quarta-feira, setembro 13, 2017

As mulheres

Mero devaneio nascido de impressões, não de certezas...

Nas lentas tardes da infância,
as mulheres desfiam histórias
de sofrimento antigo.

Num gesto mecânico,
as mãos, engelhadas e côncavas,
como garras de rapina,
abandonam o regaço,
para ajeitar a travessa do cabelo.

Sentadas nas toscas escaleiras de xisto,
trocam confidências e mezinhas,
receitas e rezas, as mulheres.

Com desvelo,
vêem crescer os filhos e as trepadeiras,
rente às paredes,
ao abrigo da canícula.

Pacientes, aguardam que o pão levede
nas masseiras e que a roupa aclare ao sol.
Com a mesma paciência,
perdoam aos homens,
eternos meninos inconsequentes,
as traições, as demoras
e os filhos em ventres alheios.

No interior das casas, a luz que entra
pelas telhas de vidro
ilumina os objectos quotidianos
que repousam sobre o oleado da mesa
e sobre o velho escano.

Nas lentas tarde da infância,
os homens marcam encontro na taberna
onde entornam copos de vinho
e jogam ao chincalhão e à batota,
esquecidos das mulheres
que os esperam,
com a mesa posta,

depois das ave-marias.

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