sexta-feira, junho 19, 2020

Léxico da luz e da escuridão


Terminei hoje a leitura de Léxico da luz e da escuridão, que me foi oferecido há dias. Já li muitos livros sobre o Holocausto, mas nenhum cuja ação tenha como palco a Noruega.
Para escrever a obra, o autor, Simon Stranger, inspirou-se em relatos de familiares da sua esposa e em pesquisas que desenvolveu e através das quais procurou conhecer melhor a vida e os motivos de Henry Oliver Rinnan, considerado o maior criminoso norueguês de todos os tempos. Rinnan, que se revelou, durante a infância e a juventude, uma pessoa reservada, cordial e pacífica, acabou por aceitar ser informador dos alemães, aquando da ocupação da Noruega, tendo, ao longo de alguns anos, como líder de um grupo, denunciado e executado impiedosamente um grande número de noruegueses.
Apesar da crueza do tema e da narrativa, o autor construiu a sua obra de uma forma habilidosa e cativante.

RIP, CRZ


Barcelona, 2017

«O destino costuma estar ao virar da esquina. Como se fosse um gatuno, uma rameira ou um vendedor de lotaria: as suas três encarnações mais batidas. Mas o que não faz é visitas ao domicílio. É preciso ir atrás dele.»
Carlos Ruiz Zafón, A Sombra do Vento, Dom Quixote

Além de A sombra do vento, li vários livros do autor  incluindo a sequela, O jogo do anjo, que ofereci a mim própria num aniversário, na versão em castelhano. Depois de ler A sombra do vento, e posteriormente A catedral do mar, de Ildefonso Falcones, que a minha vontade de conhecer Barcelona se tornou uma urgência. Zafón só tinha 55 anos, um jovem nos padrões actuais. Quanto não teria ainda para escrever?

quinta-feira, junho 18, 2020

Saramago


Marc Chagall, "Sobre a cidade"

«Durante nove anos, Blimunda procurou Baltasar. Conheceu todos os caminhos do pó e da lama, a branda areia, a pedra aguda, tantas vezes a geada rangente e assassina, dois nevões de que só saiu viva porque ainda não queria morrer. Tisnou-se de sol como um ramo de árvore retirado do lume antes de lhe chegar a hora das cinzas (...). Onde chegava, perguntava se tinham visto por ali um homem com estes e aqueles sinais, a mão esquerda de menos, e alto como um soldado da guarda real, barba toda grisalha, mas se entretanto a rapou, é uma cara que não se esquece, pelo menos não a esqueci eu (...). Julgavam-na doida, mas, se ela se deixava ficar por ali uns tempos, viam-na tão sensata em todas as mais palavras e acções que duvidavam da primeira suspeita de pouco siso. Por fim já era conhecida de terra em terra, a pontos de não raro a preceder o nome de Voadora.»

José Saramago, Memorial do Convento

José Saramago partiu há 10 anos.

segunda-feira, junho 15, 2020

Ah a frescura na face

Ah a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros.
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte... Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

F. Pessoa- Álvaro de Campos (17-6-1929)

domingo, junho 14, 2020

A nuvem veio e o sol parou



A nuvem veio e o sol parou.
Foi vento ou ocasião que a trouxe?
Não sei: a luz se nos velou
Como se luz a sombra fosse.
Às vezes, quando a vida passa
Por sobre a alma que é ninguém,
A sensação torna-se baça
E pensar é não sentir bem.
Sim, é como isto: pelo céu
Vai uma nuvem destroçada
Que é véu, mau véu, ou quase véu,
E, como tudo, não é nada.

Fernando Pessoa, 1934

O poeta que faltou ontem aqui...


sexta-feira, junho 12, 2020

terça-feira, junho 09, 2020

Os últimos companheiros


Acabei de o ler no fim de semana, depois de algum tempo em pausa.


Adquirido e lido há duas semanas.


Leitura concluída há dias, depois de algum tempo de suspensão.


Comprado e lido há duas semanas, de um fôlego.


Em processo de leitura - estou a meio das 704 páginas.

Sim, ao mesmo tempo, tenho (tele)trabalhado e tenho-me esforçado por não descurar as lides domésticas (consegui, finalmente, arrumar livros, filmes e cds!). Tenho - isso sim - suprimido algum tempo à televisão.

Em resposta à pergunta da ana:

O primeiro e o terceiro são romances históricos. O sonho do celta tem por base a vida de Roger Casement, figura real e controversa, que esteve no Congo, no Peru e no Brasil, onde testemunhou as atrocidades cometidas contra os índios, e que pugnou pela independência da Irlanda, sendo, por isso, .acusado de traição pelo governo de Inglaterra. 
A ação de Lillias Fraser começa com a batalha de Culloden, que pôs frente a frente os clãs escoceses, a favor da independência da Escócia, e o exército real britânico e termina em Lisboa, nos anos imediatamente posteriores ao terramoto.
Em Chuva miúda há uma figura central, Aurora, a quem todos os elementos da mesma família procuram para, em conversas torrenciais e intermináveis, confessarem mágoas antigas, alheios às necessidades da própria interlocutora. Dessas conversas, entretece-se a história de três irmãos, apresentada sob diferentes prismas. 
Em Deixa-te de mentiras, há um narrador que, na idade adulta, recorda com saudade - e alguma mágoa - um amor adolescente.
Em Servidão humana, que, como o próprio autor adverte no prefácio, é um romance inspirado nas suas vivências, narra-se a juventude de Philip, que decide estudar arte em Paris, fascinado pelo mundo boémio e artístico, e que, desiludido, regressa a Inglaterra para estudar medicina. Como só ainda vou a meio do romance, não posso adiantar mais.



Faltava este...

Que pena não ser eu

Do poeta que nasceu num dia 9 de Junho(1900)
Que pena não ser eu um dos primeiros
homens a inventar as palavras,
para criar a verdade!
Encontrei-as já todas feitas
umas doces, outras amargas,
estas rudes, aquelas imperfeitas,
acasos de som
– mar de espuma de gaivotas e vagas.
Com este cheiro tão bom
a realidade.
José Gomes Ferreira

quinta-feira, maio 28, 2020

Por vezes


(Gimonde, Bragança)
Por vezes
Por vezes, ignoramos o leito do rio,
ignoramos que há barcos que se perdem
na voragem dos dias.

Buscamos, pela tarde,a sombra das árvores,
o canto primordial de um regato.
Ansiamos por um canto de ave,
pela suave ondulação de uma seara.
Mas vê como, subitamente,
a luz afrouxa com a passagem
das horas.
Repara como a margem
se fez lamacenta,
como é maior agora
a distância entre os meus dedos
e o teu cabelo.
Em breve, nada sobrará
que possa ser, entre nós,
dádiva...

domingo, maio 24, 2020

Papoilar e primaverar

Fui ali "papoilar"e "primaverar"...
A ideia era apanhar cerejas pela fresca. As cerejas eram poucas, muito maduras ou podres. 
Em contrapartida, a Primavera estava ali "à mão de semear", em toda a sua ostentação.





Últimas leituras






Tenho suprimido algum tempo aos filmes e às séries de televisão e dedicado parte desse tempo, sobretudo no fim da tarde e parte da noite à leitura. Tem-me sabido bem viajar por outros lugares e por tempos distantes. 
Confesso que esperava muito mais de Adeus às armas do Hemingway. A tradução não me pareceu adequada, os diálogos soaram tolos e lamechas e o final previsível.

terça-feira, maio 19, 2020

E, de súbito


(Jardins da Gulbenkian, 2014)
E, de súbito, há essa luz
que se espalha sobre a tarde,
essa luz invasora
que traz o passado pela mão,
que o arrasta,
e mo devolve em fragmentos,
como um tempo já sem préstimo.

E, de súbito, é verão na primavera…
Vozes antigas ecoam na minha cabeça
como um mantra,
como uma ladainha,
uma canção infantil.

Vejo-me  menina,
alma sem mácula e sem mágoas,
corpo pequeno que se enrola
nas palavras alheias,
pronunciadas sem pressa.

deep, 15 de Maio de 2014

Em repetição...

sábado, maio 09, 2020

Efeito surpresa

Nas traseiras da minha casa, há um terreno, por onde algumas pessoas passam, para cortar caminho. Com o tempo, fez-se um carreiro.
Ontem, quando lia um pouco na varanda, aproveitando o sol menos intenso do fim da tarde, passou uma das minhas vizinhas, já idosa. Apesar da idade e de alguns problemas de saúde, não usava máscara. De súbito, no fim do carreiro, surgiu um casal jovem. A mulher mais velha, a menos de um metro deles, dirigiu-lhes algumas palavras,enquanto sorria e os obrigava a parar. Eles, que também não estavam protegidos, ficaram de tal modo surpreendidos ou assustados (ou as duas coisas), que mal articularam uma palavra.

sábado, abril 25, 2020

Liberdade relativa


Voltei ao caderno da mana.

Abril de Abril



Este ano, a Liberdade tem um novo inimigo. Um desenho recente da mana.

Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.
Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.
Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.
Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.
Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.
Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas.
Manuel Alegre

quinta-feira, abril 23, 2020

Dia Mundial do Livro


Quando era adolescente e vivia numa pequena vila de província que não oferecia aos mais novos alternativas de diversão, o refúgio era, para alguns de nós, a leitura. Felizmente, havia, mesmo no centro da localidade, num dos edifícios mais bonitos, uma biblioteca de que me fiz amiga pelos oito anos. Entrar nela era como entrar num santuário, pois naquele espaço tudo era austeridade e fascínio - os livros metodicamente arrumados, as janelas altíssimas com pesadas portadas de madeira, o chão, também de madeira, de onde se desprendia sempre um forte cheiro a cera e o rosto sisudo do responsável que garantia o silêncio e a ordem. Veio-me provavelmente daí e do contacto com alguns professores que, felizmente, se cruzaram no meu caminho o gosto que continuo a alimentar pelos livros e pelas histórias. Acrescentaram-no, ainda na infância, a leitura do Girassol, uma publicação juvenil, que incluía passatempos, biografias em banda desenhada, receitas de culinária simples e excertos de livros - um excerto de O Cavaleiro da Dinamarca, da Sophia de Mello Breyner, abriu-me o apetite para a leitura integral da obra. Lembro-me que, nos tempos de faculdade, uma parte da magra bolsa de estudo ficava implicitamente destinado à compra de um livro. Nesse tempo, a leitura era tema de conversa habitual, como a troca e a oferta de livros. Durante o período em que decorria a Feira do Livro, primeiro na Rotunda da Boavista, depois no Pavilhão Rosa Mota, perdia a conta às horas que passava à procura de títulos interessantes, preferencialmente baratos. Vem desse tempo a leitura de Herman Hesse, de Gorki, de Kafka e de Yourcenar. Foi numa feira de 1991 que adquiri uma das obras que mais me custou perder e que não voltei a encontrar - Antologia Breve do Eugénio de Andrade. Hoje, cada vez que entro numa livraria, fico sobejamente desiludida. Já não se encontram livros que valha a pena oferecer. Nos escaparates e nas prateleiras, abunda a literatura que eu apelido de "fast-food" - rápida de confeccionar, de mastigar e digerir, que engorda, mas não alimenta. As pessoas fazem gala de dizer que leram este ou aquele título, que lêem cada vez mais... Falta critério, parece-me...

Texto resgatado do baú.

segunda-feira, abril 20, 2020

O mais importante é


(A rosa foi uma oferta gentil de uma amiga, que a deixou no lado de fora da minha porta; o bolo foi a minha tentativa de fazer um bolo de aniversário bonito.)

Era suposto ser um dia entre amigos e família, mas não foi assim. O "bicho" trocou-me as voltas e trocou-me os planos modestos. Sábado acabou por ser a versão "sozinha em casa", com uma versão caseira e infeliz de um bolo de aniversário e brindes (muitos) virtuais e outros por vídeo chamada. Os telefonemas e as mensagens foram em tão grande número que não me sobrou tempo para fazer um almoço ou um jantar mais requintados, como o dia e eu merecíamos. Não posso queixar-me. Só agradecer. Apesar do isolamento, não tive oportunidade de me sentir só. Neste tempo que vivemos, o importante (desculpem o cliché) mesmo é termos saúde, não é?

terça-feira, abril 14, 2020

Não é fácil... eu sei que não!

Os mais difíceis de convencer a ficar em casa são, sem dúvida, os mais velhos. O meu pai, porque tem a horta e as galinhas e agilidade quanto baste apesar dos 80 anos, sai todos os dias. Se não são a horta e as galinhas, são os castanheiros ou as oliveiras, ou o quintal ao qual é preciso mondar a erva. Não pára em casa. Ainda assim, noto-lhe a tristeza e uma certa revolta, que o faz agir como uma criança mimada de 5 anos, a quem recusaram um doce ou um brinquedo. Apoquenta-o não poder manter certos gestos sociais que lhe traziam diariamente alegria: tomar um café, no centro da aldeia, a caminho da horta, passar na casa dos cunhados, para os cumprimentar ou para oferecer algum produto do seu lavor, convidar os sobrinhos ou outros rapazes da aldeia para um copo, ter os filhos e as netas a almoçar ao domingo, ir comprar, sem restrições, medicamentos e os bens alimentares à vila mais próxima.
Ontem, à noite, propus-me fazer as compras lá para casa. Partiu do princípio que o levava comigo. Quando percebeu que tal não aconteceria, ficou deveras aborrecido e eu, apesar dos argumentos, sem argumentos.
Fui fazer as compras sozinha -  as da farmácia, as do talho e as do supermercado. Quando passei lá em casa para levar o que comprara, percebi que a zanga dele não é comigo, por "mandar" nele, mas com toda a esta situação que lhe tolhe os movimentos e o faz sentir inútil, apesar da horta, das galinhas e de tudo o resto de que ele ainda trata.
Para me "compensar", obrigou-me a trazer frango caseiro, ovos, folar transmontano, batatas, uma abóbora e uma alface.

terça-feira, março 31, 2020

Rodopiando ao vento


Hoje a neve resolver dar um ar da sua graça. Durante mais de uma hora, os flocos, em rodopio, caíram abundantemente. Assomei à janela para saudar o meu medronheiro, que começava a pintar-se de branco, assim como os telhados das garagens vizinhas. E, por momentos, esta ocorrência mágica veio distrair-nos do pesadelo e das obrigações do teletrabalho.


(Estou em falta nos comentário. Mil perdões!)

segunda-feira, março 30, 2020

Gulodices partilhadas


(Foto pouco elucidativa da gulodice)

Hoje apeteceu-me um docinho e, como não estou muito abastecida para estes dias de isolamento, resolvi fazer uma "maizena" -  farinha "Maizena", leite, açúcar, uma casca de limão e uma noz de manteiga. Uma espécie de leite creme sem ovos, que a minha mãe costumava fazer-nos para o lanche ou para o pequeno-almoço, na infância, e que ainda hoje faz, a pedido das netas.
Fiz a versão aldrabada: uma tacinha no microondas. Partilhei uma foto do "feito" com as minhas sobrinhas, pelo Messenger, para causar inveja. Em menos de meia hora, estavam a enviar-me a versão delas, que resolveram fazer no fogão. E que bom aspeto tinha! Com canela e tudo!