segunda-feira, novembro 02, 2015

Ao pé coxinho

Oiço, pela enésima vez, “A strange kind of love” do Peter Murphy, uma das “minhas” músicas, e penso como são estranhas algumas relações, de amor ou de amizade. São relações que se alimentam da distância, que seriam óptimas para uma das partes se os amantes ou amigos estivessem sós numa ilha deserta. Sem o peso da rotina, sem obrigações, sem o convívio obrigatório com a família e os amigos de parte a parte. Amores e amizades estranhos que só podem sobreviver se uma das partes ceder aos caprichos da outra parte, que só respiram se uma das partes der espaço e tempo à outra parte, sem contrapartidas.
A música chega ao fim e eu pergunto-me se podemos chamar amor ou amizade, ainda que “estranho”, a esse sentimento que, além de tudo o mais, é só de vez em quando, que, não raras vezes, prescinde da presença física, da convivência, do tempo partilhado.

A experiência, sobretudo a dos outros, diz-me que há relações assim, que se fazem ao pé coxinho, sem que o outro pé participe de forma ativa na caminhada e que, apesar das limitações, duram anos.


8 comentários:

Laura Ferreira disse...

dava pano para mangas... :)

deep disse...

Se dava, Laura. :)

Isabel Pires disse...

Primeiro, gosto imenso da música.
Pois... Não parece haver uma única resposta.
Quando falas em distância, não sei exactamente a que tipo te referes. Se for feita de momentos em que cada um "utiliza" mais do seu tempo de maneira mais egoísta porque tem mais necessidade de se reconstruir dessa forma, pode funcionar bem. Quanto às designadas relações à distância, cada vez acredito menos num figurino desse tipo que funcione bem.
Ao pé coxinho? Tudo depende da fasquia de cada um.
Gostei muito deste texto, deep.
Beijo

deep disse...

Isabel, refiro-me a uma distância efectiva, feita de quilómetros, que pode não ser determinante para outro tipo de distância, mas que o é muitas vezes.
Sobrevivência de relações depende, como dizes, da fasquia de cada um.

Obrigada. Beijo

nêspera disse...

É possível manter uma grande intimidade e uma imensa cumplicidade numa relação à distância quilométrica. E o reencontro, meu Deus, é divino! ;)

Beijo :)

deep disse...

nêspera, acredito que seja possível, quando há vontade das duas partes.:)

CCF disse...

Deep, os quilómetros não são realmente o mais importante, às vezes eles afastam, outros aproximam. Pessoas que vivem juntas podem estar muito distantes e pessoas que vivem à distância uma da outra podem estar próximas. Uns deixam as famílias de fora porque querem um amor só deles, sem contaminações com relações de outro tipo, outros, mesmo vivendo à distância, incluem as famílias. O que importa é que ambos se sintam bem e que não seja um a ceder aos ditames relacionais do outro, sem acreditar nem querer o mesmo, isso é que realmente importante e é que o teu último parágrafo deixa entender, esse desequilíbrio é que pode gerar infelicidade, tudo o resto acho que não.
~CC~

deep disse...

CC, o importante, como referes, é que o desequilíbrio não gere infelicidade. Tudo o resto - a distância, a presença ou ausência de outros afectos, etc. - pode ser secundário, desde que aceite por ambos.

Beijo