sábado, outubro 19, 2013


Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.

Eugénio de Andrade, As mãos e os frutos

Imagem de Erika Hopper

3 comentários:

Isabel disse...

Somos todos um pouco solitários.
O poema é lindo e gostei da imagem. Não conheço a pintora. Vou investigar no Google.
Bom fim-de-semana!

Nilson Barcelli disse...

A solidão é tramada...
Bela escolha poética.
Tem um bom fim de semana, querida amiga.
Beijo.

deep disse...

Isabel, somos irremediavelmente solitários, ainda que amemos ou nos amem... não tenho dúvida!
Também não conhecia a pintora até ontem. :)

Um óptimo fim de semana. Bjs

Nilson, pois é e, como já escrevi, irremediável... mas "iludível".
Um beijo e um óptimo fim de semana, poeta. :) Um beijo