segunda-feira, junho 13, 2016

Take 4


Há quanto tempo não confessara ela o amor desta forma, directa e desnudada? Há quanto tempo a sua pele não ansiara por outra pele de que guardava a memória? Pele, textura, cheiro... Tudo estava ainda gravado em si como uma vivência recente.
De que lhe servira esse desnudar da alma e do coração? Sentia que se expusera somente à intempérie, de que fora inútil perder o medo, sair do seu casulo, abandonar a carapaça. Talvez tão somente para se sentir viva, para saber que ainda seria capaz de amar.
De que lhe servia agora amar até ao desespero, amar no limiar de uma dor quase física?
Sentia que sempre lhe faltava o quase (lembrou-se de Mário de Sá-Carneiro e do seu "Quase", que conhecia e amava desde a adolescência) e que não caíra em graça ao deus Eros ou à deusa Vénus. Deu-lhe vontade de os insultar, de lhes chamar arrogantes e prepotentes, de os culpar por terem sido desleixados na instrução dos afectos.

19/01/2016

Capítulo 4 de um "devaneio" que teve início aqui e continuou aqui e aqui.

7 comentários:

CCF disse...

É, sem dúvida, difícil, às vezes doloroso. Mas que seria de nós sem isso? Continuo a achar que amar alguém é a nossa maior generosidade.
Beijinho
~CC~

deep disse...

«Tudo vale a pena/Se a alma não é pequena./ Quem quer passar além do Bojador/Tem de passar além da dor.», não é CC? Pessoa vem a calhar. :)

Beijinho

Hipatia disse...

«Um pouco mais de sol - e fôra brasa,
Um pouco mais de azul - e fôra além.
Para atingir, faltou-me um golpe de aza...
Se ao menos eu permanecesse àquem...»

Devaneia para aí. A gente agradece :)

deep disse...

Um dos meus preferidos esse "Quase", Hipatia. Obrigada! :)

Luis disse...

o amor não se confessa não se dá, não se fala, não tudo
fica o resto tudo

deep disse...

Então, Luís? :)

luisa disse...

Estamos sempre numa constante busca desse Amor que tantas formas, pesos e medidas tem.
:)