sexta-feira, junho 29, 2012
quarta-feira, junho 27, 2012
Falo do que é físico
Falo do que é físico porque não tenho outra realidade.
Falo do corpo
do mundo
do que ainda não sabemos e chamamos divino.
Falo do que é físico
porque tudo o que é real tem corpo e ocupa espaço.
Falo disso.
Falo do que existe
e tudo é tanto que nunca chega o tempo
nunca chega o fôlego.
Vejo até à asfixia
gente, coisas, o invisível.
Tudo me faz estar em permanente frêmito
sair para a rua de noite
e andar até cair de cansaço.
Pensando em tudo isso
extremamente sobreposto
como se uma grande dor não anulasse outra
como se fosse possível
pensar em mais de uma coisa de uma só vez
sentindo o simultâneo impossível
querendo abranger
a incontrolável voracidade dentro de tudo.
Corro por mim fora
como um grande atleta
campeão de barreiras e distâncias invencíveis
tentando vencer
mas tudo é enorme e intrincado
tudo em mim são olhos vigilantes
sem jamais pálpebra.
Mas tudo isso não chega.
Tudo é enorme
e morro tão depressa.
Ana Hatherly
domingo, junho 24, 2012
Não, não é complexo de avestruz
É muito raro referir-me, neste espaço, a assuntos ditos "sérios". Posso, com esta omissão, dar a ideia de que o mundo, os problemas e as pessoas à minha volta me passam ao lado ou que talvez prefira, como a avestruz, meter a cabeça na areia, enquanto espero que uma espécie de deus "ex machina" traga as soluções.
Na verdade, aquilo que se passa à minha volta preocupa-me - e revolta-me - muito mais do que parece. Não fico indiferente às situações de desemprego de casais próximos, à eminência de algumas pessoas ficarem sem emprego ou de terem de se afastar das famílias para poderem garantir um lugar e o sustento. Revolta-me que os nossos políticos estejam mais apostados em responder, com números, a objectivos absurdos, esquecendo o lado humano das situações e que eles próprios continuem a usufruir de privilégios, quando uma grande parte de nós se vê obrigado a sacrifícios. Revolta-me também que aqueles que nos representam não façam nada para evitar que o interior esteja seja cada vez mais esquecido e seja cada vez mais interior, sem pessoas e sem serviços.
Talvez não escreva mais vezes sobre estes assuntos porque já muitos o fazem, ou porque escrever pode aliviar a minha raiva ou a minha consciência, mas não a situação daqueles que sentem mais do que eu os problemas.
Dos sentimentos
Há uma idade (na verdade, há muitas idades) em que acreditamos mais, em que as ilusões moram em nós de forma mais intensa e durante mais tempo. Por vezes, basta um sorriso ou um olhar, no dobrar de uma esquina, para acreditarmos que entre nós e o dono desse sorriso ou desse olhar nasceu algo de especial. De imediato, inventamos sentimentos e, em pouco tempo, erguemos uma ilusão, que pode trazer no pacote o retrato ficcionado da outra pessoa e a imagem de uma relação que provavelmente só existe na nossa cabeça. Enquanto a desilusão não chega ou uma nova ilusão não se apodera de nós, vivemos enlevados, suspensos num sentimento muitas vezes sem alicerces.
Chega, contudo, um momento em que nos tornamos mais lúcidos - ou desencantados? Tomamos, então, consciência de que nada é preto no branco e de que, sobretudo em matéria de sentimentos, há vários tons de cinzento. Não só os olhares ou os sorrisos podem ser muitos, como o mesmo olhar ou o mesmo sorriso pode ter diferentes interpretações. Também aquilo que noutra idade considerávamos indubitavelmente paixão ou amor, pode agora não passar de um mero encantamento sem consequências.
Apercebemo-nos igualmente de que as atitudes de alguém que parece considerar-nos especiais nem sempre resultam de um sentimento que tem por nós, antes de uma necessidade egoísta de ser amado, ou seja, ainda que possa experimentar algum sentimento pela outra pessoa, esse alguém ama sobretudo a ideia de que o amem, por isso seduz, insinua-se, provoca, para se certificar de que mantém a outra pessoa suspensa nessa sua necessidade, indiferente aos estragos emocionais que possa causar.
Quando tal acontece, sabemos que é inútil verbalizar sentimentos. Fazendo-o não aproximamos o outro de nós, pelo contrário, afastamo-lo, porque quebramos um encantamento de que se alimenta e de que alimenta a pessoa de quem se aproxima. Nomear aquilo se sente é investi-lo de realidade e esta não se coaduna com um sentimento que só pode ter existência virtual.
Eu sei que são muitos devaneios para um domingo de manhã e que o mais certo é nada disto fazer sentido, mas apeteceu-me divagar.
Da verdade
(Imagem de Escher)
Devo concluir que cada um de nós tem a sua verdade ou que, pelo contrário, cada um de nós vive a sua mentira?
sábado, junho 23, 2012
Devanear
De novo o meu corpo dentro de água. Uma janela. Por ela chega-me uma nesga de céu de um azul em desmaio. Cruza-o, obsessivamente, um pássaro que se repete em voos solitários.
O meu corpo dentro de água. Hoje afasto de mim os teus olhos. Hoje não me importa que cor têm os teus olhos. Os meus dedos esqueceram a textura da tua roupa. E o meu corpo, que se move dentro de água, guarda apenas a memória morna do útero.
O meu corpo dentro de água. Hoje afasto de mim os teus olhos. Hoje não me importa que cor têm os teus olhos. Os meus dedos esqueceram a textura da tua roupa. E o meu corpo, que se move dentro de água, guarda apenas a memória morna do útero.
A media luz
Vivir así: sin angustiosos sueños,
con los deseos justos y contados,
sin prisa por llegar a ningún sitio,
sin esperar de nada demasiado...
tal vez no sea vivir. Pero es mi vida
(o, al menos, lo que de ella va quedando).
Javier Salvago
con los deseos justos y contados,
sin prisa por llegar a ningún sitio,
sin esperar de nada demasiado...
tal vez no sea vivir. Pero es mi vida
(o, al menos, lo que de ella va quedando).
Javier Salvago
terça-feira, junho 19, 2012
Não procures verdade
Não procures verdade no que sabes
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
Sophia de M. B. Andresen
Nem destino procures nos teus gestos
Tudo quanto acontece é solitário
Fora de saber fora das leis
Dentro de um ritmo cego inumerável
Onde nunca foi dito nenhum nome
Sophia de M. B. Andresen
segunda-feira, junho 18, 2012
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