terça-feira, abril 09, 2013

Tosco alinhavo


Talvez o mar,
o amor,
a brisa,
a morna areia
na tarde calma
nos sejam mágoa.

Talvez a noite,
a madrugada,
a rósea alva
fossem promessas,
lembranças vagas…

Talvez a vida
ou – talvez – nada!

Deep/ Abril de 2013

Saiu, em breves minutos, este tosco alinhavo do que poderia ser um poema, tivesse grandeza nas palavras, nas ideias e no estilo. Ainda assim, encontro-lhe algum ritmo e, como outros textos meus, vale pelo que vale...

A tua vida é uma história triste


A tua vida é uma história triste.
A minha é igual à tua.
Presas as mãos e preso o coração,
enchemos de sombra a mesma rua.

A nossa casa é onde a neve aquece.
A nossa festa, onde o luar acaba.
Cada verso em nós próprios apodrece,
cada jardim nos fecha a sua entrada.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos

segunda-feira, abril 08, 2013

Coisas simples


Talvez na Primavera passada, entre arrumações e uma visita ao meu pobre quintal, recolhi frascos vazios de perfume e flores simples - marianas, suponho. Por brincadeira, coloquei os solitários improvisados sobre uma estante que tenho no corredor. Pareceu-me que resultava, contra o fundo branco da parede, um "quadro", ainda que singelo, com o seu quê de beleza, por isso peguei na máquina e decidi fazer algumas fotos, que ficaram esquecidas até hoje.

domingo, abril 07, 2013

Há 120 anos


Almada Negreiros, "A sesta" (1939)

nasceu, em São Tomé e Príncipe, José Sobral de Almada Negreiros, que integrou, com Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro e outros, o grupo modernista do Orpheu.

Talvez

Devaneando... talvez. :)

É talvez colo,
porto de abrigo,
quem sabe, âncora,
mas nunca a onda
que desassossega.

É talvez o fogo morno
de uma lareira,
mas nunca a chama, 
a voz que anima.

Sabe-se afecto,
o braço de árvore
para o descanso
de cansados voos,
jamais raiz, flor ou fruto...

Julga-se orvalho,
brisa que afaga,
nunca vento forte
que despenteia
ou tudo arrasta.

Deep/ 07 de Abril de 2013


Retalhos de felicidade

Conhecemo-nos em 97. Fomos colegas de trabalho e de casa e, em pouco tempo, tornámo-nos amigas. Ela é extrovertida. Eu sou mais reservada. Partilhamos o gosto por algumas músicas e por alguns escritores. Durante uma meia dúzia de anos, conseguimos encontrar-nos uma média de três vezes por ano. À medida que o tempo foi passando, os encontros tornaram-se mais espaçados. Encontrámo-nos hoje, depois de um ano sem nos vermos. Passámos a tarde juntas. Conversámos como se nos tivéssemos visto ontem. Com o mesmo à vontade e com o mesmo prazer. Connosco, as palavras são como as cerejas - é só começar! 

sexta-feira, abril 05, 2013

Train song



Hoje, sem que eu tivesse pedido, um colega de trabalho emprestou-me "Dark was the night", um CD duplo, que integra músicas de diferentes músicos e bandas, entre as quais esta. O tema original é de 1966, interpretado por Vashti Bunyan.

quinta-feira, abril 04, 2013

Até amanhã


Sei agora como nasceu a alegria, 
como nasce o vento entre barcos de papel, 
como nasce a água ou o amor 
quando a juventude não é uma lágrima. 

É primeiro só um rumor de espuma 
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.

É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.

Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude, o vento e as areias.

Eugénio de Andrade, Até Amanhã

quarta-feira, abril 03, 2013

Se o vires



Edward Hopper, "Morning Sun"

Se o vires, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que me sento na cama, distraída, a dobar demoras
e, sem querer, talvez embarace as linhas entre nós.
Mas que, mesmo perdendo o fio da meada por
causa dos outros laços que não desfaço, sei que o
amor dá sempre o novelo melhor da sua mão. Se

o encontrares, diz-lhe que o tempo dele não passou;
que só me atraso outra vez, e ele sabe que me atraso
sempre, mas não de mais; e que os invernos que ele
não gosta de contar, mas assim mesmo conta que nos
separam, escondem a minha nuca na gola do casaco,
mas só para guardar os beijos que me deu. Se o vires,

diz-lhe que o tempo dele não passa, fica sempre.

Maria do Rosário Pedreira 

(Texto surripiado daqui.)

Subtis memórias