sábado, março 28, 2020

Carta


Lembro-me agora que tenho de marcar um encontro contigo, num sítio em que ambos nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma das ocorrências da vida venha interferir no que temos para nos dizer. Muitas vezes me lembrei de que esse sítio podia ser, até, um lugar sem nada de especial, como um canto de café, em frente de um espelho que poderia servir de pretexto para reflectir a alma, a impressão da tarde, o último estertor do dia antes de nos despedirmos, quando é preciso encontrar uma fórmula que disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É que o amor nem sempre é uma palavra de uso, aquela que permite a passagem à comunicação; mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale, de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio ser, como se uma troca de almas fosse possível neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e me peças: "Vem comigo!", e devo dizer-te que muitas vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde, isto é, a porta tinha-se fechado até outro dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que é também a mais absurda, de um sentimento; e por trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores de céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas, que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.



Nuno Júdice

quarta-feira, março 25, 2020

Isto não é um lamento

Queixamo-nos do isolamento, de termos de ficar, sozinhos ou acompanhados, confinados ao espaço de uma casa ou de um apartamento. Alguns têm a sorte de viver numa casa com jardim ou quintal, outros, a sorte de habitarem uma casa com varandas amplas, soalheiras (como eu), outros - melhor ainda - a sorte de viverem no campo e de poderem usufruir desse espaço sem terem de se cruzar com outras pessoas. Muitos de nós estamos ainda, felizmente, de saúde e conectados com o mundo de diversas formas e, por isso, a sensação de isolamento atenua-se. 
Queixamo-nos do isolamento, mas, na verdade, queixamo-nos (ocultando as palavras) do medo - de que a pandemia alastre, de que esta situação não tenha fim, de que o "bicho" se instale em nós e, mais ainda, num dos nossos. 
Não é a sensação de claustrofobia que me assalta e me assusta quando desperto, é esta impressão de pesadelo que não se dissipa, quando saio da cama, ponho os pés no chão e lavo a cara.
Tenho estado diária e quase permanentemente em contacto com as pessoas com as quais trabalho, à distância. Enquanto não nos adaptamos a esta novidade que é o teletrabalho (hoje já tive uma reunião de duas horas), gastamos muito mais tempo do que seria expectável num dia normal de trabalho a comunicar com os outros, porque é preciso testar aplicações e canais de comunicação, que nem sempre funcionam, responder a e-mails e mensagens individuais repetidas vezes. E tudo isto cansa, mas tudo isto nos distrai, sobretudo quem vive só, deste clima pesado que nos caiu em cima.

Nestes dias, tenho-me lembrado de livros como O relato de um náufrago, do Gabriel Garcia Marquez, e Teoria geral do esquecimento, do José Eduardo Agualusa. No primeiro, conta-se a história verídica de um homem que terá estado sozinho numa balsa, em pleno alto mar, durante onze dias. Quando li a resenha, perguntei-me o que teria de novo para contar em cada dia alguém que, durante tantos dias, se vê sozinho rodeado de água. Constatei, depois, que em cada dia havia pormenores que o tornavam diferente do anterior. No segundo, narra-se a história de uma mulher que vive em Luanda e que, na véspera da independência, se barrica no apartamento, onde fica isolada durante quase trinta anos. Durante esse tempo, Ludovica escreve para não enlouquecer e que, quando já não tem papel para o fazer, começa a escrever nas paredes.

Tenho, no fim de cada dia, como Ludovica, escrito um relato de tudo o que fiz e de todas as interações (por telefone ou por escrito) com familiares, amigos ou colegas de trabalho (alguns dos quais são também amigos) - nunca recebi tantos telefonemas, e-mails ou mensagens no WhatsApp em tão pouco tempo. Constato que, como os do náufrago, também  os meus dias têm sido diferentes uns dos outros e que, ao contrário do que aconteceria há alguns anos e ainda acontece hoje com algumas pessoas, estou longe de estar isolada! Bendita tecnologia!

Fiquem todos muito bem! 

segunda-feira, março 23, 2020

Anoiteceu mais cedo

Anoiteceu mais cedo. À porta fechada,
preparo um roteiro de viagens.
Sublinho rotas e derrotas.
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos
e gravo na mão esquerda um astrolábio.
Tenho uma ilha adiada no peito.
É a época das marés vivas. Pressinto-o,
pela intensa ondulação do meu cabelo,
antecipando a tormenta.

Graça Pires

sábado, março 21, 2020

Que não nos falte a poesia

... o a capacidade de a vermos nos pormenores.

Toda a poesia
é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.

Eugénio de Andrade, Os Sulcos da Sede

Feliz dia da poesia!

quinta-feira, março 19, 2020

Vai um café, vizinha?


Eu e a vizinha de cima não tomamos café, mas, uma vez por dia, vamos à varanda dar dois dedos de conversa, depois de um toque para o telemóvel.
Hoje, esses dois dedos de conversa obrigaram-me a fazer uma pausa no teletrabalho, que excedeu o número de horas de um dia normal.
Enquanto não nos familiarizarmos com esta nova forma de estar e de trabalhar, tudo parece muito. Pior do que estar em isolamento e ter de trabalhar à distância é não conseguirmos convencermos os mais velhos da premência de se ficar em casa!
Fiquem bem... em casa, se possível!

Take me somewhere nice

domingo, março 15, 2020

O medo, esse carcereiro

Vou à varanda tirar alguma roupa, que resseca sob o sol intenso, do estendal e oiço - não posso deixar de ouvir - a vizinha do lado, enfermeira, que conversa com alguém ao telefone num tom audível em toda a rua. Dos fragmentos, ficou-me "Entretanto, fiquei com esta tosse. Vamos ver no que isto dá.". Antes disso, ouvi-a comentar que tencionava ir comprar alguns alimentos para ter em casa e, antes ainda, a subir e a descer as escadas do prédio, que não tem elevador.
O medo e a dúvida instalam-se em mim: será seguro ir visitar os meus pais, como costumo? Não temo por mim, mas temo muito por eles, ambos com 80 anos. Temo pelo meu irmão, que trabalha num serviço de saúde. Temos por todas as pessoas vulneráveis, conhecidas e desconhecidas.
Sinto, há dias, uma impressão de estranheza. Fui caminhar com uma amiga, depois de jantar alguns dias. Percebemos que o número de pessoas nas ruas, a caminhar, reduziu drasticamente. Comparo este silêncio aquele que se "ouve" nas noites em que neva. Nessas noites, há algo de mágico, pelo manto branco que tudo cobre, mas há também algo de "trágico", que causa apreensão por sabermos que estamos mais isolados e que, numa situação de emergência, será difícil prestar socorro a quem precise dele. Na situação que vivemos actualmente, há só esta impressão de "trágico"... nada de mágico.
Ontem, no programa "Governo Sombra", Ricardo Araújo Pereira dizia haver no ar "uma impressão de fim do mundo". Não é tanto. Esperemos que não seja.

domingo, fevereiro 16, 2020

A desconstrução do mito

Ainda as minhas leituras...

«O glorioso Aquiles. O fogoso Aquiles, o valente Aquiles, o divino Aquiles... Ah, como se acumulam os epítetos! [...] para nós, ele era o «carniceiro».
Aquiles de pés velozes. Eis um qualificativo interessante. A sua velocidade definia-o acima de tudo, mais do que a fogosidade ou a grandeza.»

«[...] diz-me a experiência que os homens são estranhamente cegos à agressividade nas mulheres. Eles é que são os guerreiros, com os seus elmos e couraças, as suas espadas e lanças, e parecem não ver as nossas batalhas; ou preferem não as ver. Se tomassem consciência de que não somos as criaturas brandas por que nos tomam, talvez isso lhes perturbasse a paz de espírito.»

Pat Barker, O Silêncio das Mulheres

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

No ponto onde o silêncio e a solidão


No ponto onde o silêncio e a solidão
Se cruzam com a noite e com o frio,
Esperei como quem espera em vão,
Tão nítido e preciso era o vazio.
Sophia de M. Breyner Andresen, Obra Poética

quarta-feira, fevereiro 12, 2020

Pelo caminho...

 ... e por esta ordem (nos últimos quinze dias, leituras e releituras):





sexta-feira, fevereiro 07, 2020

Promiscuidade

Conversava, ontem à noite, com uma amiga que, não morando muito longe, vejo menos vezes do que gostaria. Dizia-me que tem, como eu, o hábito de ler vários livros ao mesmo tempo, «para os diferentes estados de alma».
Há uma outra amiga que me acusa, a brincar, de ser promiscua nesse meu hábito.
E, não tendo hoje nem tempo nem assunto, deixo-vos com alguns dos livros que actualmente me fazem companhia à cabeceira. Parte deles foram ofertas do último Natal.





quarta-feira, dezembro 18, 2019

Memórias

Porque o Natal também se faz de boas memórias... 

Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.
Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.
Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.
O Natal em que a roupa dormia, gelada,
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.
Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.
Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.
A partir de então,
aprendi a voracidade das horas,
o efeito corruptor do tempo,
deep, dezembro de 2013

sábado, dezembro 07, 2019

Ecce homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.


Do poeta José Carlos Ary dos Santos, que nasceu num dia 7 de Dezembro (1937)

domingo, dezembro 01, 2019

Dezembro

Dezembro vem do latim “Decem”, que significa dez. O nome tem origem na posição que ocupava no antigo calendário romano. O décimo mês do ano.

Daqui.

Feliz Dezembro para quem passa.

terça-feira, novembro 12, 2019

Que deste Outono

Que deste outono,
Que se verte pelo chão
Em oiro e sangue,
Saiba colher o doce fruto
E agradecer o amor da terra
Que a meus pés se prostra.

Que nestes dias de sol morno
E luz macia
Não perca o trilho

Que há-de levar-me ao sul,
Ao mais íntimo de mim.

Que saiba perdoar o vento
Que, de mansinho, me despenteia
Os sonhos...

Deep, Setembro de 2012






domingo, novembro 03, 2019

terça-feira, outubro 29, 2019

sábado, outubro 19, 2019

14 anos

Há 14 anos, nascia este blogue. É estranho como parece longínquo e, ao mesmo tempo, tão próximo esse início. Desde então, conheci muitas pessoas, algumas das quais fora do espaço virtual. Todas, de uma ou de outra forma, contribuíram para que me tornasse uma pessoa mais rica.
Nos últimos tempos, a prosa dos dias tem-me roubado a disposição e o tempo para pôr esta "casa" em ordem e para ler assiduamente os blogues que costumava frequentar. Ainda assim, não penso desistir. 
Obrigada a todos quantos têm contribuído para que ainda haja, por aqui, paredes e tecto!

Junto à água

Os homens temem as longas viagens
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.

Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às vontades da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz da infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos na moldura.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina, Um sítio onde pousar a cabeça

terça-feira, outubro 01, 2019