sábado, dezembro 16, 2006

quando um homem quiser

Ocorre-me escrever sobre o Natal, por tradição a festa da família, em que se celebra a vida. No cheiro intenso do fumo das lareiras, evoco os natais de outros tempos. Havia, então, um certo gozo em ir para o campo procurar o musgo para fazer o presépio com as imagens tradicionais. Nesse tempo, os mais novos saltavam ansiosos das camas, na manhã do dia 25, para abrir a prenda-surpresa que o Menino Jesus deixara no sapatinho colocado debaixo da cama ou junto à lareira. Actualmente sucumbimos aos apelos consumistas, como sucumbiremos aos excessos alimentares próprios da época. Ainda Dezembro é uma promessa, e já o Natal se esboça em adornos de rua cada vez mais exuberantes e claramente desligados do verdadeiro espírito natalício. Os símbolos pagãos impõem-se. O Pai Natal Coca-Cola insiste em escalar varandas e paredes, na tentativa infrutífera de alcançar chaminés cada vez mais raras; as ruas e as fachadas das casas inundam-se de luzes, a lembrar qualquer casino de Las Vegas. À festa acabam por aderir mesmo aqueles que negam ter fé. Multiplicam-se os jantares de Natal, esvaziam-se as bolsas, entra-se na azáfama contagiante das prendas. Assaltam-nos subitamente acessos de generosidade que reprimimos no resto do ano. Lembramo-nos que há necessitados e instituições de solidariedade. O Natal não deveria ser um fim, antes um princípio. Neste Natal, ousemos levar à letra as palavras de Ary dos Santos: “Natal é em Dezembro/ mas em Maio pode ser. / Natal é em Setembro/ é quando um homem quiser.”.
Nota: Este texto foi escrito por mim para integrar um outro espaço. Deste modo, considerem-no uma transcrição.

Peace On Earth

5 comentários:

Dulce disse...

Pois é.
Vive-se o Natal esquecendo o aniversariante e a boa nova... :(

Yashmeen disse...

Os Natais transmontanos têm um encanto muito próprio. Hoje estive num café da Casa de Trás-Os-Montes e Alto Douro (R. Morais Soares, Lisboa) a comer folar e lembrei-me de ti :)

TsiWari disse...

as casas à Las Vegas...e então essa do Pai Natal das lojas chinesas... aaaarrrrgggggggggghhhhhhh!


;)*

Araj disse...

Natal é quando um Homem quer que seja...

O Meu Natal ainda é à lareira, com a família tuda reunida... é cada vez memorável a cada ano que passa...

deep disse...

É mesmo assim, Dulce. Percebo o fascínio pelo Pai Natal, mas o Natal tem outra origem...

Yashmeen, aos Natais transmontanos está associado o frio - muito poucas vezes a neve! - e, inevitavelmente o convívio à volta da lareira e da fogueira de Natal que ainda se faz em muitas aldeias. Folar também é muito bom!

Tsiwari, podes crer... e eles multiplicam-se a cada dia!

Araj, felizmente, o meu também ainda é assim.

Beijos e boa semana para todos!