terça-feira, dezembro 13, 2005

Natal : aliança do religioso e do profano

Ao contrário do que possamos pensar, grande parte dos símbolos e costumes que hoje associamos ao Natal têm origem profana, são anteriores ao Cristianismo e resultaram da absorção de outras culturas pela ideologia cristã. O Natal, festa consagrada ao espírito da casa e da família, significou para os nossos antepassados (talvez não muito remotos) a confraternização com os vivos e a evocação dos mortos queridos. A ligação da festa do nascimento de Jesus ao culto dos mortos parece ser o resultado da assimilação de primitivos rituais profanos pela mitologia cristã, que lhes atribuiu novos significados. Era costume, em determinadas regiões do nosso país, nomeadamente no Minho e no Porto, por altura do Natal, proceder a certos rituais que evocavam os mortos. Um desses rituais consistia em colocar na mesa um talher num lugar destinado ao familiar falecido em data mais recente ou em duplicar a ceia de Natal numa sala à parte. Um dos mais curiosos consistia na colocação, na soleira da porta, de um prato com pedaços de cada um dos alimentos de que se compunha a ceia. Acreditava-se que as almas viriam em forma de borboletas, negras ou brancas (conforme vinham do céu ou do inferno), sendo necessário indicar-lhes o caminho com uma luz, no momento em que se colocava o prato na porta. Igualmente relacionado com o culto dos mortos parece estar o costume dinamarquês, com equivalente no nosso país, de dormir na palha na noite de Natal, permitindo que os mortos, que comparecem nessa noite, se deitem e durmam nas suas camas, daquela forma desocupadas. Também o hábito de enfeitar pinheiros na quadra do Natal começou por ser pagão, este de origem germânica. Os germânicos concebiam as árvores, em especial o carvalho, como divindades protectoras. Acreditavam que o facto de, no Inverno, as árvores ficarem despidas, os tornava a eles próprios mais permeáveis ao mal. Resolveram, por isso, começar a enfeitar as suas árvores com pedras pintadas e fitas de tecido, pensando que deste modo dariam solução ao problema. No período de conversão destes povos, os cristãos convenceram-nos a substituir o carvalho pelo abeto, uma vez que, pela sua forma triangular, permitiria simbolizar a Santíssima Trindade. Aos poucos, o abeto foi, por sua vez, substituído por outras árvores de formato semelhante, entre elas o pinheiro.

2 comentários:

Carriço disse...

Confesso: em termos de arranjos, cá em casa assenta tudo no modelo pagão. Mas garanto que o espírito é bem Cristão!

Saudações

deep disse...

No que me diz respeito, predomina o pagão.
O importante mesmo é o espírito "cristão" (no sentido literal ou não da palavra)... tudo o resto é alimento para a vista!
Saudações