terça-feira, outubro 01, 2013

Memórias da chuva... em modo "repeat"


Gosto de sol, pela luz, pelo calor (desde que não seja excessivo). Experimento uma espécie de aconchego quando o sol entra, morno, pelas frinchas das persianas e se desenha em jogos de luz e sombra nas paredes. Fascinam-me ainda os raios de luz reflectidos, a lembrar pirilampos, na água, como, apesar de repetidos, o nascer e o pôr do sol são ainda êxtase.
Já a minha relação com a chuva é mais contraditória. Aprecio-a pelo que tem de benéfico, pela cor que empresta às paisagens, ou quando me embala e convoca o meu sono. Porém, quando se demora, acaba por me aborrecer e deprimir.
É, talvez por tudo isto, um pouco estranho que algumas lembranças felizes tenham como cenário dias de chuva e lugares onde ela é frequente. Ocorrem-me as paisagens e os caminhos de S. Miguel, onde o verde é mais vivo e o cheiro de terra molhada e de algumas plantas se tornam inesquecíveis depois da chuva; um fim de tarde em Serralves, em que, debaixo de uma chuva impiedosa, fizemos o trilho de areia vermelha que nos conduziu a uma palestra de Eduardo Lourenço; a imagem de grossas gotas de chuva em investida contra a janela, num despertar em Amesterdão; um início de noite, num minúsculo jardim de uma casa vitoriana, em Londres; uma chuva torrencial em Santiago.
Tudo me chega de tempos e espaços longínquos, como cenas de um sonho, e tudo, ao mesmo tempo, tão meu, ainda que em fragmentos que ameaçam fugir-me.

06 de Maio de 2012

2 comentários:

Isabel disse...

Também gosto da chuva, com conta e medida. Gosto das primeiras chuvas, que trazem o cheiro da terra molhada. Gosto de ouvir a chuva lá fora, quando estou sossegada em casa. Gosto mesmo de andar à chuva, sem horários a cumprir, nem nada nas mãos, que me impeça de a "curtir". Mas quando a chuva vem por dias seguidos e traz o Inverno, deprime-me e cansa-me.

Enfim, tudo tem a sua beleza, mas quando é demais cansa!

Uma boa semana! :)

Anónimo disse...

Eu também gosto de chuva quando ela deixa saudade... Se impõe a sua presença, aborrece-me. Se se afasta um pouco, já anseio por um breve regresso. Sou de S. Miguel, onde a chuva é condição «si ne qua non» para sermos Açores!!!! Mas, às vezes, ausenta-se... e sorrio quando a vejo regressar. Outras vezes, mantenho-me carrancuda por muitos dias, a ver se ela ganha vergonha na cara e vai-se embora. Enfim. Mas gosto mesmo é de sol. As ilhas ficam mais belas ainda. Mas também é com o sol que se vê a importância. Este verde nada seria se não fosse a chuva. A natureza é perfeita. :)