domingo, janeiro 30, 2011

Apenas as lembranças

Podes levar tudo menos as lembranças,
peço-te, eu não sou um poeta do amor,
eu que sempre fui pudico ao nomear os sentimentos.
Há coisas que nunca podem chegar a ser ditas,
ainda que sejam sentidas até ao desespero das lágrimas.
Essas pertencem ao coração e não à escrita,
e não há álcool nem lume que as apague,
que as consuma, que as devore. São as coisas abissais
e absolutas que não se resolvem como teoremas
ou equações de entreter a quadrícula das páginas.
Se quiseres, eu apago a luz para não me veres chorar,
eu que já há muito esqueci como se chora,
eu que sequei todas as lágrimas nos gélidos mistérios
da aflição das noites, nos simulacros.
Poupa as esperanças, como se poupasses
os corais ou as anémonas na última viagem
até ao casulo da profundeza do mar.
Poupa-me, poupando o resto de mim
no pouco que sobra de nós. Não insistas.
As cegonhas vão e voltam, os corvos salpicam
de tinta nocturna o ilusório sossego das tardes.
Nenhuma porta se fechará à tua passagem,
porque eu já não sei amar, porque eu desisti
de me deixar amar. Que fiquem apenas as lembranças,
oferendas prometidas à felicidade que se esquiva.


José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

2 comentários:

Virgínia do Carmo disse...

Eis como se faz o oposto do que se se diz...

Mas o texto é belíssimo.

Um grande beijinho e bom fim de semana! :)

Anónimo disse...

muito bom...

bjokas

maria3