quarta-feira, fevereiro 27, 2013

A flor da solidão

Vivemos convivemos resistimos
cruzámo-nos nas ruas sob as árvores
fizemos porventura algum ruído
traçámos pelo ar tímidos gestos
e no entanto por que palavras dizer
que nosso era um coração solitário silencioso
silencioso profundamente silencioso
e afinal o nosso olhar olhava
como os olhos que olham nas florestas
No centro da cidade tumultuosa
no ângulo visível das múltiplas arestas
a flor da solidão crescia dia a dia mais viçosa
Nós tínhamos um nome para isto
mas o tempo dos homens impiedoso
matou-nos quem morria até aqui
E neste coração ambicioso
sozinho como um homem morre cristo
Que nome dar agora ao vazio
que mana irresistível como um rio?
Ele nasce engrossa e vai desaguar
e entre tantos gestos é um mar
Vivemos convivemos resistimos
sem bem saber que em tudo um pouco nós morremos


Do Ruy Belo, que nasceu num dia 27 de Fevereiro (1933)

Há dias

em que nos sentimos esmagados pelo que julgamos ser o pior em nós. Não conseguimos evitar lembrar que foi com esse pior que alguns justificaram a sua partida ou que outros - quem sabe? - partiram sem aviso.






«If you're going to break my heart 
 then please just do it fast 
 if you're going to crush my hopes 
 then hurry while they still last.»

terça-feira, fevereiro 26, 2013

Azulândia (em reposição)




Os últimos dias não tinham sido fáceis para o Rei Lívio e para a sua amada esposa, a rainha Olga. Diariamente, chegavam ao palácio notícias de que os encantos do reino começavam a desaparecer a um ritmo alucinante e de forma misteriosa. Primeiro haviam desaparecido as borboletas e as libélulas, logo de seguida, as hortências azuis que adornavam as bermas dos caminhos. Não muito depois, os habitantes da Azulândia deixaram de ver, pela manhã, gotas de orvalho. Temia-se que, em pouco tempo, desaparecessem os regatos de água cristalina, as robustas e centenárias árvores, o canto dos pássaros... A catástrofe total seria no dia em que as nuvens, o Sol, a Lua, as estrelas e o arco-íris deixassem de oferecer luz e cor à ilha.
O Rei Lívio decidiu não se deixar abater pela tristeza, pois sabia que um rei não devia demonstrar fraqueza. Determinou, antes, encontrar uma forma de salvar o seu povo.
Ordenou que ninguém o incomodasse, enquanto se dirigia ao Salão Azul. Depois de ter fechado a pesada porta de madeira, recostou-se na bonita cadeira de braços, estofada de veludo. Puxou para junto de si o repousa-pés. A situação exigia alguma solenidade, conforto e concentração. Nada poderia, por isso, ser esquecido.
Depois de muito cogitar, lembrou-se que os primeiros desaparecimentos tinham ocorrido depois de alguns dos seus súbditos terem visitado os reinos vizinhos e manifestado o desejo de copiar o luxo que viram nesses lugares. Os relatos foram contagiando outros e, aos poucos, quase todos foram ficando com o olhar mortiço, baço.
Lívio compreendeu que esta não seria uma guerra de espadas. Cada um tinha um inimigo dentro de si a destruir. Para isso, seria necessário procurar homens que ainda conservassem a bondade no coração e o brilho no olhar.
Pediu ao chefe do seu exército que percorresse com os seus soldados todos os lugares do reino e que encaminhasse os homens de olhar brilhante para o cume do monte Petra – assim chamado por haver nele uma enorme pedra redonda e lisa.
Os cem habitantes que os soldados conseguiram juntar no cimo do Petra, acenderam uma fogueira, em volta da qual, de mãos dadas, entoaram, até ao nascer do Sol, cânticos de esperança numa língua misteriosa que os seus corações ditava e que até ali desconheciam.
Quando Sol se ergueu, os homens levantaram-se e, em silêncio, começaram a dirigir-se para o palácio. Foi com alegria que puderam constatar que as bermas dos caminhos estavam de novo bordadas de exuberantes hortências azuis, que exibiam nas suas folhas delicadas gotas de orvalho.
Chegados à praça junto ao palácio, foram felicitados pelos restantes habitantesde Azulândia, que estavam felicíssimos por se terem libertado de sentimentos maus como a inveja e a ambição e por terem recuperado o brilho no olhar.
O rei Lívio e a rainha Olga receberam-nos no Salão Azul e mandaram preparar uma grande festa, na qual não faltaram as libélulas e as borboletas para enfeitarem os cabelos das meninas.

deep/ Janeiro de 2009

Desenho: Ana

O texto resultou de um desafio da minha irmã, que antes fez o desenho.

Himno


Que haya viento a favor.
Que mires atrás una sola vez
para saber que aún no te persigues.

Que encuentres la alegría de perderte, 
la certeza fugaz de no estar muerto,
alguien que te acompañe
y cosas que sucedan.

Que sigas. Que te pares.
Que nunca des contigo.

Y que tu patria sea ese lugar
al que no llegarás.

Álvaro Tato

domingo, fevereiro 24, 2013

Nós temos cinco sentidos

Nós temos cinco sentidos: 
são dois pares e meio de asas. 

- Como quereis o equilíbrio?


David Mourão Ferreira (que nasceu no dia 24 de Fevereiro de 1924)

sábado, fevereiro 23, 2013

Maio maduro Maio



Um tema de Zeca Afonso, que faleceu num dia 23 de Fevereiro (1987), aqui interpretado pela transmontana Emmy Curl.

Sim, claro

há coisas piores do que
estar só
mas em geral leva décadas
a perceber-se
e frequentemente
quando se percebe
é tarde de mais
e nada há pior
do que
demasiado tarde.

Charles Bukowski

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Este país (também) não é para doentes

Até ficar doente, nos tempos que correm, é diferente. Antes, quando adoecias e, por força da doença, tinhas de faltar ao trabalho, ficavas de cama, se fosse preciso o dia inteiro, sem pesos de consciência.
Hoje, quando ficas doente e não tens outro remédio senão ficar em casa, pesa-te o trabalho que não consegues fazer em casa, aquele que fica por fazer no teu local de trabalho e pesa-te ainda - e chega a ofender-te - que te descontem um dia de ordenado, quando o estado em que te encontras não depende da tua vontade.

segunda-feira, fevereiro 18, 2013

Buried bones

...


Sentas-te no meio do silêncio,
esse espaço de cinza.
Dele fizeste a tua casa, 
a tua arma - a única -,
o teu refúgio...

Sentas-te nesse lugar
onde o verde e os poentes
são, por ora, uma miragem,
ecos de um sonho.

Perdeste o trilho - sabe-lo bem -
que podia conduzir-te à ternura,
que podia resgatar-te de ti,
por isso sentas-te e esperas.

Esperas, embora saibas que a espera
é uma arma apontada ao teu peito,
uma espada a escassos centímetros
da tua cabeça...

Ainda assim, esperas...

17/02/2013

Não mais que um simples devaneio...