terça-feira, janeiro 12, 2016

Palavras que gostaríamos de ter escrito

E existes tu

Há talvez um verso que não volte a encontrar, há talvez uma palavra que não volte a dizer, há talvez uma cor que não veja jamais, há talvez uma árvore em que não toque de novo. E existes tu, que sem encontrar, encontro, sem dizer, digo, sem ver, vejo, sem tocar, toco. A cada dia, a cada hora, a tua ausência se adentra mais em mim. Um dia, ela será eu. E eu, ser-te-ei.

Texto surripiado daqui. (Espero que o autor me perdoe o "roubo".)

Analfabeto

Conheço um homem
que lê todas as inscrições em pedras antigas
e que sabe
as gramáticas de todas as línguas, mortas ou vivas,
mas que não consegue ler
os olhos de uma mulher
que ele pensa que ama

Shadab Vajdi (poeta iraniano)

A tristeza


Hogret, "Rest and replenishment"

A tristeza varria-lhe o corpo de uma ponta a outra. Deitou-se no sofá e tapou-se com uma manta grossa. Antes de se deixar dormir lembrou-se de que a felicidade é como a Primavera, mesmo depois de um Inverno agreste, acaba sempre por chegar.

Micro contos

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Ragazzo Solo, Ragazza Sola

Planet Earth is blue...

Esta foi a primeira notícia que li hoje: David Bowie partiu aos 69.  Confesso: fiquei triste, verdadeiramente triste. Como, há seis anos, com a notícia da morte de Lhasa ou, há cinco, com a do Bernardo Sassetti.


Rip, Mr. Bowie. O planeta continua azul...

domingo, janeiro 10, 2016

sábado, janeiro 09, 2016

Chuva





«hoy llueve mucho, mucho,
y pareciera que están lavando el mundo»

Juan Gelmán, "Lluvia"

Cidades cúmplices


(Imagem daqui)

As cidades são a minha fuga, o meu refúgio,
o meu lugar de não ter nome, de não ter casa.
Fujo para as cidades para me perder de mim,
para só me encontrar nos livros que trago
dos esconderijos mais secretos das cidades.
As cidades são as minhas cúmplices. Elas sabem-no.
Tal como acontece com os livros,
sei que nem dez vidas me chegariam para as ler,
para as aprender, para me apaixonar por elas.
São amores fugazes, apressados, indolores.
Não deixam cicatrizes nem remorsos. Apagam-se devagar,
como os círculos ou as estrelas desenhadas a giz
no quadro mais negro do negrume da tristeza.
As cidades são o cálice minguado
em que entorno a luz em vez de vinho,
em que derramo a espuma em vez do néctar.
Retrato-as, retrato-me nelas vorazmente,
sempre a cores, junto das fontes, à porta das catedrais,
sobre as pontes, encostado às estátuas
que dão sombra à sonolência alada dos pombos doentes.
Eu nunca trago as cidades comigo.
Deixo nelas, como penhor da alma, o fio de uma saudade
que o tempo se encarrega de cortar

no ponto em que a ausência sabe a mágoa.

José Jorge Letria, Produto Interno Lírico

quarta-feira, janeiro 06, 2016

terça-feira, janeiro 05, 2016

Desonestidade


Uma das piores atitudes que alguém pode ter numa relação, seja de amizade, de amor ou de trabalho, é a desonestidade. Sobretudo quando uma das partes se esforça por agir de forma transparente e dá à outra parte a oportunidade de agir da mesma forma. 
A desonestidade nas relações nasce, em certa medida, do egoísmo. «Sou desonesto, porque é confortável para mim» é um dos princípios de quem pensa apenas em si. Quem assim se comporta não desenvolve empatia em relação às pessoas com quem se relaciona, não consegue colocar-se no lugar do outro e imaginar que os seus comportamentos podem magoar. Além disso, não raras vezes, menospreza a inteligência alheia, insistindo em jogos de palavras com o propósito de iludir ou seduzir, valendo-se inicialmente, da boa fé da sua "presa" e, depois, da incapacidade desta para dizer «não» ou do medo de magoar quem, na verdade, já não merece qualquer tipo de consideração.
Pelo que tenho observado, pessoas com estas características importam-se pouco com o facto de magoarem e de perderem quem os considera ou ama. Dói-lhes mais perder o domínio que têm ou julgam ter sobre os outros.