segunda-feira, setembro 23, 2013

Até sempre, poeta!

Nascimento último

Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa, No Calcanhar do Vento

3 comentários:

josé luís disse...

este, felizmente, é dos imortais

Hipatia disse...

O homem que um dia escreveu que "As palavras são por vezes um clarão no dia calcinado".

(Apagou-se outra estrela; felizmente deixou as palavras.)

deep disse...

Felizmente, josé luís.

Hipatia, as palavras dele hão-de continuar a ser esse clarão.