terça-feira, fevereiro 09, 2016

Anoiteceu mais cedo

Anoiteceu mais cedo. À porta fechada,
preparo um roteiro de viagens.
Sublinho rotas e derrotas.
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos
e gravo na mão esquerda um astrolábio. 
Tenho uma ilha adiada no peito.
É a época das marés vivas. Pressinto-o,
pela intensa ondulação do meu cabelo,
antecipando a tormenta.
Graça Pires (o blog da autora aqui)


segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Apontamentos







Olê, olá




Obrigada, ana. :)


É o segundo dia seguido que oiço Chico.

Devaneios


Sabes, estou cansada dos dias cinzentos. Cansada de rotinas e de prioridades que me sugam toda a energia e que, na verdade, não conduzem a lado algum. (De súbito, ocorre-me "Road to nowwhere" dos Talking Heads e o tempo em que o vídeo passava repetidamente na televisão. Lembro-me também de um conto de Sophia, que termina com uma personagem a chegar a uma estrada que não conduz a lado algum.) Sugam-me a energia, a criatividade, a disponibilidade para os outros.
O frio teima em ficar, em povoar as minhas horas. Não há aquecimento que consiga fazer milagres.
Talvez um abraço. Talvez a ternura. Talvez os teus olhos pousados nos meus conseguissem trazer-me um pouco de sol.
Talvez...

Café


Quem foi o arquitecto
que fez este café
tão longe da natureza
e tantos homens de pé?

Criado: põe esta gente na rua!
E abre um buraco no tecto
que eu quero ver a lua.

Do José Gomes Ferreira, que partiu num dia 8 de Fevereiro (1985)

domingo, fevereiro 07, 2016

Entrudar



Hoje à tarde, ainda que o frio não convidasse a passeios, dei um saltinho a Podence, Macedo de Cavaleiros, para participar, como espectadora, no Entrudo Chocalheiro. Apesar de ter a máquina fotográfica na mão, não me livrei de ser chocalhada por um dos caretos.

Pergunta-me

Pergunta-me 
se ainda és o meu fogo 
se acendes ainda 
o minuto de cinza 
se despertas 
a ave magoada 
que se queda 
na árvore do meu sangue 

Pergunta-me 
se o vento não traz nada 
se o vento tudo arrasta 
se na quietude do lago 
repousaram a fúria 
e o tropel de mil cavalos 

Pergunta-me 
se te voltei a encontrar 
de todas as vezes que me detive 
junto das pontes enevoadas 
e se eras tu 
quem eu via 
na infinita dispersão do meu ser 
se eras tu 
que reunias pedaços do meu poema 
reconstruindo 
a folha rasgada 
na minha mão descrente 

Qualquer coisa 
pergunta-me qualquer coisa 
uma tolice 
um mistério indecifrável
simplesmente 
para que eu saiba 
que queres ainda saber 
para que mesmo sem te responder 
saibas o que te quero dizer 

Mia Couto, Raiz de Orvalho e Outros Poemas

sábado, fevereiro 06, 2016

Recíproco


(Da revista Obvious)

Ora aqui está um bom motivo para lermos mais e para não faltarmos às aulas de Português...

Um bom fim-de-semana para quem passa. 



quarta-feira, fevereiro 03, 2016

segunda-feira, fevereiro 01, 2016

Cruel es la noche


Erica Hopper, Hours Embrace


Espera

Cruel es la noche y dura cuando aguardo tu vuelta
al acecho de un paso, del ruido de la puerta
que se abre, de la llave que agitas en la mano
cuando espero que llegues y que tardas tanto.
Crueles son en las calles los rumores de coches
que me dan sueño cuando estoy junto a tus ojos.
Cruel es la lluvia suave, furiosa que fascina
las enormes tormentas, las nubes con sus islas
cuando espero que llegues y que el reloj enclava
sus manecillas de oro en el corazón ávido.
Cruel es que todo sea precioso hasta el retorno
de la espera, y el lento padecer del amor.
Cruel es rezar sin tregua la promesa olvidada
de volver a ser buena, de sentir que redime
estar bien preparada sólo para la dicha.
Cruel es la luz, perfecta, de la luna y del alba
el alma de las horas sobre el campo y el mar
y crueles son los libros, la voluptuosa música,
hasta la anomalía de las caras etruscas.
Y es cruel aún después tener que ser humana
no convertirme, al verte, en perro, de alegría.

Silvina Ocampo


Trazido daqui.