania das mornas paixões e do amor pela metade, porque, umas e outro, lhe pareciam apenas promessas do que nunca havia de ser e poucas coisas são mais infelizes do que as esperas vãs. 

Preto no branco


Bom fim de semana!

Segunda-feira, Maio 23, 2011

Como o prometido é devido...






... estas imagens são especialmente para a I., que estava comigo quando as captei e que, na tarde de sábado, foi minha companheira na colheita de cerejas.

Quinta-feira, Maio 19, 2011



Nick Cave: The Ship Song

Quarta-feira, Maio 18, 2011

Human Planet



Um vídeo lindíssimo, para ver em ecrã inteiro.

Terça-feira, Maio 17, 2011

Grande Prémio do Conto "Camilo Castelo Branco"

(Imagem "desviada" daqui.)

O Grande Prémio do Conto "Camilo Castelo Branco" foi atribuído ao escritor (n. Chacim, Macedo de Cavaleiros,1941) A. M. Pires Cabral, pela sua obra O Porco de Erimanto.

Parabéns, transmontano!

Segunda-feira, Maio 16, 2011

Low - Especially me



Conheci ontem. Ouvi... e gostei!

Domingo, Maio 15, 2011

Na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos,
há noites, manhãs e madrugadas
em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente
e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra
e apertamo-la nas mãos. Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável:
o contorno, vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra
onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.


José Saramago, in Provavelmente Alegria

Sexta-feira, Maio 13, 2011

Afinal, há razões para se ser supersticioso...

O blogger "engoliu" as publicações de ontem, que vou procurar repor numa só entrada.


A última integrava o poema "Esplanada" do Manuel António Pina, a quem ontem foi atribuído o prémio Camões, e uma imagem diferente desta que agora publico. 



(Santiago de Compostela, Abril de 2011, à espera que passasse a tempestade.
Ainda que tenha resultado uma má foto, gosto desta.)

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora de liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.


A penúltima era este poema, que integra uma agenda intemporal intitulada "Dou-te um verso, 365 versos oferecidos, um por cada dia"

Quarta-feira, Maio 11, 2011

A ficção suplanta sempre a realidade...


Baltasar Mateus, o Sete-Sóis está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão.

Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda da retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.

Terça-feira, Maio 10, 2011

Guerra civil


("Breogán", La Coruña, Abril/2011)


É contra mim que luto.
Não tenho outro inimigo.
O que penso,
O que sinto,
O que digo
E o que faço,
É que pede castigo
E desespera a lança no meu braço.


Absurda aliança
De criança
E adulto,
O que sou é um insulto
Ao que não sou;
E combato esse vulto
Que à traição me invadiu e me ocupou.


Miguel Torga

O meu amor existe

Segunda-feira, Maio 09, 2011

Sábado, Maio 07, 2011

Sinal dos tempos?

Há não muitos anos, nos fins de semana, levantava-me relativamente cedo, sem despertador, tomava o pequeno-almoço enquanto via televisão, sem pressa.
Actualmente, levanto-me à mesma hora, com despertador, tomo o pequeno-almoço em menos tempo e começo, invariavelmente, a trabalhar poucos minutos depois.

Das duas uma: ou estou a ficar "velhota" e sem resistência, ou o trabalho aumentou. Embora ambas as hipóteses possam estar certas, inclino-me para atribuir maior culpa à segunda.

Sexta-feira, Maio 06, 2011

Peter Murphy - Hit Song

Usted sabe...


("Domus", La Coruña, Abril/2011)


Talvez a cura para as feridas do coração exista... Depende da gravidade das feridas, da qualidade do tratamento e do empenho de quem as trata.

Segunda-feira, Maio 02, 2011

Gerações

Hoje, os filhos dos amigos tratam-nos com um à vontade que jamais ousaríamos usar com os amigos dos nossos pais. Dirigem-se a nós por "tu", dizem-nos na cara as prendas que preferem não receber no aniversário ou mostram abertamente desagrado quando o que lhes oferecemos não vai ao encontro dos seus desejos ("Outro livro?", "Oh, já recebi tanta t-shirt!"). Partilham connosco músicas, filmes e amigos no Facebook. Suspeito, contudo, que tudo isto não é garantia de que estejam mais próximos de nós no que toca aos afectos.