quarta-feira, março 13, 2013

Só mais um dia


Só mais um dia,
um dia luminoso e barulhento
por mim a dentro,
um dia bastaria,
em prosa que fosse.

Mas dá-me para a melancolia,
para a limpeza, para a harmonia,
impacientam-me as migalhas
de pão na mesa, as falhas
da pintura do tecto,
as vozes das visitas, despropositadas,
sinto-me sujo como um objecto,
desapegado, desarrumado.

Trocaria bem esse dia
por um pouco de arrumação
- no quarto e no coração.

Manuel António Pina, Todas as palavras

domingo, março 10, 2013

O labirinto parado

Coisas pequenas



Alguém, por acaso, partilha uma música. De súbito, dás contigo a ouvi-la, em modo "repeat", à 1h da manhã. E, à medida que escutas música e palavras, há um sentimento que é um misto de saudade e tristeza que se acrescenta, até se tornar quase insuportável. Não consegues evitar lembrar-te de momentos de um passado longínquo e de pessoas que não regressam e que, por isso, não poderás mais abraçar. Apesar de tudo, num acto de masoquismo, continuas a ouvir a música, como se acreditasses que chorar na proporção da abundância da chuva deste dia possa apaziguar a tua dor, cuja origem, em parte, desconheces.

sábado, março 09, 2013

Mera fábula

Pois não posso dizer sequer que te amei nunca 
Senão em cada gesto e pensamento 
E dentro destes vagos vãos poemas; 
E já todos me ensinam em linguagem simples 
Que somos mera fábula, obscuramente 
Inventada na rima de um qualquer 
Cantor sem voz batendo no teclado; 
Desta falta de tempo, sorte, e jeito, 
Se faz noutro futuro o nosso encontro. 

 António Franco Alexandre

quinta-feira, março 07, 2013

terça-feira, março 05, 2013

Dentro do Segredo



A leitura do livro vai a meio. Estou a gostar bastante.

segunda-feira, março 04, 2013

Há dias assim

Esforço-me por buscar um lugar de conforto que me resgate deste sentimento em que me afundo e a que chamo tristeza, porque não encontro outro nome para lhe dar. Procuro antes de tudo, e em vão, a causa. Insisto, depois, em afastá-lo. Convoco, por isso, o sol de uma tarde de praia, uma conversa amena, um sorriso aberto, um qualquer momento em que fui feliz. Mas os fragmentos de passado que me assaltam não são felizes, não me trazem o calor e a luz de uma fogueira, a suavidade de uma brisa de um fim e tarde ou o doce perfume de uma madressilva. Talvez por isso esta sombra, que julgo ser um sentimento, teime em ficar como a chuva que, invasora, toma a noite como se fosse algo de definitivo, como se não houvesse, subitamente, outras cores além do cinzento e do negro.

O vento


"Vento" - Vincent van Gogh

O vento levantou-se... Primeiro era como a voz de um vácuo... um soprar no espaço para dentro de um buraco, uma falta no silêncio do ar. Depois ergueu-se um soluço, um soluço do fundo do mundo, e sentiu-se que tremiam vidraças e que era realmente vento. Depois soou mais alto, urro surdo, um urrar sem ser entre um nocturno ranger de coisas, um cair de bocados, um átomo de fim do mundo.


F. Pessoa - Bernardo Soares, Livro do Desassossego

domingo, março 03, 2013

Jardín privado


Mulher em jardim (Claude Monet)
Nadie ha de entrar aquí.
Para sólo la sombra
levanté las paredes
que dan cobijo al tiempo.
No fue impune el trazado
de las sendas que orientan
su interior movedizo.
Escalas y arrayanes dan forma
a un pensamiento mercenario.
No elegí casa árbol al albur. Fue preciso
conocer cada especie
como a mí me conozco.
El agua sabe el canto
que el silencio arrebata y en su monotonía
otra luz se desvela.
Para nadie he querido este lugar umbrío,
pues que sólo a mis pasos
reconducen sus losas.
Más allá de sus muros,
bajo un único sol, 
arde la vida.


Álvaro Valverde

sábado, março 02, 2013

Devanear...


Não guardes as lágrimas,
não te envergonhes da dor
que se verte pelos olhos...

Inunda-te, se preciso for,
faz-te rio, tumultuoso primeiro,
aos poucos calmaria
recolhida ao seu leito.

Mas não deixes
que a alma se faça pântano,
que as tuas raízes apodreçam
por um excesso de águas paradas.

Grita, se o grito for lágrima também, 
se for a ave que, oprimida,
te sufoca...

Grita, chora, rasga o chão
com as tuas mãos feitas garras...
Só não negues o direito
à tua humanidade.

deep/ Março de 2013