Os mais difíceis de convencer a ficar em casa são, sem dúvida, os mais velhos. O meu pai, porque tem a horta e as galinhas e agilidade quanto baste apesar dos 80 anos, sai todos os dias. Se não são a horta e as galinhas, são os castanheiros ou as oliveiras, ou o quintal ao qual é preciso mondar a erva. Não pára em casa. Ainda assim, noto-lhe a tristeza e uma certa revolta, que o faz agir como uma criança mimada de 5 anos, a quem recusaram um doce ou um brinquedo. Apoquenta-o não poder manter certos gestos sociais que lhe traziam diariamente alegria: tomar um café, no centro da aldeia, a caminho da horta, passar na casa dos cunhados, para os cumprimentar ou para oferecer algum produto do seu lavor, convidar os sobrinhos ou outros rapazes da aldeia para um copo, ter os filhos e as netas a almoçar ao domingo, ir comprar, sem restrições, medicamentos e os bens alimentares à vila mais próxima.
Ontem, à noite, propus-me fazer as compras lá para casa. Partiu do princípio que o levava comigo. Quando percebeu que tal não aconteceria, ficou deveras aborrecido e eu, apesar dos argumentos, sem argumentos.
Fui fazer as compras sozinha - as da farmácia, as do talho e as do supermercado. Quando passei lá em casa para levar o que comprara, percebi que a zanga dele não é comigo, por "mandar" nele, mas com toda a esta situação que lhe tolhe os movimentos e o faz sentir inútil, apesar da horta, das galinhas e de tudo o resto de que ele ainda trata.
Para me "compensar", obrigou-me a trazer frango caseiro, ovos, folar transmontano, batatas, uma abóbora e uma alface.