sábado, abril 25, 2009

debaixo das oliveiras

(Trás-os-Montes, Abril de 2009)
Este foi o mês em que cantei dentro de minha casa debaixo das oliveiras. O mês em que a brisa me pôs nas mãos uma harpa de folhas e a terra me emprestou sua flauta e sua lua. Maré viva. Meu sangue atravessado por um cometa visível a olho nu tangido por satélites e aves de arribação navegado por peixes desconhecidos. Este foi o mês em que cantei como quem morre e ressuscita no terceiro dia de cada sílaba. O mês em que subi a uma colina dentro de minha casa olhei a terra e o mar depois cantei como quem faz com duas pedras o primeiro lume. Palavras e pedras. Palavras e lume de uma vida. Este foi o mês em que fui a um lugar santo dentro de minha casa. O mês em que saí dos campos e me banhei no rio como quem se baptiza e cantei debaixo das oliveiras as mãos cheias de terra. Palavras e terra de uma vida. Este foi o mês em que cantei como quem espalha ao vento suas cinzas e cresce de seu próprio adubo carregado de folhas. Palavras e folhas de uma vida. O mês em que a mulher tocou meus ombros com sua graça e me deu a beber a água pura do seu poço. Este foi o mês em que o filho derramou dentro de mim o orvalho e o sol de sua manhã. O mês em que cantei como quem de si se perde e reencontra nas coisas novamente nomeadas. Este foi o mês em que atravessei montanhas e cheguei a um lugar onde as palavras escorriam leite e mel. MILAGRE MILAGRE gritaram dentro de mim as aves todas da floresta. Então reparei que era o lugar do poema o lugar santo onde cantei entre mulher e o filho como quem dá graças. Este foi o mês em que cantei dentro de minha casa debaixo das oliveiras. Manuel Alegre

2 comentários:

tsiwari disse...

Continua Alegre, o Manuel...


;)***

Nilson Barcelli disse...

E como bem canta o Poeta...
Gosto quase sempre de ler o Manuel Alegre.
Cara amiga, boa semana.
Beijos.