terça-feira, outubro 16, 2012

Há dias

Abraço, Gustav Klimt
em que dávamos tudo por um abraço forte ou pelo calor de uma fogueira.
Há dias, em que desejamos que nos digam, como quando éramos crianças, que já passa e que nos soprem as esfoladelas do coração...
Há dias, em que lamentamos fortemente não ter feito outras opções, não ter seguido outro caminho...

Parece que hoje é um desses dias. :(

segunda-feira, outubro 15, 2012

Indago a forma definitiva do outono


Indago a forma definitiva do outono.
Um diálogo pode mudar a paisagem.
Fazer nascer um poema.
Criar obsessões.
Destruir emboscadas.
Cada instante é a metamorfose
de uma asfixia interior.
Confundo os caracteres e um imaginário
se revela numa iconografia fantástica.
Nas entrelinhas, um espectáculo de ironias
reitera entregas e recusas
como um dever por cumprir.

Graça Pires, Outono: lugar frágil, 1994

He's not an ordinary man

Há pessoas com as quais convivemos anos a fio, ou porque trabalham connosco ou porque as vamos encontrando em circunstâncias várias, que nunca chegam a ser nossas amigas. Talvez faltem afinidades, talvez sobrem medos e desconfianças... Outras há, contudo, que entram nas nossas vidas de forma inesperada - ou até inusitada - e pelas quais, em pouco tempo nos afeiçoamos, a ponto de as sentirmos como velhos amigos.
Foi assim com este amigo que hoje celebra mais um aniversário. Não o conheço há muito tempo, vemo-nos muito raramente, mas, sempre que nos encontramos, conversamos horas a fio, sobre os mais diversos assuntos, sem que algum de nós domine a conversa ou acuse aborrecimento. Quando tenho de me despedir,  sinto-me um pouco como diz o Sérgio Godinho na canção: hoje soube-me a tanto... /Portanto, hoje soube-me a pouco".
É bom conversador, como é bom ouvinte. É franco e bem disposto. Além disso, tem uma colecção de música interminável e, embora a sua área de formação tenha mais que ver com números, é um apreciador respeitável de literatura.

Foi este amigo, a quem eu desejo um dia muito feliz (como merece!), que me apresentou a canção que se segue (e muitas outras).

domingo, outubro 14, 2012

Outono

Autumn leaves (daqui)

sábado, outubro 13, 2012

Fica


Fica ao menos o tempo de um cigarro, evita
comigo que este tempo ande. Lá fora estão as 
casas, vive gente perto do candeeiro, o som
que nos chega apagado pela distância só
denuncia o nosso silêncio interrompido.
Ajuda-me, faremos o inventário das coisas
que quisemos fazer e não fizemos, mágoas
que deixámos esquecidas entre o ruído das
cidades. Fica, não te aproximes, nenhum 
dia é menos sombrio, quando anoitecer vamos
ver as árvores caminhando cercando a casa.


Hélder Moura Pereira

sexta-feira, outubro 12, 2012

Gruas no cais


Gruas no cais descarregam mercadorias e eu amo-te.
Homens isolados caminham nas avenidas e eu amo-te.
Silêncios eléctricos faíscam dentro das máquinas e eu amo-te.
Destruição contra o caos, destruição contra o caos, e eu amo-te.
Reflexos de corpos desfiguram-se nas montras e eu amo-te.
Envelhecem anos no esquecimento dos armazéns e eu amo-te.
Toda a cidade se destina à noite e eu amo-te.

José Luís Peixoto

quarta-feira, outubro 10, 2012

:))


Bansky, "Zebra"

domingo, outubro 07, 2012

segunda-feira, outubro 01, 2012

Fiz-me barco ancorado


Nessa tarde em que as aves
adivinhavam tempestades
recolhi as velas
e fiz-me barco ancorado.

Nessa tarde de sal e maresia
lancei os sonhos ao mar
e deixei que, num vaivém de espuma,
se fizessem ondas.

De olhos postos no horizonte em brasa,
fui concha e alga na orla do mar, fui farol...
E, no entanto, um maremoto me nascia no peito.

Deep/ Outubro de 2012

Anoiteceu mais cedo

Anoiteceu mais cedo. À porta fechada, 
preparo um roteiro de viagens. 
Sublinho rotas e derrotas. 
Tatuo nos pulsos uma rosa dos ventos 
e gravo na mão esquerda um astrolábio. 
Tenho uma ilha adiada no peito. 
É a época das marés vivas. Pressinto-o, 
pela intensa ondulação do meu cabelo, 
antecipando a tormenta.

Graça Pires