sábado, outubro 31, 2015

A luz afrouxa com a passagem das horas

(...)

Mas vê como, subitamente,
a luz afrouxa com a passagem
das horas.

Repara como a margem
se fez lamacenta,
como é maior agora
a distância entre os meus dedos
e o teu cabelo.

Em breve, nada sobrará
que possa ser, entre nós,
dádiva...

(O texto em falta aqui)

sexta-feira, outubro 30, 2015

Poucas vezes nos ocorre

Poucas vezes nos ocorre que um amigo possa ficar doente. Quando pensamos num amigo, associamo-lo, por norma, a lugares de convívio, a espaços íntimos de partilha, a tardes lentas numa esplanada, num café, na nossa sala, ainda que as conversas nem sempre sejam sobre temas agradáveis e que nem sempre estejamos felizes. 
Não é suposto imaginá-lo numa enfermaria, numa cama de hospital, ligado a uma máquina. Sobretudo se, ao longo da nossa vida, vivenciámos poucas situações de doença em pessoas jovens ou se as pessoas que nos surgem subitamente frágeis, indefesas, se revelaram saudáveis no decurso de muitos anos de convívio.
É certo que este amigo sobre quem escrevo já passou a barreira dos 50, mas eu esqueço-me que algumas pessoas envelhecem. Aliás, esqueço-me frequentemente que eu própria envelheço e que, daqui a poucos anos, também terei atingido a barreira dos 50. Será que algum dia conseguiremos ver-nos com a idade que realmente temos? 
Ocorre-me que, não raras vezes, o meu pai, quando se refere a um colega de escola ou de trabalho dos seus tempos de juventude, costuma usar a expressão «um rapaz do meu tempo».

É meio caminho andado


segunda-feira, outubro 26, 2015

sábado, outubro 24, 2015

sexta-feira, outubro 23, 2015

Por equívoco

Sim, tens razão: não precisamos de ter alguém para sermos felizes. Não precisamos do peso da rotina, do espaço disputado, da erosão das relações, da falta de palavras ao pequeno almoço. Há outras formas de sermos menos infelizes. Sobretudo se a pessoa que julgamos estar connosco adoptou como eterna e pacífica companhia um sofá, que não protesta, não amua, não fica deprimido e ao qual dedica apenas um tempo egoísta - o seu. Além disso, como escreveu o Vasco Graça Moura «já ninguém morre de amor». Eu suspeito que nunca ninguém morreu de amor. Até Romeu e Julieta morreram por equívoco.

Porta



Belmonte, Agosto de 2015

quarta-feira, outubro 21, 2015

Modernices

- Sabes, tia, na escola já fizemos marmelada.
- Ai foi? Como é que fizestes?
- Cozemos os marmelos e passámos tudo com a «password».

terça-feira, outubro 20, 2015

Tango


Toni Demuro, "Argentina" (da série "Earth")

A propósito de tango, lembrei-me que, há uns anos, fui desafiada pela Hipatia a escrever um texto sobre o tema. Saiu um tosco devaneio, que transcrevo:

Dançar nunca fora o seu forte, embora a música marcasse presença assídua nos seus dias.Tango, então, nem pensar. Já de Tang não poderia dizer o mesmo, ainda que noutros tempos o houvesse apenas com sabor a laranja. Beber Tang é o gesto mais prosaico que se pode ter. Não é preciso sentir sede, nem ser Verão, nem ter visitas em casa. Basta uma dose de gulodice e ter um pacotinho na despensa. Depois, é só deitar o pó num jarro e juntar água – se esta é fresca ou natural, depende do gosto de cada um. Dizem que é melhor com água fresca.

Para se dançar tango também não é necessário ter-se nascido ou estado na Argentina, nem sequer calçar saltos altos ou vestir uma saia com uma racha até ao pescoço. Para se dançar tango, confidenciou-me um apreciador do Piazzola com quem entabulei conversa na sala de estar de um aeroporto, é imprescindível ter-se alma de poeta, uma boa dose de emoção, o mesmo de sensualidade, os gestos suaves de uma ave. A tudo, deve acrescentar-se um olhar de matadora. Cheguei a perguntar ao meu interlocutor se é de todo necessário ter um par, mas já ele respondia apressado à última chamada para o embarque.

segunda-feira, outubro 19, 2015

10 anos


Embora não esteja com disposição para festas, não posso deixar passar em branco a data. Hoje o "letras" completa dez anos. Em números, estes dez anos traduzem-se em 2300 publicações (se contar com esta), 7833 comentários e muitas visualizações. Mais importante do que os números são as imensas manifestações de carinho e as partilhas, que me têm incentivado a continuar. Resta-me, por isso, agradecer a todos quantos me visitam e visitaram. Muito obrigada!