sexta-feira, março 31, 2006

a invenção do amor

(Foto de Mark Freedom) Em todas as esquinas da cidade nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga um cartaz denuncia o nosso amor Em letras enormes do tamanho do medo da solidão da angústia um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel numa tarde de chuva entre zunidos de conversa e inventaram o amor com carácter de urgência deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis apenas o silêncio A descoberta A estranheza de um sorriso natural e inesperado
Daniel Filipe
As estrofes transcritas constituem uma pequena parte de um poema narrativo que introduz e toma quase todo o espaço de uma colectânea com o mesmo título.
Não sei se alguma vez alguém o musicou, mas lembro-me de ter visto, há alguns anos, na televisão, uma representação.

quinta-feira, março 30, 2006

quando a cabeça não tem juízo...

Muitas vezes, quando me sento ao computador, esqueço-me da comida, que fica no fogão entregue à sua sorte.
Hoje o desastre foi completo: comida e panela queimadas e um cheiro insuportável que se espalhou por toda a casa, obrigando-me a abrir tudo quanto é janela.
Felizmente, apesar do sucedido, o humor já não é o de ontem e o frio também não é muito...

há dias assim...

Há dias assim... em que o trabalho parece interminável e demasiado árduo para as nossas forças.
Há dias assim... em que o egoísmo fala mais alto e preferimos tapar os olhos e os ouvidos às tragédias que grassam por esse mundo e ao lado das quais os nossos problemas são grãos de areia.
Há dias assim... em que a solidão é pedra que se atravessou no nosso caminho e insiste em ficar.
Há dias assim... em que o silêncio ganha os contornos de uma dor física.
Há dias assim... em que esperamos pelo dia seguinte, porque o intuímos melhor.
Há dias assim...
Há dias...

domingo, março 26, 2006

quem não conhece pelo menos um?

"Não, não são necessariamente crianças atiradas para o chão a fazer birras, nem sequer adolescentes pedantes, há sobremimados em todas as faixas etárias, estratos sociais e regiões do país (...). Não estão habituados, nem tencionam estar, a ser contrariados (...). Os sobremimados não tiveram mimo a mais, mas a menos, apressam-se a dizer os especialistas da psique (...). Talvez, de facto, tenham sido alvos de um amor doente, que não lhes ensinou limites (...). Talvez, de facto, lhes tenha faltado um amor saudável, que lhes desse a entender que servir não é ser subserviente, e que falar alto e levantar a espada por tudo e por nada não é a melhor maneira de afugentar o medo, mas é uma forma certa de afastar os outros."
Isabel Stilwell, Notícias Magazine de hoje

sábado, março 25, 2006

imaginação é o que não falta por aí

Imagens recebidas por mail

Bom fim-de-semana!

sexta-feira, março 24, 2006

Parabéns, Hipatia!

Para a festa de aniversário da Hipatia do Voz em Fuga, resolvi trazer a música (esta de outros tempos): Let's Dance - David Bowie

quinta-feira, março 23, 2006

frase solta

Do céu carregado e baixo
choveram memórias
que, em torrente,
inundaram as faces dos dias.

quarta-feira, março 22, 2006

leituras

"Não ficará senão a tua voz na tarde calma. Olá, disseste. E a terra começou a tremer."
"Alquimia, eis a explicação, se é que se pode explicar. Antes, talvez tivesse o dom de lhe querer sem saber que lhe queria. A partir de então, quando ela o olhava, tudo nele se subvertia, um anjo ou um demónio (...)."
"E só então havia no ar um cheiro a incenso. Era uma graça. Às tantas pensou que talvez fosse pecado. E contou ao padre. Mas ele disse: Agradece a Deus."
"Só muito mais tarde compreendi: nunca mais deixaste de fugir. Ou de partir. (...) o nosso amor foi malfadado. Talvez por ser demais. Tanto que doía."
Manuel Alegre, A Terceira Rosa

céu nublado

Depois de uma manhã às voltas com papéis - legislação, que abomino! -, espera-me uma simpática tarde entre quatro paredes...
... e este raio de alergia que não me larga...
... e a Primavera que, afinal, se faz rogada...
Talvez compensem...
... uma aula de ioga (se conseguir ir!)...
.... a aula de teatro (se, por uma vez, me sair bem)...

segunda-feira, março 20, 2006

Celebrar...

... a Primavera:
... a floresta:
(Fotos: Ana)

...a poesia:

Pelo Sonho é que vamos, comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não haja frutos, pelo sonho é que vamos. Basta a fé no que temos, Basta a esperança naquilo que talvez não teremos.

Basta que a alma demos, com a mesma alegria, ao que desconhecemos e ao que é do dia-a-dia. Chegamos? Não chegamos? - Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

domingo, março 19, 2006

hoje deu-me pra isto...

Apodreceram, arrumadas a um canto, as palavras adiadas. Ladeiam-nas, apodrecidos também, gestos que guardámos para depois. Sonhámos dar às palavras a frescura orvalhada de um novo dia, ajustar os gestos... Adiámos a tarefa: somos paisagem contemplada de uma janela baça.

sábado, março 18, 2006

Pressa para quê?

De súbito começou a chover copiosamente. Os transeuntes refugiavam-se onde podiam. Todos corriam, a fim de escaparem àquela violenta carga de água. Todos fugiam, excepto um senhor que mantinha o passo inalterado. Nisto, um dos apressados, ao ver aquele sujeito tão calmo, não se conteve e interpelou-o:
- Desculpe meter-me onde não sou chamado, mas já reparou que está a chover? Não pretende estugar o passo?
- Pressa para quê - redarguiu o indivíduo - se lá à frente também está a chover?
O apressado embasbacou e continuou o seu caminho. O outro prosseguiu pausadamente sob a chuva. De repente, escorregou e caiu. Levantou-se, mas sem grandes aflições. Ao cabo de mais alguns passos, deu nova queda.
- Ai! - suspirou o homem - se era para cair de novo mais valia nem sequer me ter levantado.
in Histórias da Terra do Dragão

quinta-feira, março 16, 2006

enquanto não me ocorre mais nada...

Onde está o meu suor?
Num daqueles dias muito quentes, um gordo muito gordo, e não menos rico, não parava de transpirar; por isso decidiu chamar um dos seus criados para o refrescar com um enorme leque que jazia na varanda aos pés de uma cadeira de descanso.
O empregado obedeceu e o homem, que nadava em banhas e em dinheiro, recostou-se na cadeira de baloiço e deixou os pensamentos voar para bem longe. Não muito depois, o senhor verificou, com grande espanto, que toda a sua transpiração desaparecera; por isso apressou-se a perguntar:
- Onde está o meu suor?
O criado, enxugando as grossas gotas que lhe escorriam pela testa, respondeu muito calmo:
- Senhor, o seu suor está todo comigo!
in Contos da Terra do Dragão, Caminho

Obrigada, Hipatia!

Devo à generosa Hipatia a música de estreia na minha modesta casa: Marlene Dietrich's Favourite Poem, do álbum Deep (sim, está justificado, em parte, o meu nick!) de Peter Murphy.

quarta-feira, março 15, 2006

será crime?

Está um lindo dia de anunciada Primavera, quentinho, um convite à preguiça.. e eu, como muitos, presa entre quatro paredes...

terça-feira, março 14, 2006

smile!

Obrigada, Di! Isto fez-me sorrir...

que há-de ser de nós?

Já viajámos de ilhas em ilhas já mordemos fruta ao relento repartindo esperanças e mágoas por tudo o que é vento. Já ansiámos corpos ausentes como um rio anseia p’la foz já fizemos tanto e tão pouco que há-de ser de nós? Que há-de ser do mais longo beijo que nos fez trocar de morada dissipar-se-á como tudo em nada? Que há-de ser, só nós o sabemos pondo o fogo e a chuva na voz repartindo ao vento pedaços que hão-de ser de nós. Já avivámos brasas molhadas no caudal da lágrima vã e flutuando, a lua nos trouxe à luz da manhã. Reencontrámos lágrimas e riso demos tempo ao tempo veloz já fizemos tanto e tão pouco que há-de ser de nós? Que há-de ser da mais longa carta que se abriu, peito alvoroçado devolver-se-á: «endereço errado?» Já enchemos praças e ruas já invocámos dias mais justos e as estátuas foram de carne e de vidro os bustos. Já cantámos tantos presságios pondo o fogo e a chuva na voz já fizemos tanto e tão pouco que há-de ser de nós? Que há-de ser da longa batalha que nos fez partir à aventura? que será, que foi quanto é, quanto dura? Que há-de ser, só nós o sabemos pondo o fogo e a chuva na voz repartindo ao vento pedaços que hão-de ser de nós. Sérgio Godinho (com a participação de Ivan Lins) Quando me lembro de uma canção, sou mesmo chatinha: é todo o dia a mesma...

domingo, março 12, 2006

verdade ou teimosia?

Há alguns anos, tinha a ilusão que fazendo uso de argumentos "lógicos, claros, óbvios"... seria fácil convencer alguém a mudar atitudes que, na altura, me pareciam irracionais e desrespeitadoras.
Hoje continuo a ter como irracionais e desrespeitadoras atitudes e ideias de outros. Compreendi, contudo, que, tal como eu, eles estão convencidos das suas "verdades" e que, nem que seja por orgulho, não abdicam delas. Percebi, inclusive, que mostrar-lhes que estão errados só lhes aguça o orgulho e lhes cimenta a teimosia, criando barreiras à comunicação.
Ingénua (ou inexperiente), acreditava igualmente que, à medida que envelheciam, as pessoas se tornavam mais maduras, serenas e tolerantes. Tenho vindo a perceber que isso é a excepção não a regra e, sinceramente, começo a pensar que nunca deverei dizer "desta água não beberei"...

Parabéns!

sexta-feira, março 10, 2006

desejos de fim-de-semana...

Ah, que me metam entre cobertores, E não me façam mais nada!... Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada, Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores! Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado... Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira... Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira. (...) Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras, Se quiseres ser gentil, perguntar como estou. Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras... Nada a fazer minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.
Mário de Sá-Carneiro, Caranguejola (excertos)
Venham os bolos de ovos... a garrafa de Madeira fica adiada para quando passar a gripe...

quinta-feira, março 09, 2006

Ainda a neve

Hoje recebi esta foto, no correio. Foi tirada pela Di, na segunda-feira de Carnaval, num passeio que fizemos à Serra do Alvão.

quarta-feira, março 08, 2006

ser mulher

(Picasso, Mulheres Correndo na Praia)
A mulher. Ossos que procuram o calcário. País de sol. (...) Corpo que se busca através de líquidas viagens. (...) Animal de ondas nocturnas, levanta-se para percorrer os abismos. Ritmos de vertigem pulsam-lhe na aura dos seios. Líquido olhar de desejo. (...) Longe da casa, a mulher é ave. Longe da nuvem, a mulher é ferida. (...) O corpo da mulher é terra colonizada. Bravia. Torturada. O corpo da mulher é massa informe, arrastando-se pelas lagoas do silêncio. Águas paradas de íntima humilhação. Mulher que se ignora porque se foge. (...) Mulher acesa. Incendiada. Íntima. Mulher que te conquistas no silêncio do corpo que te afoga em luz. (...) Fenda. paisagem. Aurora. Para quando o salto transparente? Para quando o parto que te fará nascer de ti?
(Maria Graciete Besse, Mulher Sentada no Silêncio)

segunda-feira, março 06, 2006

educação

(Desconheço o autor da foto - um postal que me enviaram)
O nosso Primeiro Ministro visitou uma escola na Finlândia. Pretenderá implementar, em Portugal, em três dias, métodos que têm vindo a ser adoptados naquele país (como noutros países europeus) desde os anos setenta?

sábado, março 04, 2006

Declarações polémicas...

...neste vídeo, que "furtei" ao autor de A Origem das Espécies que, por sua vez, o "furtou" aO Insurgente.

quinta-feira, março 02, 2006

só porque me apetece...

Quando ficares velha e grisalha E cabeceares à lareira, pega neste livro E lê-o devagar, sonha com o olhar meigo E com a sombra outrora nos teus olhos; Quantos amaram os teus momentos de feliz encanto E a tua beleza com amor falso ou autêntico. Além daquele homem que amou em ti a alma peregrina E as tristezas que alteravam o teu rosto; E curvando-te mais sobre o quente da lareira Murmura, um pouco triste, como o Amor fugiu E caminhou sobre as montanhas bem lá no alto E escondeu o rosto na multidão de estrelas.
W. B. Yeats

quarta-feira, março 01, 2006

Parabéns a você...

Se este ano fosse bissexto, o dia que agora desponta seria 29 de Fevereiro, o dia de aniversário da Ana. Parabéns, maninha! PS. - Espero que gostes das flores - foi difícil, mas encontrei as tuas preferidas!