quinta-feira, dezembro 10, 2015

Resposta às tuas e às minhas perguntas

A propósito da "Desiderata", a Raquel partilhou comigo o link para este texto tão bonito, que a própria escreveu.

Sê nómada.
Não tenhas medo de leões nem de professores de matemática.
Todos os dias come um pouco de sol e um pouco de verde.
Planta várias árvores.
Sobe às árvores mas não apoquentes os pássaros nos ninhos.
Deixa o sol entrar mesmo se tiveres de fechar os olhos.
Preserva a transparência e o silêncio.
Usa barbatanas porque debaixo de água podes voar.
Lê muitos livros e joga ping-pong.
Lê a Mafalda do Quino e o Corto do Pratt.
Embarca em todas as viagens dentro e fora do teu corpo.
Atenta nas cores do Outono. Novembro também é um mês bom.
Procura todos os dias uma pequena alegria e se não encontrares nenhuma dança.
Chora sem medo e em casos de incêndio.
Bebe chá sempre com companhia, pelo menos de um gato.
Se tiveres tempo tem um cão.
Podes comer chocolate todos os dias se tiver no mínimo 80% de cacau.
Aprende a gostar do vento, de favas e de ópera. São muitas as coisas de que não se gosta à primeira e há músicas antigas de que vais gostar muito mais.
Separam-nos quase quatro décadas e, quando tiveres a minha idade, se eu ainda existir, não te esqueças de me contar o que sentes dentro do corpo, à flor da pele e debaixo dos pés, sempre que ouves os Verdes Anos na guitarra do Carlos Paredes.
Não abuses de ti nem de ninguém.
Descobre o significado íntimo das palavras.
Tenta aprender todas as línguas do mundo.
Sê estrangeiro de ti.
Sê tenaz no amor mas não insistas no amor nos corações errados.
Sê o que quiseres, com a condição de seres feliz.
Por definição desliga a televisão.
Tem noção que não precisas de matar para viver, basta plantar e semear, todavia treina e mantém afinada a pontaria.
Respeita a lentidão das lesmas.
Experimenta pintar, e se como eu fores mesmo mau mas te der prazer, pinta e está-te nas tintas para os outros e para o resultado.
Como regra: não percas tempo, anda depressa mas respira devagar.
Percebe, a cada segundo, a velocidade a que bate o teu coração.
Guarda que a única coisa que é para sempre é morrer.
Urgente é apenas a alegria, o amor e a ferida.
Diz que não gostas quando não gostas.
Nunca te esqueças da delicadeza e que uma pedra é uma pedra é uma pedra.
Olha que a esperança nem sempre é uma menina de confiança e desistir pode ser uma grande vitória.
Evita viver a crédito, não te permitas ser refém de meros objectos e grava, escreve na mão para lembrar, tatua se necessário, que não há coisa de maior preço do que o teu tempo.
Procura a companhia dos teus poetas preferidos.
Faz amigos sob a condição do encanto e da ternura.
Não acredites em muitas coisas inexplicáveis.
Desculpa as asneiras dos teus pais, tu sabes mais.
E espero, eu sentada à tua espera, que nunca falte aos dias dos meus olhos o barulho do teu sorriso.

Raquel Serejo Martins

Da elegância

«O caso, segundo se relata, foi, por exemplo, assim: uma velha, de madrugada, viu sair uma víbora de debaixo de uma pedra: a víbora desatou a correr para baixo, como podia ter desatado a correr para cima; mas o que viu o correeiro da Rua de São Roque já não foi uma víbora, mas sim uma cobra de razoável tamanho, que também desatou a correr para cima ou para baixo, a direcção não consta. A beata que saía de São Ginés, de ouvir a missa da alba, viu um verdadeiro cobrão que, esse sim, ia a caminho do Paço, mais coisa menos coisa; e, finalmente, alguém da Guarda Valona que ia para o serviço ou vinha dele, o que pôde contemplar, atónito ou esbugalhado, foi uma gigantesca boa que rodeava o Paço (...) e parecia apertar o edifício com ganas de o derrubar, ou pelo menos de o espremer, o que parecia mais verosímil, pelo menos do ponto de vista da semântica.»

Gonzalo Torrente Ballester, Crónica do Rei Pasmado

«A literatura encontra sempre forma de retratar a realidade», penso, ao lembrar-me de um pequeno incidente desta manhã, que me provou, mais uma vez, que a conta bancária, a elegância de fato e a formação académica nada dizem sobre a elegância no trato e o carácter das pessoas. Mas isso fica para depois, que agora o dever chama-me.

Desiderata


(Imagem de Nirav Patel)

Vai serenamente por entre a agitação e a pressa e lembra-te da paz que pode haver no silêncio. Sem seres subserviente, mantém-te tanto quanto possível, em boas relações com todos.
Diz a tua verdade calma e claramente e escuta com atenção os outros mesmo que menos dotados e ignorantes; também eles têm a sua história.
Evita as pessoas barulhentas e agressivas; são mortificações para o espírito.
Se te comparas com os outros, podes tornar-te presunçoso ou melancólico, porque haverá sempre pessoas superiores e inferiores a ti.
 Apraz-te com as tuas realizações tanto como com os teus planos.
Põe todo o interesse na tua carreira ainda que ela seja humilde; é um bem real nos destinos mutáveis do tempo.
Usa de prudência nos teus negócios porque o mundo está cheio de astúcia; mas que isto não te cegue a ponto de não veres virtude onde ela existe; muitas pessoas lutam por altos ideais e em todo o lado a vida está cheia de heroísmo.
Sê fiel a ti mesmo. Sobretudo não simules afeição nem sejas cínico em relação ao amor porque, em face da aridez e do desencanto, ele é perene como a relva.
Toma amavelmente o conselho dos mais idosos, renunciando com graciosidade às ideias da juventude.
Educa a fortaleza de espírito para que te salvaguarde numa inesperada desdita. Mas não te atormentes com fantasias. Muitos receios surgem da fadiga e da solidão.
Para além de uma disciplina salutar, sê gentil contigo mesmo.
Tu és filho do universo e, tal como as árvores e as estrelas, tens direito de o habitar. E quer isto seja ou não claro para ti, sem dúvida que o universo é – te disto revelador.
Portanto vive em paz com Deus seja qual for a ideia que d´Ele tiveres. E quaisquer que sejam as tuas lutas e aspirações, na ruidosa confusão da vida, conserva-te em paz com a tua alma.
Com toda a sua falsidade, escravidão e sonhos desfeitos o mundo é ainda maravilhoso.
Sê cauteloso. Luta para seres feliz.


Max Ehrmann, com tradução de M. L. Peixoto

Recebi, há dias, de um amigo, este poema que, segundo algumas pessoas, é de um anónimo.

Compensações

Apeteceu-me qualquer coisa doce, com sabor forte. «As compensações.», pensei, a caminho de casa. «Porquê sempre esta necessidade de compensar o esforço intelectual e emocional, sobretudo emocional?».
Pus mãos à obra, sujei loiça, desarrumei a cozinha. Reduzi a receita a um quarto. 
Finda a tarefa, subi as escadas e ofereci uma das duas taças à vizinha de cima. Para dividir o sentimento de culpa, talvez.
Enquanto, depois de jantar, saboreava, com algum peso de consciência, o gosto forte e a textura macia do chocolate, lembrei-me que

(Imagem da net)

poderia ter feito receita para a terceira taça, que seria para ti. 

quarta-feira, dezembro 09, 2015

Procuro-te

Procuro-te
Nos rascunhos das manhãs
Nos fios caídos  das tardes
Nas lajes frias das noites

Procuro-te
Em todos os rebordos das horas
Vivas
Suspensas
Derramadas na tristeza do silêncio

Procuro-te
Entre os papéis amarrotados
Nas folhas por escrever
Na tela de beijos
Na imensidão do teu mar

Encontra-me
No grito das minhas mãos
No arrepio da pele
Na imensidão do meu mar



Um bonito poema nascido na "praia" da Isabel Pires.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Seafire and it's waltz



Música da transmontana Emmy Curl.

Todos nós seremos passado

Todos nós seremos passado,
Um dia.
E seremos recordados
Entre sorrisos,
Dos amigos,
Que repetirão a nossa última anedota
Ou lembrarão a última vez que os fizemos rir.
Todos nós seremos passado,
Um dia.
E as coisas boas prevalecerão
Sobre todas as más
Que também fizemos
De propósito ou não!
Todos nós seremos passado,
Um dia.
E até os inimigos
Sorrirão
Quando recordarem
A ultima sacanagem que lhes fizemos
E alguns até dirão
Era um gajo porreiro…
Aquele cabrão!
Da autoria do João, um amigo que publica no Facebook e em O Blogue que ninguém lê!. Não resisti a desviá-lo. 

domingo, dezembro 06, 2015

O amor não é tudo

O amor não é tudo: nem carne nem
bebida, nem é sono, lar da gente,
nem a tábua lançada para quem
se afunda e volta e afunda novamente.

O amor não pode encher o pulmão forte,
pôr osso no lugar, tratar humores,
embora tantos dêem a mão à morte
(enquanto o digo) só por desamores.

Bem pode ser, na hora mais doída,
ou da minha franqueza arrependida,
buscando alívio à dor, seja capaz

de vender teu amor por minha paz
ou trocar-te a lembrança pelo pão.
Bem pode ser que o faça. Acho que não.

Edna St. Vincent Millay

Será que não é? O que faríamos e o que seríamos se nos faltasse o amor das pessoas que amamos, o amor pela vida, por aquilo que é belo, pela música, ...?

É certo que talvez não devamos esperar que o amor que vivemos numa relação a dois possa ser a cura para todos os males, mas que essa forma de amor adoça a nossa existência não poderemos negá-lo.

sábado, dezembro 05, 2015

terça-feira, dezembro 01, 2015

Apontamentos do dia

1. Ouço o despertador, mas, como é hábito, desligo-o e fico a fazer ronha. Quando chego ao carro, este exibe uma espessa camada de gelo, que prevejo teimosa. O termómetro marca 5 graus negativos, a temperatura mais baixa deste Outono. Temo perder a camioneta. Apesar disso, consigo estacionar o carro antes da camioneta parar. Quando penso que tudo afinal acabou por bater certo, o comando solta-se da minha mão e desliza para debaixo do carro ( a pressa é amiga do azar!). Felizmente fica a uma distância que me permite recuperá-lo, atravessar a estrada e comprar o bilhete a tempo.

2. No momento em que o motorista se prepara para arrancar, alguém começa a bater desesperada e insistentemente na chapa do veículo. Ocorre-me que seja do lado de fora. Só quando o motorista, em tom de recriminação, diz «Ó homem, então você mete-se lá dentro?», percebo que o seu interlocutor ficara fechado no porta-bagagens. O senhor entra pelo corredor, ainda visivelmente em pânico com a possibilidade de morrer asfixiado e percebe entretanto que entrara na camioneta errada.

3. Entro na carruagem atrás de um grupo de jovens que suponho universitários, pela idade e pelo local onde nos encontramos. Recordo que, há muitos anos, também eu pertenci ao clã, mas sem Metro que nos facilitasse as viagens e sem tecnologias que impedisse a comunicação.

4. Saio da estação de Metro, desço a avenida, dobro a esquina e a escassos metros do Rivoli, cruzo-me com dois jovens na casa dos trinta. Aquele que vem do meu lado, olha-me nos olhos, não porque lhe desperte interesse, suspeito, mas porque quer talvez confirmar que eu o reconheço. E reconheço, não de imediato, mas segundos depois e lembro-me que, além de ser actor e de ter um sotaque à Porto que o denuncia, costuma apresentar programas de literatura na RTP 2.

5. No regresso a casa, recebo telefonemas de alguns amigos. Querem saber se estou bem. «Sim.», sossego-os e agradeço intimamente o serem como são.