domingo, dezembro 04, 2016

Traduzir-se


Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Do poeta brasileiro Ferreira Gullar (José Ribamar Ferreira), que partiu hoje, com 86 anos, e que foi, em 2010, agraciado com o Prémio Camões.

4 comentários:

conta corrente disse...

Nunca tinha lido e gostei Muito!

Obrigado

deep disse...

De nada, CC. :)

Boa semana.

Lídia Borges disse...


Gosto deste poema (musicado), interpretado pela Adriana Calcanhoto. Gosto deste poema de qualquer maneira...

Os poetas não morrem, mas deixam de escrever... É triste!

Beijo

Lídia

deep disse...

Fica-nos a obra, Lídia. :)

Beijo