quarta-feira, novembro 14, 2012

Para agradar a uma sombra




Agora que já chorei o meu papel de solitário
posso virar a folha e declarar que, na verdade,
eu nunca estive sozinho. Tive sempre a boa companhia
da minha sombra. E não posso dizer
que nos déssemos mal: uns dias pior, outros pior.
Como todos os casais. Tínhamos (e temos)
a mesma idade, os mesmos gostos musicais,
um amor paralelo por fogo de lenha,
líamos os livros a meias, quase não gastávamos
nenhum oxigénio.

Dos dois era ela quem insistia, às vezes,
para irmos dançar. Mas eu, é claro, detestava
o tremedal das discotecas; amava mais depressa
o movimento descritivo dos romances
do que a Iuz hipotecada de um corpo distante.
Com o tempo, no entanto, foi crescendo esse litígio.
As nossas relações foram perdendo vulto
à medida que ela convidava mais gente
para a nossa cama. Até que um dia chegou a casa
e apresentou-me “o amor da nossa vida; agora
somos três”. E assim a minha sombra,
a minha ingrata começou a dizer coisas Iacerantes.
Por exemplo: “Vai tu ao cinema. Nós ficamos.”
Ou então: “Bem podemos, de vez em quando,
caminhar separados, ou não achas?” E fecha-se
no quarto com a outra, em colóquios ofegantes.
Altura em que, de raiva, saio porta fora.

Uma vida a três é talvez menos longa do que uma vida
a dois. Há um milímetro agora de distância entre mim
e a sombra. O espaço bastante para um raio de luz.
Não ficamos, realmente, pior do que estávamos.
Mas chega a ser enjoativo ver o trevo cor-de-rosa
que semeiam no quintal, felizes como duas estrelinhas
de cinema. Nem sei o que diga. Parecem crianças.


José Miguel Silva

terça-feira, novembro 13, 2012

T-o-M


Thomas Hoepker, Casamento em Trás-os-Montes, 1964

segunda-feira, novembro 12, 2012

Come as you are

A cidade está deserta


(PDL, Julho de 2011)
A cidade está deserta,
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte:
Nas casas... nos carros... nas pontes... nas ruas...
Em todo o lado essa palavra
Repetida ao expoente da loucura!
Ora amarga... ora doce...
Para nos lembrar que o amor é uma doença,
Quando nele julgamos ver a nossa cura...


Excerto de "Ouvi dizer" dos Ornatos Violeta

domingo, novembro 11, 2012

sexta-feira, novembro 09, 2012

Noite


Arcos de Valdevez, Setembro de 2012

quarta-feira, novembro 07, 2012

O lado B



(Imagem de Soizick Meister)


Apesar das cores inigualáveis, dos frutos que oferece, do intimismo que se associa a esta estação, há um lado obscuro no outono, um lado B que preferia saber viver de outra forma. 
A diminuição da intensidade e das horas de luz, os dias húmidos e cinzentos, o frio que chega sem aviso deprimem-me, entram-me no corpo, tomam-me os ossos e a alma que, como o céu, por vezes, se pinta de um cinzento opaco e por ele se deixa oprimir, como se não houvesse outra saída, uma possibilidade de luz.
É certo que vou encontrando subterfúgios para que a tristeza e o vazio não vençam e, assim, passo a passo, me vou adaptando ao convívio com estes dias tristonhos, mas, nesse entretanto, as minhas maiores vontades são dormir e fugir para onde haja sol.

sábado, novembro 03, 2012

Quando voltares



Quando voltares, põe na tua voz
aquela flor azul que te ofereci.
Talvez, assim, eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham, outra vez.

Ainda tens no gesto aquele susto
que se enrolava todo nos meus dedos
e punha à nossa volta
um colar de silêncio ardendo.

Tudo mudou, bem sei. Naquela tília
o outono já começou;
e nas tuas palavras
algumas folhas devem ter caído.

Mas, se voltares, põe a flor azul,
põe o passado no gesto e na voz.
Talvez assim eu julgue reencontrar-te
e os olhos se encham. É tão fácil!

António Cabral

Enquanto aguardo

Aguardo. Enquanto isso, o meu olhar detém-se no quadro exterior que um rectângulo de janela emoldura. Enche quase todo o espaço uma casa bicolor, em que o branco predominante contrasta com um cinzento claro da parede da varanda, onde se recortam uma porta e uma janela. Serve-lhe de fundo um céu plúmbeo, opaco.
Dão cor à imagem o vermelho do telhado e o verde mostarda das folhas de uma árvore que se impõe à fachada da casa. As folhas da árvores agitam-se, obedecendo ao capricho de um vento moderado que torna mais frio o ambiente exterior.
A espaços, raios de sol iluminam a casa e as folhas da árvore, que ganham tons de oiro.
Observo este quadro e imagino que, embora muda, a casa há-de guardar muitas histórias, será a depositária de segredos e de inconfessadas mágoas.

Outonar por cá...