segunda-feira, junho 03, 2019

Não quero cantar amores

Não quero cantar amores,
Amores são passos perdidos,
São frios raios solares,
Verdes garras dos sentidos.
São cavalos corredores
Com asas de ferro e chumbo,
Caídos nas águas fundas,
não quero cantar amores.
Paraísos proibidos,
Contentamentos injustos,
Feliz adversidade,
Amores são passos perdidos.
São demências dos olhares,
Alegre festa de pranto,
São furor obediente,
São frios raios solares.
Da má sorte defendidos
Os homens de bom juízo
Têm nas mãos prodigiosas
Verdes garras dos sentidos.
Não quero cantar amores
Nem falar dos seus motivos.

Agustina Bessa-Luís


domingo, junho 02, 2019

O ramalhete rubro


Passamos pelas coisas sem as ver

Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos, 
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

Eugénio de Andrade

Ando preguiçosa (preguiça que redunda em má educação!) para responder aos comentários.
Como desculpa, deixo um poema e uma papoila que fotografei esta manhã.)

terça-feira, maio 21, 2019

Pé ante pé

Regresso, pé ante pé, um mês e alguns dias depois de ter passado a linha do meio século. Deste lado, nada de novo, só a rotina a devorar-me as horas, o ânimo e um resto de imaginação.

Do baú, resgato um tosco devaneio, que suponho ser de 2014:

Não sei de que água é feito esse mar
que atravessa os meus sentidos
E que não sabe a sal.
Não sei em que distância me perdi,
Por que sendas e escarpas
Deixei que o corpo se embrenhasse
E perdesse a noção das horas.
É este o meu ofício: nada saber.

quinta-feira, março 28, 2019

Beber horas roubadas

Chama-se amor a isto:
beber horas roubadas,
no receio constante
de que alguém as descubra
(assim se tem cadastro!);
morder com pressa
a polpa dos minutos,
sem lhes sorver o sumo,
sem lhes tirar a casca
(assim se apanham úlceras!);
ter este modo brusco
de engolir os segundos,
como se fossem cápsulas
de qualquer barbitúrico
(assim se morre às vezes!)
O culpado: este cão
que trazemos bem preso,
todo agarrado ao pulso,
e a que chamamos Tempo.
(sempre a ganir de susto.)

David Mourão-Ferreira

segunda-feira, março 25, 2019

sábado, março 23, 2019

Não te analises

Não te analises.
Não procures no perfume das flores
a tempestades das raízes.
Nem queiras
desatar o fumo
do carvão das fogueiras.
Ama
com ossos de cinza
e cabelos de chama.
E deixa-te viver
Em rio a correr…

J. Gomes Ferreira, Poeta Militante

Ernest


Caricatura de Ernest Hemingway (numa alusão à obra O Velho e o Mar), da autoria de Dalcio Machado, para o PortoCartoon 2015

Em exposição no Museu Nacional da Imprensa, no Porto

terça-feira, março 19, 2019

domingo, março 10, 2019

Tradições, família, amigos, o planalto e o rio




Caminhada com passagem por uma aldeia abandonada. Na última imagem, as ruínas de um moinho.



Passagem por Podence, terras dos enigmáticos e carismáticos caretos.





Portas de Picote e o Douro visto do miradouro Fraga do Puio



 Miranda do Douro


Mogadouro - a árvore em frente ao que resta do castelo



sábado, março 09, 2019

Notícias do planalto

Aqui.

Aqui, o homem

Nem Baco nem meio Baco!:

Aqui é o homem,
desde as mãos ossudas e calosas,
desde o suor
ao sonho que transpõe as nebulosas.
Montes de pedra dura,
gólgotas
onde os geios são escadas!
Venham ver como sobe o desespero
e a esperança, de mãos dadas.

É o homem.
Isso é o homem.
– Nem sátiro nem fauno –
Uma vontade erguida em rubro gládio
que ganha a terra, palmo a palmo.

Vinhas que são o inferno,
o único
em que o fogo é a taça da alegria!
Venham ver um senhor
grandioso como o sol ao meio-dia.

Nem Baco nem meio Baco!:
Aqui é o homem
que nada há que não suporte
mas suporta e persiste.
Aqui é o homem até à morte.

António Cabral, Poemas Durienses

sábado, fevereiro 23, 2019

Yo, señor, no soy malo

«Yo, señor, no soy malo, aunque no me faltarían motivos para serlo.» - assim começa a autobiografia fictícia de Pascual Duarte, figura central da novela de Camilo José Cela, A Família de Pascual Duarte, publicada pela primeira vez em 1942.
                Com o intuito de conferir verosimilhança ao relato de Pascual Duarte, o autor apresenta-o como um manuscrito que o protagonista teria escrito enquanto esteve preso em Badajoz e que teria enviado, em 1937, a um conhecido seu, para que fosse publicado, tornando, assim, públicos os motivos dos vários crimes que cometera. Cela, em notas anteriores e posteriores ao discurso do protagonista, faz-nos acreditar que o manuscrito teria sido encontrado no balcão de uma farmácia na localidade de Almendralejo, pelo próprio transcritor. Entre essas notas, encontra-se a carta em que o prisioneiro recomendava a publicação do seu manuscrito.
                Pascual Duarte, habitante numa pequena aldeia do interior de Espanha, dá-nos conta, no seu relato, de que a vida lhe trouxe mais dissabores do que alegrias. Testemunha de um mundo em que prevalece o trágico, torna-se numa pessoa amarga e intempestiva, na vítima de um destino inexorável, que o conduz à perdição. É, aliás, ao destino que ele atribui a responsabilidade pela sequência de assassinatos que comete, que tem início com a morte da cadela, a Chispa, e que termina com a morte da própria mãe.
                Pela violência das descrições e pela crueza de linguagem que perpassam nas suas páginas, a primeira obra de Cela viu-se, em pleno franquismo, entre os livros proibidos e rotulada como precursora de um estilo literário que, em Espanha, ficou conhecido como “Tremendismo”.
                Camilo José Cela, que nasceu em Iria Flávia (Corunha), em 1916, e faleceu em Madrid, em 2002, foi galardoado, em Espanha, com o Prémio Nacional de Literatura e com o Prémio Príncipe das Astúrias. Em 1989, a academia sueca atribuiu-lhe o Prémio Nobel, pelo conjunto da sua obra.

                Da sua vasta obra, destacam-se, além de A Família de Pascual Duarte, A Colmeia (1951), São Camilo (1969) e Mazurca para Dois Mortos (1983).

[Texto escrito para a rubrica "Os livros que nos devoram" (título inspirado em Os livros que devoraram o meu pai, do Afonso Cruz), do Pomar de Letras]

domingo, fevereiro 17, 2019

Vá, diz

Vá, diz que nunca pisaste uma formiga
sem logo sentir o luto dos remorsos subterrâneos
das cidades em crepes.

Diz que só foste infame em becos pessoais
e nunca manchaste os dedos
na recusa de desfraldar bandeiras.

Vá, convence as pedras, os bichos e as cores
de que sempre emprestaste os olhos
ao incêndio do nascer do dia
-meu triste herói-de-merda mentiroso,
tão feliz de trazer no coração a dor do mundo
(do tamanho do peso de uma flor)


José Gomes Ferreira

Metáforas


Erika Khun

sexta-feira, fevereiro 15, 2019

Sobre amizade e afectos

Ontem, não foi só um dia para os namorados. Também foi o dia, como devem sê-lo todos, de celebrar os amigos e os afetos.

Para todos quantos são amigos, virtuais ou reais, um "devaneio" sobre o valor da amizade, aqui em repetição.



Os amigos estendem a toalha
sobre a mesa e, sobre esta,
pousam, no lugar dos copos,
no lugar do pão e do vinho, o coração.
Para que te sirvas de afectos.

São ancoradouro para barcos cansados,
os amigos.
Depósitos de mágoas  - os amigos.
São eternos adolescentes rebeldes – os amigos -,
que ouvem, nostálgicos, os álbuns dos Pink Floyd
e cantam repetidamente Wish you were here,


esquecidos da passagem do tempo e das modas.

deep, Julho de 2017

segunda-feira, fevereiro 11, 2019

Mulheres

Fica a dica.