quinta-feira, abril 27, 2017

Vã tentativa

No mês passado, ocorreu-me escrever um conto infantil. Depois de várias tentativas, resultou uma narrativa incompleta.
Se alguém tiver paciência para ler...

O lápis que queria mudar de nome


Imagem de Robert Doisneau

        - Pareces um pouco infeliz, lápis.
            - Oh... Afia, tu também falas? Há dias que me perguntava, fechado neste estojo estreito, apertado entre todo o material de escrita e desenho, se seria o único capaz de falar.
            - Todos falamos, mas, como foste o último a chegar e nos pareceste triste, ficámos mudos, sem saber o que te dizer.
            - Ah, assim fico mais feliz. As conversas convosco poderão, certamente, ser mais divertidas. Na fábrica onde nasci, tudo era monótono. Os lápis eram todos iguais a mim, tinham o mesmo nome, o mesmo tamanho e as mesmas cores. Por que raio não têm os lápis nomes como as pessoas ou os cães? Na caixa onde me embalaram na fábrica e na prateleira da papelaria onde me puseram à venda, todos tinham, como eu, o nome de HB, e todos estávamos pintados de amarelo e preto com o topo vermelho.
            - Olha lá, HB... Hummm... Gosto do teu nome! Bem, ia perguntar-te se todos os HB que conheces têm essas características. – quis saber a esferográfica azul.
            - Percebi, quando, na papelaria, se enganaram na prateleira, que há HB vestidos de outras cores e que alguns têm no topo uma borracha. Pergunto-me: quem quer uma borracha no topo? Lápis e borrachas não serão inimigos? Como pode um lápis conviver intimamente com uma borracha que fica feliz quando apaga o que o lápis escreve?
            - Vê as coisas pelo lado positivo. As borrachas, por vezes, apagam para aperfeiçoar o trabalho dos lápis, para os obrigar a serem mais exigentes consigo próprios.
            - Talvez tenhas razão... não tinha pensado nisso. Esta conversa começa a ser produtiva.
            - Imagino, HB, que ser aparado pelo afia seja bem pior do que ver o trabalho apagado pela borracha...
            - Na verdade, Esferazul... Posso chamar-te assim?
             - Claro! Nunca ninguém me tinha dado um nome tão simpático. Até fico comovida.
            - Na verdade, como estava a dizer, por vezes, até se torna divertido, porque me faz cócegas. Não imaginam como é difícil não desatar às gargalhadas. Chego até a esquecer-me de que vou ficar mais pequeno.
            - Gostas do nosso dono? – perguntou a borracha que, até então, tinha estado calada.
            - Sim, bastante. Ainda o conheço há pouco tempo, mas já percebi que é um miúdo cuidadoso e com muita imaginação. Como tenho o hábito de deslizar suavemente pelo papel, prefere-me a outros lápis.
            Fico feliz quando ele me aperta entre os dedos e começa a inventar histórias de aventuras com personagens fantásticas ou quando descreve os lugares que conheceu ou para onde gostaria de viajar.
            Quando fica pensativo, costuma levar-me à boca e apertar-me entre os dentes. Felizmente, fá-lo sem me apertar. Estão as ver estar marcas no meu corpo? Nem que quero lembrar do dia em que isto me aconteceu.
            O miúdo deixou-me, durante alguns minutos, pousado na mesa da sala. Bastaram uns segundos para que eu rolasse para o chão. A queda foi emocionante, como foi bom ter caído em cima do tapete fofo, mas, de repente, senti-me preso. Teria sido o meu fim, se o miúdo não tivesse gritado «Nero, seu safado, larga o lápis, vais estragá-lo!». Assim, fiquei apenas com umas marcas.
            Já dei conta, porém, que não sou grande ajuda nos problemas de Matemática. O miúdo passa o tempo a pedir ajuda à borracha, para apagar o que eu escrevo. Ela é que se diverte! Percebe-se que ele prefere escrever histórias e desenhar. Ah! Vós não imaginais como fico feliz quando ele pega em mim para desenhar! Há dias, desenhou a paisagem que vê da janela do quarto. Soube-o porque a irmã lhe perguntou o que estava a fazer.
            Nesta família todos parecem gostar de mim. O pai, quando me vê por perto, serve-se de mim para fazer as palavras cruzadas do jornal. Graças a isso, vou adquirindo algum vocabulário.
            Ainda ontem, a mãe me usou para passar para um caderno uma receita que viu num programa de televisão. Até eu, que não preciso de comer, fiquei com água na boca!
            Uma destas noites, quando já todos dormiam, fui, de certa forma, confidente da irmã. Soube, porque ela escreveu uns desabafos num caderninho de capa dura e de elástico que tirou da carteira, que estava magoada com alguém. Fiquei comovido, palavra que fiquei comovido! Não gosto de histórias tristes. Deliro com aventuras ou com situações divertidas, mas abomino histórias tristes. Deixam-me deprimido.


...

5 comentários:

Lídia Borges disse...


Conversas à solta num porta-lápis.
Eu gosto muito destas histórias de apelo à imaginação e à criatividade. O mal é que hoje os livros para crianças "têm" agora de ter pouco texto e muita imagem, como se todos os meninos e meninas sofressem de novos e estranhos défices de concentração.

Eu sei que os meninos e meninas apreciam bem este tipo de narrativa.

Um beijo

Lídia

deep disse...

Lídia, sinto que não consegui dar a esta história a leveza que gostaria e que podia torná-la apelativa e tenho pena. Li-a à minha sobrinha de 6 anos que não só reteve e gostou, como já me perguntou várias vezes se já terminei a história do lápis, algo que me deixa menos desanimada.

Já vi, pelas fotos, que a sessão de apresentação do novo livro da Virgínia correu bem. Fiquei com pena de não poder assistir.

Bom resto de fim de semana. Beijo

Isabel Pires disse...

Gostei muito, até podia acabar assim... Mas se dizes que está inacabado, mãos à obra.
Um beijo, deep!

Lídia Borges disse...


Boa tarde! Procurei-a lá, sabe?

Um beijo

Lídia

Deve terminar a história, sim. Tanto mais que tem já uma leitora importante à espera. :)

deep disse...

Isabel, obrigada. Logo que tenha inspiração, que anda em falta por aqui, termino-o.
Um beijo.

Lídia, tive pena de não ir, mas foi-me de todo impossível.
Beijo