quinta-feira, dezembro 10, 2015

Da elegância

«O caso, segundo se relata, foi, por exemplo, assim: uma velha, de madrugada, viu sair uma víbora de debaixo de uma pedra: a víbora desatou a correr para baixo, como podia ter desatado a correr para cima; mas o que viu o correeiro da Rua de São Roque já não foi uma víbora, mas sim uma cobra de razoável tamanho, que também desatou a correr para cima ou para baixo, a direcção não consta. A beata que saía de São Ginés, de ouvir a missa da alba, viu um verdadeiro cobrão que, esse sim, ia a caminho do Paço, mais coisa menos coisa; e, finalmente, alguém da Guarda Valona que ia para o serviço ou vinha dele, o que pôde contemplar, atónito ou esbugalhado, foi uma gigantesca boa que rodeava o Paço (...) e parecia apertar o edifício com ganas de o derrubar, ou pelo menos de o espremer, o que parecia mais verosímil, pelo menos do ponto de vista da semântica.»

Gonzalo Torrente Ballester, Crónica do Rei Pasmado

«A literatura encontra sempre forma de retratar a realidade», penso, ao lembrar-me de um pequeno incidente desta manhã, que me provou, mais uma vez, que a conta bancária, a elegância de fato e a formação académica nada dizem sobre a elegância no trato e o carácter das pessoas. Mas isso fica para depois, que agora o dever chama-me.