segunda-feira, março 13, 2017

Meditação sobre os poderes


Rubricavam os decretos, as folhas tristes
sobre a mesa dos seus poderes efémeros.
Queriam ser reis, czares, tantas coisas,
e rodeavam-se de pequenos corvos,
palradores e reverentes, dos que repetem:
és grande, ninguém te iguala, ninguém.
Repartiam entre si os tesouros e as dádivas,
murmurando forjadas confidências,
não amando ninguém, nada respeitando.
Encantavam-se com o eco liquefeito
das suas vozes comandando, decretando.
Banqueteavam-se com a pequenez
de tudo quanto julgavam ser grande,
com os quadros, com o fulgor novo-rico
das vénias e dos protocolos. Vinha a morte
e mostrava-lhes como tudo é fugaz
quando, humanamente, se está de passagem,
corpo em trânsito para lado nenhum.
Acabaram sempre a chorar sobre a miséria
dos seus títulos afundados na terra lamacenta.

José Jorge Letria, Quem com Ferro Ama

2 comentários:

Graça Pires disse...

Sou fã da poesia de José Jorge Letria. Muitos livros dele constam da minha estante de poesia. Este poema, é excelente como sempre.
Uma boa semana.
Beijos.

deep disse...

Também gosto bastante da poesia do autor, Graça.

Uma semana boa também para si. :)

Beijos