segunda-feira, fevereiro 29, 2016

Parabéns, miúda!


Hoje é o aniversário da minha mana. Se considerarmos os dias em que pôde efectivamente festejar, só completa 11 anos, ainda que tenha nascido há mais de 40 anos. Talvez seja por isso que os seus desenhos, de onde emana uma certa inocência, nos transportam para o mundo onírico da infância.


Em 2011, escrevi, para lhe oferecer, um tosco "devaneio", que agora resgato do baú:



Nesse mar de hortênsias e de agapantos,
em que fitas a rubra linha do horizonte,
ecoa um mar de terra, bordado de
urzes, giestas e saudades.

Nas duras noite de basalto,
traças, com dedos que são de xisto
e são de lava,
outros reinos maravilhosos
onde a limpidez do azul
assoma e a inocência se reflecte.

Fevereiro de 2011


domingo, fevereiro 28, 2016

We're just two lost souls





Perdi a conta às vezes que publiquei esta música, mais ainda às vezes que a ouvi. Oiço-a de novo e, de novo, me assaltam boas e más recordações. Oiço-a e um misto de saudade e de tristeza deixa-me um nó na garganta. Tenho saudade de uma noite em que eu e a minha companheira e cúmplice de muitas horas a ouvimos repetidamente até conseguirmos registar a letra. Estávamos de férias numa pequena aldeia a poucos quilómetros do mar. Era Setembro. (Naquele tempo o ano lectivo só começava em Outubro.) 
Oiço-a e não consigo deixar de me lembrar de também de ti e de ficar triste por perceber que estão agora mais longe os teus dedos do meu cabelo. 


How I wish, how I wish you were here. 
We're just two lost souls swimming in a fish bowl, year after year, 
Running over the same old ground. 
What have we found? 
The same old fears. 
Wish you were here.

Quando a ti, meu amor

Vi, na lateral, o título de um post do Francisco José Viegas, "Vem à Quinta-Feira" (que é, afinal, o título do último livro da Filipa Leal) e, inevitavelmente, vieram-me à cabeça as palavras de Mário de Sá-Carneiro, que são recorrentes em mim, aliás como outros versos de "Caranguejola":

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora, no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras:
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

O resto do texto aqui.

A good man is hard to find

Neste “closing time”, amiga,
larga os teus “old shoes”,
deixa o “wrong side of the road”…

Talvez, “somewhere”,
encontres o teu “blue valentine”
ou um “bleeding” “Romeo”
e faz “a little trip to heaven
on the wings of your love”.

Se o encontrares,
não deixes de lhe cantar,
sob a luz de uma “grape moon”,
uma “midnight lullaby”,

pois “ a good man is hard to find”.

deep, Junho de 2013


Há quase três anos, no dia de aniversário de uma amiga, resolvi brincar com palavras das canções do Tom Waits e saiu este tosco devaneio, que veio hoje parar-me aos olhos, quando procurava outros documentos nos arquivos. 


sábado, fevereiro 27, 2016

Quero dizer-te uma coisa simples


(David Cunningham, "Downtown")

Quero dizer-te uma coisa simples: a tua
ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não
magoa, que se limita à alma; mas que não deixa,
por isso, de deixar alguns sinais - um peso
nos olhos, no lugar da tua imagem, e
um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes
tivessem roubado o tacto. São estas as formas
do amor, podia dizer-te; e acrescentar que
as coisas simples também podem ser complicadas,
Quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade.
Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a
realidade aproxima-me de ti, agora que
os dias correm mais depressa, e as palavras
ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de
mim - e me faz responder-te uma coisa simples,
Como dizer que a tua ausência me dói.

Nuno Júdice, Pedro Lembrando Inês

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera
Ruy Belo, Aquele Grande Rio Eufrates

O poeta nasceu num dia 27 de Fevereiro (1933).

quinta-feira, fevereiro 25, 2016

Na falta de marcadores


Isabel, imagino que não tenhas problemas em marcar livros. Deixo-te, ainda assim, algumas ideias.  :D

quarta-feira, fevereiro 24, 2016

When the lights go out


David Cunningham

Aroma de café


Há um esquisso de intimidade
nesse aroma de café
que inaugura a manhã e que,
a conta-gotas,
se imiscui no cheiro
permanente dos livros.

[...]

deep, Abril de 2013

E por vezes



E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos  E por vezes
encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes
ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites   não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos
E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos
David Mourão-Ferreira (que nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1927)