quarta-feira, novembro 11, 2015

A propósito do dia



Fez-se à estrada, quando o dia bocejava ainda, na esperança de esvaziar a alma e o coração de sentimentos gastos, de dar ao quotidiano outros rostos e outras vozes.
Deixou para trás um mundo de coisas “urgentes” que decidiu adiar. «Por vezes, é preciso parar.»- pensou - «Cansar o corpo, para percebermos que ainda temos alma.»
Em silêncio, entregou-se ao trabalho. Sabia que, por falta de hábito, os músculos começariam a dar sinal. Ignorá-los-ia – decidiu.
Minuto após minuto, hora após hora, apenas o som dos frutos a cair uns sobre os outros, o rumorejar das folhas, o grasnar de um corvo se atreviam a cortar o silêncio, luminoso como o dia.
E, à medida que o tempo se escoava, apercebeu-se, com contido júbilo, que o pensamento se esvaziara, que a alma se tornara mais leve, embora não tanto que não desse por ela.
Instintivamente, moveu a cabeça na direcção da Serra. Ali estava ela, como sempre, desde que se lembrava: generosa, maternal e cúmplice. Fechou os olhos por instantes e deixou que um morno e terno abraço a inundasse de energia. Como um beijo doce, uma leve brisa varreu-lhe as pálpebras, brincou com o cabelo.
Revigorada, plena de energia telúrica, fincou os pés no chão, dobrou de novo as costas e restituiu ao trabalho as mãos que, por breves segundos, haviam permanecido inertes. Gestos mecânicos conduziram-na até ao fim do dia.
De regresso a casa, alguns picos nos dedos, os músculos doridos, a certeza de uma semana de trabalho abateram-se sobre ela como uma sentença sem possibilidade de fiança.


deep, Novembro de 2007

4 comentários:

Isabel Pires disse...

Uma história cheia de significados.
"Cansar o corpo, para percebermos que ainda temos alma." - Muito interessante. ÀS vezes é preciso, sim.
Um beijo, deep.

Isabel disse...

Gostei do texto.
Às vezes temos dias assim!

Um beijinho e continuação de um bom dia de S. Martinho:)

Mar Arável disse...

Por vezes fechamos os olhos
para ver memórias vivas

Bj

deep disse...

Isabel Pires, por vezes, o trabalho do campo, ainda que me deixe toda dorida, funciona como uma terapia para a cabeça. Obrigada. :)
Beijo

Isabel, obrigada. :)

Um beijinho e um bom S. Martinho também para ti

Ao contrário de Caeiro... :)

Beijo