sábado, dezembro 21, 2013

Tu ignoras esse Natal

Tu ignoras esse Natal
que persiste na minha memória
e me aconchega.

Falo desse Natal que é ainda o meu avô
a abrir a porta que dava para o cortinheiro
às manhãs frias.

Ou um santo António
a assomar numa nota de vinte escudos,
a cor e o aroma das tangerinas
e das laranjas, que se ofertavam ao menino.

O Natal em que a roupa dormia, gelada, 
no estendal da varanda,
a chama e o calor da fogueira que procurávamos
depois da missa do galo, quando as luzes da aldeia
se apagavam.

Os almanaques do tio, o arroz doce da tia,
que repousava na sala que só se abria
para as visitas em dias de festa.

Foi num desses natais
que recebi o meu primeiro relógio.

A partir de então,
aprendi a voracidade das horas, 
o efeito corruptor do tempo.

deep, há minutos

5 comentários:

Isabel disse...

Bonitas recordações!
Nesse tempo, o Tempo tinha para nós (crianças) outra dimensão!

Lindo texto/poema.
Um beijo

deep disse...

Obrigada, Isabel!
Um beijo

josé luís disse...

todos temos um natal assim, de recordações antes de terem inventado os relógios. obrigado pela partilha. e feliz natal ;)

deep disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
deep disse...

José Luís, obrigada pelas palavras e pelos votos. Um Natal Feliz. ;)