segunda-feira, novembro 30, 2015

Conto até cem

Conto até cem e, se não chegares antes dos cem, vou-me embora. Não chegaste antes dos cem. Conto de cem a um e, se não chegares antes do um, vou-me embora. Não chegaste antes do um. Conto dez automóveis pretos e, se não chegares antes dos dez automóveis pretos, vou-me embora. Não chegaste antes dos dez automóveis pretos. Nem antes dos quinze taxis vazios. Nem antes dos sete homens carecas. Nem antes das nove mulheres loiras. Nem antes das quatro ambulâncias. Nem sequer antes dos três corcundas e, entretanto, começou a chover.

António Lobo Antunes

Surripiado daqui

(Penso que já o publiquei antes.)

domingo, novembro 29, 2015

Regresso ao passado

Nessa luz de sol morno


Edward Hopper, "Coffee"
Há um esquisso de intimidade
nesse aroma de café
que inaugura a manhã e que,
a conta-gotas,
se imiscui no cheiro
permanente dos livros.

Há um secreto aconchego
nessa luz de sol morno
que entra pela janela,
nesse silêncio cortado, a espaços,
pelas vozes abafadas dos vizinhos.

[...]

O que falta do texto está aqui.

sábado, novembro 28, 2015

Roads

Sei a verdade e sou feliz


Só o ruído contínuo do motor da máquina e o cheiro de gasolina perturbam a minha paz. Até os três homens, de gerações diferentes, que executam as suas tarefas com firmeza, trabalham quase sempre em silêncio. Enquanto seguro uma das pontas da lona que recolhe os frutos que se soltam das árvores, usufruo dos raios de sol que, apesar de ser Novembro, são cálidos, e de uma leve brisa que entretanto se levantou. Como Caeiro, «fecho os olhos quentes, /[...] /Sei a verdade e sou feliz».
Reabro os olhos e contemplo a paisagem em volta - as aldeias próximas, as serras, a vila cujo casario se desenha apenas numa linha, terras de Espanha - e é de novo ao mestre [Caeiro] que vou roubar as palavras: «Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo... /Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer, /Porque eu sou do tamanho do que vejo /E não do tamanho da minha altura...». E o que sinto é mais do que alegria, é uma espécie de êxtase.
Reabro 
Quando 

A luz e os frutos


Na Lua


nada de novo, como pude constatar há minutos...

quinta-feira, novembro 26, 2015

Don't fade away



«Say what you mean
Mean what you say»

quarta-feira, novembro 25, 2015

Qué suerte tengo


Erica Hopper, "Blancas bench"

Está en el sofá, recogida,
hecha un ovillo. Habla
con su madre por teléfono.
Se ríe. Luego arruga un poco
el ceño. Esas cosas.
Yo, simplemente, la miro,
tiene luz, alma, vida,
me gusta verla, escuchar
su voz. A veces no
puedo evitar decírmelo:
"Qué suerte tienes, cabrón".

Karmelo C. Iribarren, Las luces interiores

Muitas vezes, não temos mesmo noção da sorte que temos... outras, lamentamos não ser a sorte de alguém e que não nos olhem assim, com deslumbramento e ternura, sobretudo com ternura...

terça-feira, novembro 24, 2015

Memórias de outros tempos


A minha mãe costuma contar que, na sua infância, as crianças pobres, que na aldeia eram quase todas, andavam descalças, quando estava bom tempo, ou de socas, nos dias frios, e que costumavam, à vez, levar brasas num balde de lata (ou num pequeno caldeiro), para aquecer a escola.
Foi inspirada nesses relatos que a minha irmã fez o desenho que surripiei do caderno dela.