sábado, maio 28, 2011

Devaneios

Compreendia então por que nunca conseguira despertar paixões avassaladoras e amores incondicionais, exceptuando o óbvio amor dos progenitores. Dava-se conta de que nunca fora excepcional em alguma coisa. Talvez tão só na facilidade que outrora tinha em ouvir os outros e na qualidade, que ainda sobrevivia em si, de guardar segredos. A essas características atribuía, nesse momento com outra lucidez, a confiança quase espontânea que algumas pessoas desenvolviam em relação a si. Atrevia-se a acrescentar uma certa honestidade de carácter que transparecia na forma como, apesar da timidez, enfrentava o olhar, umas vezes doce, outras inquisidor, raras vezes sedutor, dos seus interlocutores, numa conversa.
Na verdade, sempre tivera uma existência sem grandes atropelos. Nunca se sentira honestamente infeliz, como nunca vivera uma felicidade que considerasse plena. Fisicamente, raras vezes se encarara como uma pessoa interessante. Não era tão feia que assustasse, nem tão bonita que pudesse deslumbrar e destacar-se num grupo de mulheres. Julgava até corresponder a um tipo físico vulgar, a avaliar pelo número de vezes que desconhecidos a cumprimentavam tomando-a por alguém conhecido.
No que respeita ao saber, esforçara-se por ser igualmente mediana. Cultivara-se o suficiente para não parecer de todo ignorante, mas não tanto para ser uma pessoa de sólida cultura. Em jovem, nunca fora a aluna dedicada que merecesse a preferência e os elogios dos professores, nem tão má que devesse envergonhar-se e sentir-se o ser mais insignificante na face da terra. 
Na infância, aprendera vagamente como equilibrar-se na bicicleta, como, já na idade adulta, adquirira uns rudimentos de natação. Sempre gostara de música e, embora tivesse algum ouvido, faltavam-lhe a voz e a familiaridade com qualquer instrumento musical. Nos desportos de grupo - nesses preferia nem pensar -, porque lhe faltara a ousadia do risco, não atingira sequer a mediania. Ficara-se mesmo pela mediocridade. 
Se para os latinos a virtude residia na mediania ("Virtus in medium est."), deu-se conta de que essa existência mediana lhe soava então medíocre e era para si motivo de profunda insatisfação. Espantava-a por isso que a sua forma de ser e de viver pudesse suscitar a inveja de alguns.
Preferia, apesar de tudo, a solidão, com o que nela se pudesse vislumbrar de medíocre, à mediania das mornas paixões e do amor pela metade, porque, umas e outro, lhe pareciam apenas promessas do que nunca havia de ser e poucas coisas são mais infelizes do que as esperas vãs. 

5 comentários:

R. disse...

Que texto tão magnífico, deep! Bem longe da mediania a que alude :) Bem podia ser o início auspicioso de um texto integral por desvendar. Enquanto o lia pensava: "mediania não é o mesmo que mediocridade". E eis que encontro no final a referência à mesma! Fico a pensar que tudo depende do ponto de vista e dos padrões individuais de exigência.
Muitos parabéns pelo texto e um agradecimento sentido pelos votos de fim-de-semana, que aqui ficam inteiramente retribuídos! :)

deep disse...

R., muito obrigada pela apreciação favorável ao texto. Foi sob este impulso que acrescentei algumas ideias e melhorei algumas frases.
Mediania não é, de facto, mediocridade, mas tudo depende das exigências dos que nos rodeiam e das nossas próprias exigências, que variam muitas vezes com o estado de espírito.

Um óptimo domingo. Bjs

Virgínia do Carmo disse...

Às vezes o mundo exige demais de nós, os medianos, e outras vezes simplesmente não aceita o tanto que queremos dar-lhe. às vezes, andamos desencontrados de tudo, e outras vez, esbarramos na nossa própria sombra... Às vezes ser mediano, ou mesmo bom, é suficiente, outras vezes, é demais. Porque os medíocres não sofrem tanto com a mediocridade dos outros...

Beijinho e perdoa-me por vir ocupar o teu espaço com o meu próprio devaneio :)

deep disse...

Virgínia, talvez o problema resida na tendência da sociedade para criar estereótipos e para desvalorizar tudo e todos quantos não encaixem nesses estereótipos, que não deixam de ser redutores.

Não tenho de que te perdoar. Devo, antes, agradecer-te a companhia e as palavras.

Beijinhos

Anónimo disse...

quantos dos extraordinários terão humildade.... muito bom o texto....

bjokas mtas

maria3