terça-feira, setembro 27, 2016

Das memórias boas...


Resgato do baú um texto com alguns anos.

Assomo à varanda. Aqui é impossível não acreditarmos que a Terra é redonda. É difícil não nos sentirmos extasiados com tamanha beleza. O olhar, que, em dias claros, se perde pelos montes até ao planalto, embate agora numa cortina de água.

Num plano mais próximo, campos de verde novo alternam com terras recentemente lavradas.
Aproximo o olhar, que agora se fixa nos caminhos estreitos de terra batida, ladeados de muros de xisto que, como tentáculos, se estendem até às hortas, aos pomares, aos soutos, só depois aos olivais.
Sob a chuva miudinha, que se entranha no empedrado das ruas desertas (essas ruas que já foram de lama e de xisto e onde rolaram alegres carros feitos de tábuas e de rodas de charrua), nas árvores e nos telhados, e o fumo que se desprende das chaminés das poucas casas ainda habitadas, a aldeia é um ser melancólico e solitário, ofendido com a indiferença dos homens que se recolhem no calor das lareiras, no agasalho das casas. Também lhe viro as costas, quando um frio húmido me chega aos ossos. 
Sento-me no velho e pesado escano de madeira, em frente à lareira, onde pedaços de grossos troncos ardem. Memórias antigas teimam em roubar-me ao presente. O sabor inigualável da sopa de feijão vermelho que a tia cozinhava, à lareira, em panela de ferro. O aroma do café de mistura que se exalava do pote de barro preto. O tio que respondia em frases rimadas e que usava sempre colete, de cujo bolso pendia a corrente de um relógio. O rádio Westinghouse do tio que ele guardava tão religiosamente que só o víamos - e ouvíamos - quando coincidia a nossa visita com a hora do noticiário ou do terço. Os almanaques que, com o tempo, passámos a conhecer de cor. As conversas demoradas à lareira.
As histórias de tempos difíceis, de pobreza, de partilha e de bondade, apesar de tudo...

3 comentários:

© Piedade Araújo Sol disse...

um texto cheio de memórias
e isso é bom
é bom ter e relembrar

boa semana.

beijinho

:)

Lídia Borges disse...


Gosto de ler tudo, aqui. Das palavras sai um aroma tão bom, tão nosso!

Um beijo

Lídia

deep disse...

Piedade, as memórias salvam-nos, são histórias que contamos a nós próprios e que aliviam o peso do presente.

Beijinho e boa semana.:)


Lídia, muito obrigada. Fico contente que goste do que lê. :)

Um beijo