quarta-feira, dezembro 18, 2013

Paisagem


Dizes saber de cor o rio que corre em frente da tua
janela
dizes que as cantigas da água são sempre líquidas e
insípidas
e que, do canto das aves, resta só o verde musgo nas
pedras.

Esperas a noite onde a prata da lua te cega as mãos
e escreves à toa poemas de vidro que se despedaçam
no primeiro contacto com a dolência da tua voz.

Mistura numa paleta: o rio que corre, o canto das aves,
o feitiço da lua e todos os estilhaços do poema...
Não esqueças os homens do barco, ao longe.

Deixa repousar por algum tempo. Não muito.
Agora pinta uma paisagem nova para os teus olhos
na esquadria refeita da tua janela aberta ao mundo.

Lídia Borges, Sementes Daqui, poética edições