terça-feira, novembro 04, 2014

Personagens cúmplices

Embora seja um lugar comum dizer-se que os livros são boa companhia, que são amigos indispensáveis, só há dias tomei verdadeiramente consciência de que, quando leio, também o faço para me sentir mais acompanhada. Não são concretamente os livros, ou as histórias narradas, que me servem de companhia, mas as personagens.
Nas minhas últimas leituras - A invenção do amor, de José Ovejero, e Elegia para um americano, de Siri Hustvedt, os narradores, que assumem, simultaneamente, os papéis de protagonistas, são homens que vivem sós, o primeiro (Samuel) solteiro, o segundo (Erik) divorciado. Leio as suas narrativas, adivinho-lhes as vozes e imagino como seria assumir o papel da vizinha ou amiga, que partilha confidências e reflexões, no terraço de Samuel, com vista sobre Madrid, ou na sala da casa de tijolo vermelho de Erik, numa zona residencial de Nova Iorque. 
Recentemente, cedi aos encantos de Vasco, o narrador autodiegético de Pretérito Perfeito, da Raquel Serejo Martins, e noutros tempos, aos de Holden, o protagonista do The Catcher in the Rye, de J. D. Salinger, sobre o qual escrevi recentemente, e de Larry, personagem principal de O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. O primeiro encantou-me, talvez, pela fragilidade e pela aura de bom rapaz, o segundo pela irreverência e pela imaturidade, o terceiro pelo desejo de liberdade e pela personalidade misteriosa.
A cumplicidade que estabelecemos com as personagens não finda com o fim das leituras. Há personagens que nos acompanham ao longo dos anos e que, em certa medida, nos transformam. Porque nos espelhamos nelas e nos colocam num frente a frente com os nossos fantasmas, porque são aquilo que desejaríamos ser, porque sentimos que, em certas alturas,são as únicas "pessoas" capazes de nos compreender.

4 comentários:

Mar Arável disse...

Na verdade a realidade concreta e objectiva só é desejada quando a recriamos tão longe aqui tão perto que nem lhe podemos tocar,

Bj

deep disse...

Por vezes, é mais fácil viver com a ficção e com as "pessoas" que a habitam, Mar Arável. :)

Bj

Isabel disse...

"Vivemos" um pouco com as personagens, enquanto vamos lendo as suas histórias.

Boa semana:)

deep disse...

Isabel, assim é. Por vezes, são companheiras, outras o nosso alter ego.
Boa sexta-feira. :)