segunda-feira, julho 29, 2013

Em voz baixa


Desce ao abismo.
Bebe o sangue da terra e absorve-o
por cada poro do teu corpo
como se cada ferida fosse o preço
de outra ferida maior.

Desce ao abismo e vê
como trabalha o ódio,
como o ensinam às crianças,
como é fácil a morte.

Há uma estrela de seis pontas
que só te pede vida,
um céu onde te aguarda desde sempre
a porta mais estreita.

Não tenhas medo:
desce ao abismo e estende agora
a tua mão. Com ela
agarras outra mão e atravessas
a noite
o deserto
um espelho de mil faces que te mostra
a cor de cada rosto.

Dá o primeiro passo, recupera
a sede mais antiga,
o primeiro milagre, a “confiança
da árvore no seu fruto”.

Lê de novo esse livro em voz baixa:
cada palavra que disseres
celebra ainda a tua dor       
e brilha como as lágrimas de Deus
em cada vértice da estrela.

Fernando Pinto do Amaral, Poemas escolhidos

2 comentários:

DM disse...

Um belo poema.

deep disse...

Muito, sem dúvida. :)