quinta-feira, novembro 13, 2014

Como se «pareciera que están lavando el mundo»


Concedo-me um momento. Um momento que, ainda que possa ter o testemunho de outras pessoas, é só meu. A chuva, que hoje insiste em povoar-nos as horas, não permite grandes aventuras, por isso, depois de umas compras breves, mas necessárias, sento-me na pastelaria do costume, a esta hora quase vazia. Peço um café e uma nata - é certo que não é dos "Pastelinhos", mas  não deixa de ser saborosa, o suficiente para satisfazer a urgência de mimo, mais do que de açúcar. Coisa pouca, é certo.
Não fosse a música que jorra da televisão e que excede em decibéis mais do que os meus ouvidos e a minha vontade de sossego consentem, estes minutos poderiam significar um modesto pedaço de paraíso.
Entretanto, levanto a cabeça do pequeno caderno de apontamentos em que escrevo, e vislumbro, já a fugir-me do alcance da vista, a amiga de muitos anos, a mais antiga, depois dos irmãos e de alguns primos. Apresso-me a telefonar-lhe e, em poucos minutos, ela surge, sorridente, na minha frente, para alguns minutos de conversa amena, a polvilhar de açúcar o fim da tarde. Quebro, assim, a rotina neste dia que acordou tempestuoso, a desfazer-se em chuva, como se «pareciera que están lavando el mundo» (Juan Gelmán).

2 comentários:

Isabel disse...

Às vezes esses pequenos prazeres são o que nos enche a alma. Sabem bem!

Gostei do texto!

Bom fim-de-semana:)

deep disse...

São "instantes de maravilha", para usar uma expressão do Pessoa, Isabel.

Obrigada! Bom fim-de-semana. :)