sexta-feira, maio 10, 2013

As cadeiras

(Robert Doisneau)

À aula de
quarta-feira assistiram 13 alunos e
27 cadeiras. Em resumo: a sala cheia.
Quando a
lição terminou os 13 alunos partiram e
acto contínuo contei 20 casais de cadeiras.
Às aulas que tenho dado nunca faltam
as cadeiras
ficam a ouvir-me caladas
(as costas muito direitas).
É bom de ver que as cadeiras entendem
tudo à primeira
parecem bem mais maduras (mais
pés
assentes na terra).

José Luís Barreto Guimarães

Fechadura


Decepção à regra

Sentar-me e
ver os outros passar é o
meu exercício favorito. Entretém.
Não esgota.
É gratuito. Neste meu jogo-do-não
são os outros que passam
(é aos outros que reservo a tarefa
de passar). Lavo daí os pés.
Escrevo de dentro da vida.
Pode até parecer que assim não
chego a lugar algum mas também quem
é que quer ir
ao sítio dos outros?

João Luís Barreto Guimarães

quinta-feira, maio 09, 2013

All flowers in time...

... bend towards the sun...

quarta-feira, maio 08, 2013

As casas


As casas, à força de as habitarmos, 
ganham alma.
Com o tempo, nascem-lhes braços,
regaços espaçosos e corações enormes,
em que buscamos refúgio,
quando o exterior e, por vezes,
o nosso interior se revelam hostis.

Quando as deixamos,
alguma coisa do que fomos
fica com elas,
dos seus compartimentos vazios
desprende-se uma solidão quase humana.

Se cedermos à tentação de olhar para trás,
na despedida,
conseguimos intuir-lhes
uns olhos de cão triste e abandonado.


deep/ Janeiro de 2013

segunda-feira, maio 06, 2013

All of me




«Is there a cure for this pain
Maybe I should have something to eat
But food won't take this emptiness away»

domingo, maio 05, 2013

No dia da mãe


Arça, arçanha ou rosmaninho-maior (lavandula pedunculata)


Tremoção-bravo, tremoceiro-azul (lupinus angustifolius)


Tremoceiro-bravo (lupinus hispanicus)

Estas imagens resultaram do passeio da tarde de hoje.

Poema à mãe

No mais fundo de ti, 
eu sei que traí, mãe 

Tudo porque já não sou 
o retrato adormecido 
no fundo dos teus olhos. 

Tudo porque tu ignoras 
que há leitos onde o frio não se demora 
e noites rumorosas de águas matinais. 

Por isso, às vezes, as palavras que te digo 
são duras, mãe, 
e o nosso amor é infeliz. 

Tudo porque perdi as rosas brancas 
que apertava junto ao coração 
no retrato da moldura. 

Se soubesses como ainda amo as rosas, 
talvez não enchesses as horas de pesadelos. 

Mas tu esqueceste muita coisa; 
esqueceste que as minhas pernas cresceram, 
que todo o meu corpo cresceu, 
e até o meu coração 
ficou enorme, mãe! 

Olha — queres ouvir-me? — 
às vezes ainda sou o menino 
que adormeceu nos teus olhos; 

ainda aperto contra o coração 
rosas tão brancas 
como as que tens na moldura; 

ainda oiço a tua voz: 
          Era uma vez uma princesa 
          no meio de um laranjal...
 

Mas — tu sabes — a noite é enorme, 
e todo o meu corpo cresceu. 
Eu saí da moldura, 
dei às aves os meus olhos a beber, 

Não me esqueci de nada, mãe. 
Guardo a tua voz dentro de mim. 
E deixo-te as rosas. 

Boa noite. Eu vou com as aves. 

Eugénio de Andrade, Os Amantes Sem Dinheiro
Com votos de dia muito feliz para todas as mães!

sábado, maio 04, 2013

El centro del amor




El centro del amor
no siempre coincide
con el centro de la vida.
Ambos centros se buscan entonces
como dos animales atribulados.
Pero casi nunca se encuentran,
porque la clave de la coincidencia es otra:
nacer juntos.
Nacer juntos,
como debieran nacer y morir
todos los amantes.


Roberto Juarroz

quinta-feira, maio 02, 2013