quarta-feira, dezembro 21, 2005

História antiga

Era uma vez, lá na Judeia, um rei. Feio bicho, de resto: Uma cara de burro sem cabresto E duas grandes tranças. A gente olhava, reparava e via Que naquela figura não havia Olhos de quem gosta de crianças. E, na verdade, assim acontecia. Porque um dia, O malvado, Só por ter o poder de quem é rei Por não ter coração, Sem mais nem menos, Mandou matar quantos eram pequenos Nas cidades e aldeias da nação. Mas, Por acaso ou milagre, aconteceu Que, num burrinho pela areia fora, Fugiu Daquelas mãos de sangue um pequenino Que o vivo sol da vida acarinhou; E bastou Esse palmo de sonho Para encher este mundo de alegria; Para crescer, ser Deus; E meter no inferno o tal das tranças, Só porque ele não gostava de crianças. (Miguel Torga) Votos de um Natal Muito Feliz a todos os que baterem ou passarem à minha "porta"!

segunda-feira, dezembro 19, 2005

exageros

É impressionante como as "americanices" tomam conta do país, usurpando, num ápice, o lugar das antigas e menos folclóricas tradições de Natal portuguesas.
Gosto de ver as casas e as ruas com ar natalício, amenizando o frio, mas sem os exageros que hoje em dia ferem a vista.
No lugar onde vivo, essas pseudo-manifestações natalícias nascem de ano para ano como cogumelos. E encontramo-las para todos os gostos: presépios em tamanho natural, renas penduradas, também em tamanho natural, luzes "pisca-pisca" de todas as cores a ornamentar, não uma, mas várias árvores dos jardins particulares, o pai-natal a subir pelas varandas, entre outras que agora não me ocorrem.

sexta-feira, dezembro 16, 2005

notícias do frio

Imagem de António Resende Se o frio significar Natal, garanto que, por cá, já estamos em festa. Saí do trabalho por volta das 20horas e, quando cheguei ao estacionamento, o meu carro tinha uma fina camada de gelo em cima. Entrei em casa há pouco menos de uma hora e continuo a tiritar, apesar de ter ligado o aquecimento quase no máximo.
Este Inverno lembra-me os da minha infância. Nesse tempo, os carros não tinham ar condicionado, por isso viajar era verdadeiro sacrifício. As pontas dos dedos dos pés e das mãos doíam de tão gelados.
Recordo-me que, num dia de apanha de azeitona, perdi a boleia e tive que ir para o campo a pé. Agasalhei-me convenientemente, mas não evitei que uma mecha de cabelo que ficara desabrigada congelasse.
Amanhã, que é dia de apanha de azeitona, espero não perder a boleia...

perversidade

Fico triste e sinto-me impotente perante situações de violência, sobretudo quando esta é "gratuita".
No recreio de uma escola, um aluno crescido, em tamanho e em idade, resolveu intervir numa briga entre colegas mais novos. Não o fez para apaziguar os ânimos. Pelo contrário, decidiu, num puro acto de violência, e valendo-se do facto de ser mais "forte", atirar ao chão um dos colegas implicados na briga. Fê-lo com tal brutalidade que o mais novo caiu inconsciente no chão. Da queda resultaram um traumatismo craniano, um braço e uma perna imóveis e talvez outras complicações que os demorados exames ( o interior continua longe de tudo!) hão-de confirmar ou negar.
Ao agressor foi aplicada uma suspensão de cinco dias e uma breve passgem pelo posto da GNR local.

quarta-feira, dezembro 14, 2005

memórias do verão passado

O frio que por estas bandas se faz sentir (3,5 graus às 10h00 da manhã, quando não menos), só pode fazer apetecer o Verão!

terça-feira, dezembro 13, 2005

Natal : aliança do religioso e do profano

Ao contrário do que possamos pensar, grande parte dos símbolos e costumes que hoje associamos ao Natal têm origem profana, são anteriores ao Cristianismo e resultaram da absorção de outras culturas pela ideologia cristã. O Natal, festa consagrada ao espírito da casa e da família, significou para os nossos antepassados (talvez não muito remotos) a confraternização com os vivos e a evocação dos mortos queridos. A ligação da festa do nascimento de Jesus ao culto dos mortos parece ser o resultado da assimilação de primitivos rituais profanos pela mitologia cristã, que lhes atribuiu novos significados. Era costume, em determinadas regiões do nosso país, nomeadamente no Minho e no Porto, por altura do Natal, proceder a certos rituais que evocavam os mortos. Um desses rituais consistia em colocar na mesa um talher num lugar destinado ao familiar falecido em data mais recente ou em duplicar a ceia de Natal numa sala à parte. Um dos mais curiosos consistia na colocação, na soleira da porta, de um prato com pedaços de cada um dos alimentos de que se compunha a ceia. Acreditava-se que as almas viriam em forma de borboletas, negras ou brancas (conforme vinham do céu ou do inferno), sendo necessário indicar-lhes o caminho com uma luz, no momento em que se colocava o prato na porta. Igualmente relacionado com o culto dos mortos parece estar o costume dinamarquês, com equivalente no nosso país, de dormir na palha na noite de Natal, permitindo que os mortos, que comparecem nessa noite, se deitem e durmam nas suas camas, daquela forma desocupadas. Também o hábito de enfeitar pinheiros na quadra do Natal começou por ser pagão, este de origem germânica. Os germânicos concebiam as árvores, em especial o carvalho, como divindades protectoras. Acreditavam que o facto de, no Inverno, as árvores ficarem despidas, os tornava a eles próprios mais permeáveis ao mal. Resolveram, por isso, começar a enfeitar as suas árvores com pedras pintadas e fitas de tecido, pensando que deste modo dariam solução ao problema. No período de conversão destes povos, os cristãos convenceram-nos a substituir o carvalho pelo abeto, uma vez que, pela sua forma triangular, permitiria simbolizar a Santíssima Trindade. Aos poucos, o abeto foi, por sua vez, substituído por outras árvores de formato semelhante, entre elas o pinheiro.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

sorte relativa

Vou deixar de ler horóscopos, ou pelo menos aqueles de origem duvidosa! "O dia favorável é a 2ª-feira." Se é dia de sorte chegar ao carro e deparar com uma multa no pára-brisas... De facto, a vida é mesmo assim: tudo acontece - o bom e o mau - quando menos esperamos.

contra a corrente

E alguém disse: Fala-nos de Amor. - Quando o Amor vos fizer sinal, segui-o; ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. E quando vos falar, acreditai nele; apesar da sua voz poder quebrar os vossos sonhos como o vento norte ao sacudir os jardins. Porque assim como o vosso amor vos engrandece, também deve crucificar-vos. E assim como se eleva à vossa altura e acaricia os ramos mais frágeis que tremem ao sol, também penetrará até às raízes sacudindo o seu apego à terra. Como braçadas de trigo vos leva. Malha-vos até ficardes nus. Passa-vos pelo crivo para vos livrardes do joio. Mói-vos até à brancura. Amassa-vos até ficardes maleáveis. Então entrega-vos ao seu fogo, para vos transformar em pão sagrado no festim de Deus. Tudo isto vos fará o amor, para vos fazer entender os segredos do vosso coração, e por esse conhecimento vos tornar no coração da vida. Mas, se no vosso medo, buscais apenas a paz do amor, o prazer do amor, então mais vale cobrir a nudez e sair do campo do amor, a caminho do mundo sem estações, onde podereis rir, mas nunca todos os vossos risos, e chorar, mas nunca todas as vossas lágrimas. O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo. O amor não possui nem quer ser possuído. Porque ao amor basta o amor. Não podeis guiar o curso do amor; porque o amor, se vos escolher, marcará ele o vosso curso. O amor não tem outro desejo senão consumar-se. Mas se amarem e tiverem desejos, deverão ser estes: Fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite. Conhecer a dor excessiva da ternura. Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar de bom grado e alegremente. Acordar de manhã com o coração cheio e agradecer outro dia de amor. Descansar ao meio dia e meditar no êxtase do amor. Voltar a casa ao crepúsculo e adormecer tendo no coração uma prece pelo bem amado, e na boca, um canto de louvor. (Khalil Gibran) Gosto de poemas de amor, mas, por norma, menos metafóricos, talvez por ter vergonha de parecer lamechas e ridícula. Hoje resolvi quebrar a regra, porque o meu coração começa a quebrá-la também...

quarta-feira, dezembro 07, 2005

conta-mo outra vez

Conta-mo outra vez: é tão bonito que não me canso nunca de escutá-lo. Repete-me outra vez que o par do conto foi feliz até à morte. Que ela não lhe foi infiel, que a ele não lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças de que, apesar do tempo e dos problemas, continuaram beijando-se cada noite. Conta-mo mil vezes por favor: é a história mais bela que conheço. (Amália Bautista) Votos de Muitas Felicidades para o J. e a I., que oficializam a sua relação amanhã, dia 8 de Dezembro.

segunda-feira, dezembro 05, 2005

já não sei se gosto do Natal

Estou indignada... mais do que isso, chocada! Um livro de preço modesto não pode ser uma simpática prenda de Natal? Desde quando é que o valor das prendas ( e ainda mais tratando-se de livros) se mede pelo tamanho, pelo volume ou pelo preço? Fiquei verdadeiramente chocada e Sophia também teria ficado se ouvisse os comentários que surgiram a propósito do seu belíssimo e sábio O Cavaleiro da Dinamarca.

domingo, dezembro 04, 2005

"Nunca ha creído en brujas, per que las hay, hay..."

Pra começar, que me desculpem os castelhanos e aqueles que falam a língua de "nuestros hermanos" por qualquer erro! A verdade é que ando intrigada com este blog: ora desaparecem coisas, ora surgem outras que não resultam da minha vontade!... Eu sei bem o que estão a pensar: "Lá anda a tipa outra vez convencida que percebe alguma coisa de blogs!".
Aviso: se tiverem que me apelidar de alguma coisa, socorram-se de eufemismos. O meu estado de espírito de domingo-à-tarde-véspera-de-segunda-dia-de-trabalho não aguentará os adivinhados insultos!

sexta-feira, dezembro 02, 2005

porto de saudade

Esta manhã ocorreu-me que já não vou à "Inbicta" há algum tempo (2, 3 meses?). Não me perdoarei se perder a iluminação de Natal da Baixa ou o cheiro a castanhas assadas (será a primeira vez em muitos anos!).
De súbito, a vontade tornou-se obsessão: tenho que ir ao Porto, tenho que ir ao Porto, tenho que ir ao Porto, tenho que ir ao Porto... O problema é mesmo tempo...

cumplicidade

A Natureza manifesta a sua raiva. A chuva, lá fora, cai impiedosa (mas abençoada), numa sinfonia que contrasta com o ambiente confortável do espaço em que, a esta hora da madrugada, ainda trabalho.
Não consigo, por mais que tente, por mais cedo que tenha que acordar, perder este hábito estúpido (???) de me deitar quando já é madrugada. Está nos genes - a avaliar pela mania que a minha mãe e as irmãs têm de inventar coisas para fazer só para não se deitarem cedo.
Tenho sempre a sensação que, se dormir mais, estou a perder tempo. A madrugada, mais do que um momento do dia, é um ser que se materializa, em que encontro conforto, cumplicidade, numa relação egoísta, que não permite a entrada de outros elementos. De madrugada, as ideias tornam-se mais claras, as palavras adquirem outra fluidez...

quinta-feira, dezembro 01, 2005

irritações

Ainda não consegui perceber por que raio as publicações são diferentes do "preview"! Oa poemas de Pessoa, por exemplo deveriam ter uma linha de intervalo entre as estrofes!

homenagem com um dia de atraso

Fernando Pessoa morreu há 70 anos e um dia. Não vou dizer que Pessoa seja o meu poeta de eleição, direi, antes, que me identifico, dependendo dos momentos, com muito do que ele escreveu. Pela genialidade dos seus escritos, pela modernidade e sensibilidade que neles perpassa, é merecida qualquer homenagem ao Poeta, mesmo a mais modesta.
Inultimente vivida
Acumula-se-me a vida
Em anos, meses e dias;
Sem dores nem alegrias,
Mas só em monotonias
De mágoa incompreendida...
Mágoa sem fogo de vida
Que a faça viva e sentida;
Mas as mágoas de manhãs frias
E inaptas para a arte ou lida,
Nem pra gestos de agonias
Ou mostras de alma vencida.
Nada: inerte e dolorida,
A minha dor se extasia
Por não ser, e tem só vida
Para em torno da noite fria
Sentir vaga e indefinida...
******
Intervalo
Quem te disse ao ouvido esse segredo
Que raras deusas têm escutado -
Aquele amor cheio de crença e medo
Que é verdadeiro só se é segredado?...
Quem to disse tão cedo?
Não fui eu, que te não ousei dizê-lo.
Não foi outro, por que o não sabia.
Mas quem roçou da testa teu cabelo
E te disse ao ouvido o que sentia?
Seria alguèm, seria?
Ou foi só que o sonhaste e eu te sonhei?
Foi só qualquer ciúme meu de ti
Que o supôs dito, porque o não direi,
Quem o supôs feito, porque o só fingi
Em sonhos que nem sei?
Seja o que for, quem foi que levemente,
A teu ouvido vagamente atento,
Te falou desse amor em mim presente
Mas que não passa do meu pensamento
Que anseia e que não sente?
Foi um desejo que, sem corpo ou boca,
A teus ouvidos de eu sonhar-te disse
A frase eterna, imerecida e louca -
A que as deusas esperam da ledice
Com que o Olimpo se apouca.